Arquitetura, gastronomia, arte, história, mar de águas turquesas, banhos de lama e tardes passadas ao sol. Na Sicília não falta nada, nem a imponência dos seus vulcões.

Uma ilha mágica

Estigmatizada pelas suas conexões mafiosas, a Sicília é a joia incomprendida do Mediterrâneo. Fenícios, gregos, romanos, bizantinos, árabes, espanhóis e normandos não podem estar enganados – a todos eles cativou a magia desta ilha. As suas impressões permanecem vivas numa terra cujo passado é mais certo do que o futuro. Esta herança está presente para lá dos belíssimos vestígios jónicos do vale dos templos, dos mosaicos normandos da catedral de Monreale ou das impressionantes cidades moldadas pelo barroco siciliano. A herança de mil povos e culturas percebe-se no caráter indomável de cada siciliano e num individualismo que os faz renegar os seus vizinhos do Norte. Na maior ilha do Mediterrâneo, a oferta está de acordo com o tamanho: cidades históricas, praias com encanto, gastronomia única, arqueologia adormecida e vulcões despertos aguardam o visitante.

Sicília

A ilha

EM PALERMO, os males e as virtudes da ilha andam de mãos dadas: as obras nas estradas e o trânsito impossível partilham o espaço com uma arquitetura de extraordinária beleza. Com o caos como sinal de identidade, os palermitanos convivem com a decadência e o esplendor. O triângulo Noto-Ragusa-
-Módica é de uma beleza a par de qualquer joia da Toscana e, apesar disso, mantém-se alheio à voracidade do turismo tão presente no resto de Itália. Discreta, silenciosa e vivida, ainda é possível perdermo-nos pelas ruas desta Sicília sem chocarmos com lojas de souvenirs a cada esquina.
EM RAGUSA, cenário ficcional da série de televisão Il Comissario Montalbano, as ruas e escadarias por onde transita o comissário perseguindo delinquentes são na realidade locais mais feitos para o amor do que para o crime. A catedral de Ragusa é um dos mais cobiçados cenários para se dar o nó. Pelas suas barrocas escadarias sucedem-se os casamentos e legiões de convidados, vestidos com roupas de marca, enormes óculos de sol e saltos altos bem afiados. Entre cada boda, o incenso luta por impor-se ao perfume que continua a impregnar a igreja muito tempo depois de terminar a cerimónia.
O sentido da visão tem o seu Santo Graal EM NOTO. Denominada «jardim de pedra», esta cidade é a joia do barroco siciliano. Declarada Património da Humanidade em 1996, Noto é cidade de postal, um museu vivo ao ar livre e um regalo para os olhos.
MÓDICA, a doce, é outra das cidades da Sicília, famosa pelo seu chocolate artesanal. Apela ao sentido do gosto com as suas pequenas oficinas artesanais de chocolate – 100% puro – fabricado seguindo a mesma receita e o mesmo processo dos antigos astecas. Rugoso, áspero, desajeitado, mas com um sabor autêntico e sem adulteração.
EM CATÂNIA cheira a peixe fresco. La Pescheria, o mercado de peixe, encena-se todas as manhãs um espetáculo a meio caminho entre o comércio e o teatro. Enormes cabeças de atum e tubarão repousam sobre pequenas bancas de madeira enquanto os gritos dos vendedores, apregoando o seu produto, proporcionam a banda sonora. Por trás de uma montanha de marisco esconde-se o corpo do comerciante com as suas mãos em constante movimento de santolas, lagostas e ostras. Os peixes, enroscados nas caixas, refletem o sol da manhã nos lombos prateados e projetam o brilho como se fossem flashes de câmara numa qualquer estreia de um filme.
SIRACUSA é a cereja no topo do bolo. Cícero descreveu-a como a mais bela cidade da Grécia Antiga. Em Ortiggia, a ilha que alberga o centro histórico de Siracusa, La Piazza del Duomo, com seus impressionantes palácios e um pavimento de brilhantes lajes de pedra gastas pela erosão de milhões de passos, é um autêntico décor de filme de época. Quando cai o sol, os siracusanos iniciam a peregrinação diária da passeggiata no Lungomare com destino a lugar nenhum. Famílias, amigos, amantes juntam-se neste passeio à beira–mar aproveitando os últimos raios de dia e, no regresso, inspiram a frescura que a noite acabada de estrear oferece.

 

Para o mar

Desde as enormes extensões de areia até aos promontórios de rochas de onde se mergulha para as transparentes águas do mar, passando pelo fervor balnear dos arredores de Palermo e pela autenticidade das suas pequenas localidades costeiras, a Sicília é um paraíso para os amantes de praia. Quando no verão o calor derrete os termómetros com temperaturas de 40 graus, os palermitanos escapam em massa da loucura do trânsito da sua cidade rumo às praias de Mondello, a escassos quilómetros de Palermo. A menos que a sua ideia de um dia de praia passe por fazer slalom entre as espreguiçadeiras, guarda-sóis e milhares de banhistas, o melhor é passar ao largo e continuar um par de horas mais em direção ao Oeste, até chegar ao golfo de Castellamare e à pequena localidade de San Vito lo Capo. Famosa na época romana pelos balneários e pela imensa praia, a pouca profundidade da baía permite submergir centímetro a centímetro enquanto se caminha observando o fundo do mar através das águas de intensa cor turquesa. Demasiada beleza para passar despercebida. Por isso, na temporada alta, sem alcançar as multidões de Mondello, os seus areais enchem-se de milhares de corpos competindo pela atenção do sol. Se alguém se aproxima daqui nos meses de junho ou setembro, tem de ser homenageado.

 

E se em vez do oeste se optar por seguir a direção este desde Palermo, chega-se a Cefalù. À medida que nos aproximamos surge a cidade virada para o mar e protegida por uma imensa encosta de pedra que se eleva como se fosse um cenário construído de forma artificial, para adicionar dramatismo às fotografias de postal que inevitavelmente são tiradas deste ângulo. Apesar das lojas de souvenirs e das dezenas de restaurantes com menus turísticos, Cefalù conseguiu manter um certo ar de aldeia de pescadores. Vale a pena pernoitar aqui nem que seja só para contemplar o entardecer desde a pequena marginal junto ao mar, com o sol a descarregar o último vigor do dia sobre as casas frente à praia.
Para os que entendem a praia como um lugar para ver e ser visto, a costa este da Sicília oferece as melhores passerelles. A Isola Bella de Taormina, uma pequena montanha separada da praia por um estreito de água de baixa profundidade, é lugar de visita obrigatória para os apaixonados. Um pouco mais a sul, nos arredores de Catânia, na chamada Riviera dei Ciclopi, jovens sicilianos trabalham para o bronze na praia e saboreiam um granizado de limão, café ou amêndoa nos bares de praia. Os promontórios de rocha vulcânica que saem do mar – e que, segundo a lenda, foram erguidos pelos cíclopes, que habitavam nas entranhas do vulcão Etna, contra Ulisses na sua fuga por mar – servem de cenário para aventuras menos épicas que todos os finais de dia têm lugar nos terraços naturais repletos de jovens frente ao mar. En Agrigento, com a luz dos raios oblíquos do entardecer a fazer ricochete na imaculada superficie, seria possível pensar que, convencidos por uma miragem, o terraço de tom branquíssimo que entra pelo mar é na realidade um icebergue sobre o qual se acomoda un grupo de pinguins. À medida que nos aproximamos, caminhando pela praia, damos conta de que a branca superfície da Scala dei Turchi não é gelo, é um capricho geológico de cal e argila, desgastado por milhares de anos de erosão pelos elementos. Os pinguins que acreditávamos adivinhar à distância são apenas banhistas atraídos pela beleza deste prodígio natural na costa sul da Sicília. Ali acima, à mercê da erosão do mar e do vento, a paisagem é ainda mais extraordinária, formando uma sucessão de plataformas e socalcos naturais esculpidos na rocha, paraíso terreno para os amantes do bronzeado perfeito.

Sicília
Outra praia de nome mitológico, Eraclea Minoa, serve-nos para encerrar o nosso périplo em busca de sol e de mar. Também em Agrigento, a escassos quilómetros de La Scala dei Turchi, na fina areia de Eraclea Minoa protegida por um bosque de pinheiros, surge outra miragem quando vislumbro um grupo de figuras de barro caminhando em passo rígido pela praia. Quando me aproximo deste exército de terracota descubro uma família siciliana coberta dos pés à cabeça de lama medicinal que brota do interior de uma gruta. Uma oportunidade única para aliviar a minha pele queimada com um presente de minerais.

Os terraços naturais da região de Agrigento são procurados por turistas em busca do bronzeado perfeito. O caminho pode ser tortuoso, mas a recompensa faz esquecer tudo.

Arte antiga e nova

A região de Agrigento, no Sul da Sicília, não é alheia à arte. Os templos dóricos que marcam o Vale dos Templos e as esculturas e delicadas ânforas gregas nos nichos do museu arqueológico constituem grandes tesouros da ilha. No meio de bosques de oliveiras e ladeado por uma frondosa vegetação, este complexo arqueológico rivaliza com a Acrópole de Atenas, se não em importância histórica, pelo menos em beleza. O que desconhecem os turistas que aqui chegam (atraídos pelo passado) é que o seu pedigree artístico não se limita aos vestígios do mundo antigo. A poucos quilómetros, na localidade de Favara, a revolução artística tomou conta das ruas de um povoado condenado à negligência e fez da arte contemporânea a sua bandeira.
No seu delapidado centro histórico – o casco viejo – as casas que até há pouco tempo estavam sob ameaça de ruína são hoje galerias onde se exibe a mais vanguardista arte italiana. As paredes caiadas servem de telas para murais pop e nas esquinas onde crescia erva daninha e se aninhavam ratazanas hoje surgem instalações artísticas próprias de espaços de Nova Iorque ou Londres. No Farm Culturalpark a arte é o motor de regeneração. Favara está hoje no mapa do circuito artístico internacional e nas ruas labirínticas e nos espaços de exposições desta comunidade as novas propostas dos jovens artistas respiram ar fresco e ombreiam com exposições permanentes de artistas de fama internacional.

(Foto: O Vale dos Templos, em Agrigento e a catedral de Palermo  são dois pontos obrigatórios de visita)

Vulcões

Há poucos lugares no mundo onde se pode deixar a porta aberta às entranhas da terra, deitando um olhar às tripas do nosso planeta, que em determinados momentos de indigestão se retorcem, bramam e lançam para o ar rochas incandescentes, deixando escapar nuvens de gases e rios de lava. Na Sicília, dois vulcões ativos, o Etna e o Stromboli, oferecem-nos periodicamente este espetáculo único. No vulcão Stromboli, observa–se a Sciara del Fuoco, a encosta pela qual, quando há erupções, a lava desliza até ao mar. Este vulcão, com somente quarenta mil anos, é um bebé em termos geológicos e a sua tenra idade faz que seja um dos poucos no mundo que regista atividade constante. Quando alguém se aproxima pelo mar, surge no horizonte como um desenho de aluno da escola primária: perfeitamente cónico e com uma fina nuvem de fumo a sair da cratera. Antes de cair a noite e com tempo suficiente para observar o entardecer desde o cume (a novecentos metros de altura), partem grupos com lanternas e botas de trekking para ver as explosões que, com intervalos de 27 minutos, se produzem todos os dias. O meu fascínio pelos vulcões cresce a cada dia que permaneço nas ilhas Eólias, todas elas nascidas da fúria destes fenómenos naturais. Vou em busca do seguinte, de cujo nome surgiu a denominação genérica de todos os demais: Vulcano. Na Antiguidade, Vulcano era o temido deus do Fogo e da Guerra e, quando se caminha pela berma da sua imensa cratera, é fácil entender como, de acordo com a mitologia popular, este gigantesco buraco foi visto como a porta do inferno. Fendas nas encostas deixam escapar gases sulfurosos que tingem as rochas de amarelo e ameaçam seriamente os pulmões dos inconscientes que, como eu, ousam aproximar-se demasiado. Estes gases, além de muito quentes, são tóxicos e o seu efeito na garganta e nas fossas nasais é imediato. Uma vez abaixo do vulcão, a melhor forma de recuperar da caminhada é com um banho na lama natural que emana das proximidades. O cheiro a enxofre não é muito diferente do de ovos podres, mas ao menos o seu efeito sobre o organismo é mais benéfico. Descontraído, aplicando este milagroso barro pelo corpo, regozijo como um hipopótamo num charco, nesta imensa banheira natural.

Guia:

Comprar

De olhos postos em garrafeiras italianas, não será fácil escolher o vinho entre a grande oferta. Mas há o Marsala, doce, proveniente da cidade que lhe dá nome, do Norte da ilha. Para apreciar com calma, em boa companhia e um prato de queijo. E queijo há de todo o tipo e qualidade, de ovelha ou vaca, por exemplo: Pecorino, Canestrato, Piacentinu e Ricotta Salata. A ilha alberga dos melhores mercados do mundo. Há um na Piazza Carlo Alberto, em Catânia, e em Palermo, o Capo, o Vucciria e o Ballaró. Todos ao ar livre com bancas coloridas a perder de vista. Os pistácios são muito procurados na região por serem considerados os mais doces. Dão sabor a gelados, a tempero da comida, e há frasquinhos ideais para pratos de massa («Oh my Sicily») – assim qualquer um será um verdadeiro chefe. Falando em massas, pasta alla norma é muito tradicional em Catânia. Para quem procura lojas em Palermo, as melhores estão entre a Via Ruggero Settimo, a Piazza Politeama e Via della Libertà. Há uma zona pedonal na Via Principe Belmonte, perpendicular à Ruggero Settimo, onde vive o comércio local, as floristas, bares e cafés para um gelado ou um cannoli – uma sobremesa típica.

 Visitar

Em Agrigento há o Vale dos Templos, um parque arqueológico e paisagístico, onde descansam ruínas de templos gregos. Praias de água transparente rodeiam a Sicília, mas Cefalù continua a ser umas das melhores opções. Uma antiga vila de pescadores de ruas estreitas e desordenadas, com uma catedral imponente. Em Palermo tropeçamos em cada esquina nos museus, teatros e igrejas. Para caminhadas na maior zona verde da ilha, os trilhos e atividades são à volta do vulcão de Etna, o maior ativo na Europa e o ponto mais alto da Sicília. Em Catânia, o Teatro Romano, que tinha originalmente capacidade para sete mil pessoas, é uma referência histórica; e também o Castelo Ursino do século xiii. Taormina é o maior centro turístico da ilha, mas uma das cidades mais chiques da Sicília – a altura mais indicada é entre outubro e março para fugir à confusão.

Rafael Estefania
Leia a reportagem completa na edição de abril nº 246 da Volta ao Mundo.