Fomos a três das cerca de 7100 ilhas que formam o arquipélago das Filipinas. Uma pela exclusividade, outra pelo sucesso turístico e ainda outra pelas belezas naturais fora do normal. E descobrimos que o paraíso é já ali, no outro lado do planeta.

Pamalican, a exclusiva

Os dois motores do avião privado da Aman Resorts já estão em funcionamento. Na sala de espera do hangar em Manila, capital das Filipinas, um casal de japoneses com dois filhos aguardam que os chamem. Vão consultando o iPad e bebendo café de cápsula abrigados pelo fresco do ar condicionado. Antes do embarque no Dornier, são servidas toalhas refrescantes, uma garrafa de água e uma bolsa com informações sobre o destino – a ilha privada de Pamalican, casa do resort de luxo Amanpulo. A viagem até à pequena ilha no mar de Sulu (cinco quilómetros de comprimento por quinhentos de largura) leva pouco menos de uma hora e a aproximação à pista é difícil de esquecer – uma barreira de coral de sete quilómetros quadrados rodeia a porção de terra.
Os sorrisos dos funcionários do Amanpulo são o primeiro sinal de que tudo está pensado para correr bem. Seguem-se os colares de flores colocados à volta do nosso pescoço. Rapidamente percebemos que potenciam a aproximação de mosquitos e abelhas e passam sem grandes cerimónias para o banco de trás do carrinho de golfe que nos transporta para o edifício principal do aldeamento. Aqui o check in é uma formalidade que passa sem se perceber. Já há refrescos e petiscos sobre a mesa, à beira de uma piscina com trinta metros de comprimento rodeada por buganvílias e colchões que chamam por nós. Mas ainda não é tempo de preguiça. Falta uma visita guiada às áreas comuns, um tour de uma hora pela ilha. Tudo parece perfeito. E é.

A 288 quilómetros a sul de Manila, a vista de Pamalican é para outra ilha – Manamoc. É de lá que vêm cerca de metade dos funcionários deste resort de luxo. E lá que a Fundação Andres Soriano (da família proprietária do empreendimento) transforma em bem-estar as contribuições dos hóspedes deste Aman Resort. Construção de escolas, subsídios para livros, bens de primeira necessidade, água potável ou apoio ao artesanato local são algumas das áreas. Mesmo ao lado do gabinete da fundação está o Beach Club, um dos locais onde a estrela da música Mariah Carey se fez fotografar. A praia é digna de ser fotografada, de facto. Vegetação até ao areal branco, mar turquesa, cocktails, espreguiçadeiras e pratos de inspiração espanhola.

O avião privado que nos leva a Pamalican é a primeira das experiências de topo a que tivemos direito. Depois vê os jantares na praia, os passeios de barco, as massagens e as luxuosas villas onde tudo parece perfeito.

Menos de cem metros ao lado, um trilho leva-nos à villa que nos servirá de lar durante os próximos dias. Escondida na mata, uma rede esticada entre duas árvores espera por clientes. Nos deques de madeira em redor da casa, confortáveis sofás brancos e uma vista de mar de fazer inveja aos mais insensíveis. No interior, o luxo asiático, uma cesta com fruta variada, uma garrafa de champanhe – não espumante – e doces. E a garantia de Meno, o nosso «mordomo», de que tudo o mais de que precisemos será providenciado. Este antigo trabalhador num call center em Manila é o mais parecido que se pode encontrar com um embaixador do resort. O sorriso não falha, nem o profissionalismo. «E que tal experimentarem o spa?», pergunta-nos. Proposta aceite.
Rio Nellas tem nome de curso de água e de cidade maravilhosa e recebe-nos descalça, cabelo apanhado em rabo de cavalo e roupas desportivas. Ainda não tem 25 anos, é uma entusiasta de ioga e de mergulho e oferece-nos um chá gelado enquanto faz as honras do Aman Spa. Estamos numa das poucas colinas da ilha, temos vista de mar e salas de tratamento com janelas abertas para a paisagem. Até o estúdio de Pilates parece um local aprazível. Não tanto como a sala de meditação e ioga onde Rio mostra agora as suas capacidades. Sentada no varandim, virada para o oceano, a filipina parece tirada de um filme. É ela, a ilha, o resort e toda a realidade destes dias únicos e, provavelmente, irrepetíveis. Há jantares de leitão assado – prato tradicional filipino – no areal da praia, com um músico a cantar temas populares no país, há ementas tailandesas com vinhos de topo, há passeios de barco para spots de mergulho onde raias, tubarões e tartarugas convivem com os mergulhadores, há almoços animados com os pés na areia. Há de tudo. Até há, no último dia, funcionários do hotel a acenar na pista enquanto o bimotor se afasta. Acima de tudo há saudades.

Bruce Thomason, da Nova Zelândia, é o chef executivo do Amanpulo.

Boracay, a turística

Otriciclo a motor tem uma configuração estranha. Parece saído de um episódio dos Jetsons, a série de animação futurista norte-americana que durou dos anos 1960 aos 1980. Com linhas curvas, rente ao chão, mal dá para dois homens adultos mas chegam a circular com famílias inteiras. É neste meio de transporte que chegamos à White Beach, escolhida quase todos os anos como umas das três melhores praias do mundo pelos especialistas – isto é, revistas e sites de viagens, prémios de turismo e afins. A revista Travel + Leisure elegeu-a em 2012 a melhor ilha do planeta. São quase quatro quilómetros de areal branco ladeado por resorts, hotéis, restaurantes, bares e lojas até à estrada. É à beira dela que ficamos, entre dezenas de turistas coreanos, japoneses e chineses com os seus selfie sticks em punho.
Na Estação 2 da praia fica o D Mall, o centro comercial ao ar livre que leva ao mar. É o ponto de recolha e de largada dos triciclos e das carrinhas dos hotéis. Pelas ruas de terra batida sempre limpas e impecáveis encontra-se tudo: roupa, material de mergulho, fruta, especiarias, artistas de rua que fazem caricaturas, crianças a pedir esmola, jovens a oferecer massagens e outros serviços, angariadores de clientes para os bares e restaurantes.

Boracay é uma ilha da região de Visayas, província de Aklan, que começou a receber turistas no início dos anos 1970. Na década seguinte ganhou a atenção de mochileiros – backpackers – de todo o mundo em busca de uma experiência paradisíaca na Ásia. E nos anos seguintes chegou o turismo em massa. Ofertas não faltam, para lá das águas quentes e do areal branco. Durante o dia, este é um destino para praticantes de windsurf, kitesurf, snorkeling e mergulho. À noite, as atividades radicais são outras.

Ao longo do ano, são várias as opções de desportos náuticos para praticar. O parasailing tem muitos adeptos, tal como o windsurf e o mergulho. À noite, a atividade física envolve dança e bebida.

A cinco minutos de triciclo do coração da praia encontramos o Cocomangas, o mais conhecido e frequentado bar de Boracay. Existe desde 1987 e é conhecido pelo seu ritual dos 15 shots. Quem os conseguir tomar e se mantiver em pé, no final tem direito a ir para a parede da fama. Nela, estão ordenados os países pela ordem de maior número de sobreviventes a tão dura prova que combina tequila, vodka, gin, licores e sumos de fruta em variadas receitas.
A lista é encabeçada pelas Filipinas, com mais de 11 mil «heróis». Portugal está na posição 47, com 24 aventureiros. Nenhum desses tem qualquer ligação à revista Volta ao Mundo.

À porta do bar, notam-se alguns sinais de provas não superadas. No interior, as música de dança mais comerciais arrastam dezenas de turistas para a pista. Na sua grande maioria são jovens asiáticos em férias que querem aproveitar ao máximo o momento. A opção é procurar outras paragens, novamente junto à praia. Hipóteses não faltam. Pelo caminho voltam os convites para massagens e algo mais, há desfile de ladyboys pelo areal e bares a debitar som porta sim, porta sim. Os restaurantes abertos até mais tarde despedem-se dos últimos clientes, o vento quente sopra do mar e não há vontade de ir já dormir. Parece um pecado em Boracay, onde é fácil ver nascer o Sol. É para isso que muitos turistas cá vêm, para festejar, para quebrar barreiras e perder a cabeça. Uns estão claramente nessa onda. Outros nem por isso.

Está a chover torrencialmente, a estrada é como uma ribeira. A água entra no triciclo por todos os lados e a encosta é íngreme até ao Shangri-La Boracay Resort & Spa, o hotel de sonho que nos aguarda. É ao amanhecer que se tem a sensação de estar num sítio especial. As águas da praia de Puka chamam-nos para um mergulho. São as mesmas que nos receberam quando lá chegámos de barco. O pontão de desembarque é também utilizado para casamentos e podemos garantir que é um belo local para dar o nó. Dos quartos, suites e villas a vista é sempre agradável, seja para a mata ou para o mar. Há momentos em que nos esquecemos que um dos melhores destinos turísticos e de vida noturna da Ásia está ali, a meia dúzia de quilómetros. E isso não tem preço.

Palawan, a maravilha

Quer saber o caminho para o paraíso? Apanhe um voo de Portugal para Manila e, da capital das Filipinas, voe para Puerto Princesa, a principal cidade da ilha de Palawan, e siga de automóvel durante cinco a seis horas para norte, até El Nido. Também tem a possibilidade – mais dispendiosa – de voar diretamente de Manila para El Nido, mas assim perderá a hipótese de visitar o rio subterrâneo a oitenta quilómetros de Puerto Princesa e a oferta gastronómica da cidade. Seja qual for a opção, quando chegar a El Nido, não pense em voltar a casa ou continuar à procura de um sítio perfeito. É mesmo aqui.

Foi essa a sensação que tivemos quando a carrinha que nos transportava fez uma das curvas entre as praias de Las Cabañas e Corong-Corong, a dois quilómetros (cinquenta cêntimos de triciclo) de El Nido. O hotel Island Front estava reservado e a escolha foi acertada como se veio a provar nos dias seguintes. Ao largo da região há mais de cinquenta ilhas com praias onde apetece ser náufrago. Emil Primorac é dono de uma delas. Este espanhol de Madrid, de origem croata, chegou há seis anos a El Nido apaixonado por uma mulher, mas a história de amor acabou por ser por El Nido. Numa das primeiras manhãs, acordou na praia e sentiu que era ali que queria viver. Moveu montanhas e juntou setecentos mil euros para comprar a ilha de Cauayan. Hoje, a propriedade está avaliada em três milhões de euros graças ao empreendimento de cinco estrelas Cauayan island Resort que ali abriu em dezembro do ano passado.
É Emil que vai ao volante da lancha rápida. A dez minutos da baía de Bacuit, onde se erguem os pequenos hotéis, restaurantes e bares ainda pouco massificados de El Nido, está a sua ilha. Mostra orgulhoso a sua casa virada para o mar e desafia-nos para seguir viagem e descobrir mais três ou quatro locais que, diz, nos vão deixar «completamente rendidos». É entre o estreito de Linapacan, o mar de Sulu e o mar da China que saltamos as ondas. Uma tartaruga vem à superfície respirar. Mais à frente, um cardume de peixes-voadores saltam ao lado da lancha. A paisagem é única: ilhas pequenas e grandes das mais variadas formas, rochedos no meio do mar e recantos junto a terra onde a água tem cores que nem o melhor Photoshop alcança. A cada nova paragem, Emil sorri. «Fico feliz com a vossa alegria», diz. «Essa é a maior prova de que estamos num sítio único.» Secret Lagoon, Commando Beach, Snake Island, Secret Beach, os nomes vão passando e a boca abre-se cada vez mais de espanto. É impressionante. Mesmo para quem já tenha visitado praias em Portugal, no Mediterrâneo, em África, nas Caraíbas, no Índico ou em outros pontos da Ásia. É tudo: a temperatura, a cor, a natureza em redor, a companhia, o almoço de peixe e porco assado com manga fresca e cerveja fresca.

Ao fim do dia a lancha volta a El Nido. As estrelas indicam o caminho. Só há tempo para tomar um duche rápido, mudar de roupa, manter as havaianas nos pés e sair para comer num restaurante local. Frango e porco adobo são pratos tradicionais à base de molho de soja e de longas horas de confeção. Sempre acompanhado de molho de calamansi, umas adoráveis minilimas que juntam o melhor da laranja com o melhor do limão. «Vamos ao Pukka?», pergunta Emil. Nada melhor para terminar um dia perfeito – um bar jamaicano na praia. Há rum-cola, cerveja, música ao vivo, filipinos e turistas, estrangeiros que se mudaram para El Nido e aqueles que querem largar tudo e vir para cá. Não vale a pena procurar mais, o paraíso é mesmo aqui.

Emil, o espanhol, chegou, viu e não quer sair mais de El Nido. Comprou a ilha de Cauayan e abriu um hotel de cinco estrelas. Anda todos os dias de calções e chinelos.

 

Texto de Ricardo Santos - Reinaldo Rodrigues/Global Imagens
Reportagem completa na edição de abril 2015 - n.º 246