Nesta cidade religiosa há um lugar especial: a Quinta da Auga. Pretexto para um fim de semana entre as ruas charmosas, a pedra, a gastronomia e o verde em cada esquina.

Santiago de Compostela é uma cidade destino de peregrinação cristã – só é ultrapassada por Jerusalém e Roma. Um pé de cada vez ou a pedalar, os peregrinos percorrem os Caminhos de Santiago. A cidade aparece por isso como prémio de uma prova de resistência. E a catedral é um ponto de chegada como de partida à descoberta da cidade de ruas estreitas.

Um bom roteiro começa fora das ruas de pedra, no Parque Alameda. Carvalhos centenários e uma panorâmica dos telhados. Descanse nos bancos voltados para a catedral e aproveite para visitar a Igreja de Santa Susana, românica de fundação (século xii), «gotificada» em intervenções posteriores.
Entrando no coração de Santiago, as ruas movimentadas indicam o caminho. As duas principais são as do Franco e do Vilar, com fim nas praças do Obradoiro e Praterías. Na segunda, a escadaria abre caminho para uma das entradas da catedral e para a Praça da Quintana. Faça uma pausa no Café dos Literários. Contornando a última lateral está no Obradoiro, onde o sol ilumina a pedra escura. Sente se no chão, de frente para a fachada barroca, e sinta a força da construção. Ou entre no edifício e descubra o Museu da Catedral (entrada 6 euros).

Se já for hora de tapear, faça uma paragem na porta 10 da Rua do Franco. Nos Petiscos do Cardeal há marisco e pequenos pães recheados, servidos num balcão corrido, ou na sala mais à frente – com portas para uma esplanada. Na carta, pratos galegos e cerveja Estrella Galicia ou vinhos locais, entre eles o Albariño – a versão galega do nosso verde (preço médio 15 euros).

Tapas e petiscos na porta 10 da Rua do Franco. Sobretudo de coisas do mar.

Depois de conhecer o centro, atreva-se um pouco e faça um desvio por caminhos pouco trilhados. A sul está a parte nova, movimentada e com lojas internacionais – nas quatro ruas que se unem na Praça Roxa. Ainda nesta área, mais abaixo, está a estação de comboios e o Parlamento da Galiza. Santiago é também uma cidade de espaços verdes com vistas únicas. O maior e ideal para caminhadas é o Parque de Belvís, a leste. A Rua das Trompas interceta o jardim a meio e é um dos acessos para chegar ao Convento de Belvís. Mais acima está o Parque de San Domingos de Bonaval, um cenário verde à altura dos telhados alaranjados.
Também fora do centro vale a pena ir à Cidade da Cultura. O edifício construído sob projeto de Peter Eisenman – arquiteto do Memorial do Holocausto, em Berlim – é um polo cultural dedicado ao conhecimento e à criatividade contemporânea.

Uma quinta rodeada de água

Em Santiago de Compostela, o luxo de uma casa para descansar depois do Caminho de Santiago. Entre quedas de água do rio Sar.

Em 2003, quando José Ramón Lorenzo e Luísa Garcia Gil decidiram comprar uma antiga fábrica de papel de 1792, sabiam muito bem o hotel que queriam. Luísa, arquiteta com experiência em restaurar casas, e José, do ramo do imobiliário. Ao longo do século xix, este foi espaço de várias indústrias, tirando partido da passagem do pequeno rio Sar. Começou com o papel, negócio que viu o seu fim quando os ingleses inventaram a máquina a vapor. Também os têxteis tiveram o seu tempo, como a madeira e a pedra, chegando até a ser fábrica de gelo e por fim ruína. Foram precisos seis anos de obras e papelada para, em junho de 2009, abrir A Quinta da Auga, uma hotel com a garantia Relais et Châteaux, rodeado de natureza quase selvagem de um bosque mas com um interior cuidado que dá a sensação de se estar em casa: a decoração é clássica, combinando antiguidades e detalhes modernos. A casa tem um total de 55 quartos (51 standard, de trinta metros quadrados, e quatro suites de 100). Todos com muitas janelas: era aqui que em tempos secava o papel. O conforto começa na cama – com roupa de marca portuguesa –, conta Luísa Lorenzo, filha do casal e diretora.

Os quartos têm antiguidades e roupa de cama portuguesa. O spa tem vista para a paisagem e a entrada do hotel.

No exterior, apetece descer ao relvado e ficar por ali a ler um livro ao som da água a correr, ou descansar à sombra num pequeno bosque de bambu. Junto à margem, caminha-se entre trilhos e perde-se a noção do tempo. Para terminar o passeio – ou começar – em grande é possível fazer uma visita ao spa, que tem acesso direto a partir dos quartos. O circuito de hidroterapia está equipado com sauna, hidromassagem,banho turco, duche de contrastes, piscina com jatos e outra para nadar «lado a lado» com a imponente entrada do hotel.

A boa mesa galega afirma-se no pequeno restaurante Filigrana. Na cozinha do chef Federico Lopez trabalha-se diariamente para que todas as semanas haja uma carta diferente. «A comida varia entre a tradicional galega elaborada e alguma cultura francesa», diz Federico, de 35 anos. O chef admite que o segredo está na qualidade dos produtos, grande parte proveniente do Mercado de Abastos, na cidade de Santiago. Provam-se, por exemplo, croquetes de choco e ouriços-do-mar recheados. O menu do dia (entrada, prato e sobremesa) custa 24 euros por pessoa. A Quinta da Auga é mais do que um hotel. Aqui vivem-se momentos de harmonia, e isso começa pelo staff constituído por pessoas amáveis. Os corredores alegram o dia e conduzem a espaços para boas leituras e conversas intermináveis. À espera dos que por aqui chegam em peregrinação, como diz a proprietária Luísa, a Auga é «Prémio depois do Caminho».

Chef Federico

Ficar
Paseo da Amaia, 23B – Santiago de Compostela
Reservas: +34981534636
Web: aquintadaauga.com
Quarto duplo a partir de 130 euros por noite (inclui pequeno-almoço)
Distância: Fica a 4 km do centro da cidade e a 19 km do aeroporto

Texto de Nuno Mota Gomes - Fotografias de Artur Machado/Global Imagens
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