Uma crónica de José Luís Peixoto. O «passageiro frequente» da revista Volta ao Mundo.

Passageiro Frequente

Na cidade do Mindelo, talvez a noite comece na Praça Nova. Tropeço nesta possibilidade de dúvida, neste talvez, não porque haja quem saia à noite em São Vicente e não passe pela Praça Nova, impossível, mas porque não sei ao certo quando é que a noite começa. No Mindelo, depois de jantar, há multidões que se dirigem para a Praça Nova. Com boquinha carinhosa, chamam-lhe «pracinha». Uma vez chegados ao jardim circular, com coreto, lago sem água e quiosque com esplanada, circulamos. Ou seja, damos voltas à praça. Caminhamos no sentido contrário ao das pessoas que queremos encontrar e, dessa maneira, cruzamo-nos com elas uma vez por volta. A praça é muito importante na noite e na vida toda da cidade. Na Praça Nova do Mindelo, centenas de milhares de maridos conheceram centenas de milhares de esposas.
No entanto, também é possível que a noite comece no momento do jantar. No Mindelo, não são poucas as possibilidades de felicidade gastronómica. Mas, antes disso, há o fim de tarde e talvez a noite comece numa esplanada – gin tónico ou, mais tradicional, ponche ou, cabelos no peito e voz grossa, grogue. Mas, antes disso, à tarde, uma boa preparação para a noite poderá acontecer nas areias da Laginha. É muito provável que a noite esteja sempre a começar.

Mas a praça. Sim, voltemos lá. Até porque, no Mindelo, regressa–se sempre à praça. Às voltas ou durante uma paragem, basta saber em que dia da semana se está. No Mindelo, há uma discoteca para cada dia da semana, de segunda a segunda.

No Mindelo regressa-se sempre à praça. Às voltas ou durante uma paragem, basta saber em que dia da semana se está. No Mindelo, há uma discoteca para cada dia da semana, de segunda a segunda.

Uma das primeiras coisas que um português descobre depois de pôr o primeiro pé numa discoteca em Cabo Verde é a enorme diferença, para melhor, que existe em relação às discotecas
africanas em Portugal. Lá, na terra da morabeza, as pessoasolham de maneira diferente, sorriem de maneira diferente. Estão todas mais ligeiras, há uma grande quantidade de pesos invisíveis que não carregam. Têm muito menos ressentimentos, estão mais prontas a serem felizes.
Logo a seguir, uma coisa que um português descobre depois de pôr o segundo pé numa discoteca cabo-verdiana é que kizomba é um género musical angolano. Em Cabo Verde ouve-se zouk e chama-se passada à maneira de dançá-lo. Também há o funaná e uma boa quantidade de outros géneros. Quem não sabe dançar, aprende. Não há desculpa. Nenhuma crioula de nenhuma idade compreenderá as razões que levam uma boa parte dos homens portugueses a fugir, a encostar-se à parede ou ao balcão, a fingir que estão a rir-se de uma gracinha e a transformarem-se em plasticina mole. No Mindelo, essa não é uma opção.
A mim, em tempos idos, quem me livrou desse mal e me chamou à responsabilidade, foram duas irmãs. Conhecemo-nos na praça, claro. Conhecemo-nos melhor nos lugares onde, há quase vinte anos, se dançava. À vez, ginasticaram-me durante um par de meses. O desentorpecimento que me trouxeram aos músculos e ao baile tem-me servido nas mais diversas situações. Eram conhecidas por Spice Girls.
Felizmente, a nostalgia não mata.

Texto de José Luís Peixoto
Crónica da edição de maio 2015 - n.º 247