Na costa oeste da Suécia, há uma cidade de música, de espaços verdes a perder de vista e de mar. Já foi bastião da construção naval, é sede da mais famosa marca de automóveis suecos e tem uma cultura gastronómica em que peixe e marisco são reis. Como se os argumentos não fossem já suficientes, está a média distância de Lisboa e tem uma população estudantil de mais de 60 mil pessoas.

Qualidade de vida

Novembro de 1970. Há praticamente 44 anos, os ABBA davam o seu primeiro concerto no Trädgar’n, um restaurante e cabaret entretanto remodelado e que é hoje uma das principais salas de espetáculos de Gotemburgo. Fica no interior de um dos jardins mais tranquilos e frequentados da segunda maior cidade sueca, o Bältesspännarparken. A escolha para a estreia não foi inocente: um dos elementos da banda mais popular deste país nórdico, Björn Ulvaeus (guitarra e voz), nasceu em Gotemburgo. Foi também neste jardim, há 24 anos, que os Ace Of Base, banda mundialmente conhecida na década de 1990 e filha da terra, se estrearam nos concertos ao ar livre. Não há como negar: a 12ª cidade mais inovadora do mundo, segundo a revista Forbes, tem uma forte ligação à música. E por aqui surgiram várias bandas de sucesso no mercado alternativo, como The Knife, José González, El Perro del Mar, JJ ou Little Dragon. É certo que não são tão famosas junto do grande público como os míticos ABBA, mas a cena musical está bem viva em Gotemburgo. E em todos os géneros. A Ópera de Gotemburgo, por exemplo, junto ao porto da cidade (o maior de toda a Escandinávia), dá nas vistas pela arquitetura pós-modernista e pela ligação ao mar.

Nem só de paixão pela música vive esta população de 850 mil habitantes. Também há grande interesse pelo parque de diversões Liseberg, uma espécie de Feira Popular à entrada da cidade que, durante o verão e uma vez por semana, se torna ponto de encontro para espetáculos de karaoke transmitidos em direto na televisão. Ou pelo Way Out West, um dos festivais de música mais conhecidos no mundo, que decorre no gigantesco jardim Slottsskogen. Aliás, os parques são um dos grandes cartões-de-visita da cidade: existem 175 metros quadrados de espaço verde por habitante.

Foto: A estufa e o jardim de Tradgardsforeningen, bem perto da estação central de Gotemburgo)

A dez minutos a pé do jardim onde os ABBA se estrearam fica a Concert Hall de Gotemburgo, sala de espetáculos criada em 1935, casa da Orquestra Sinfónica local. O edifício, neoclássico por fora e modernista no interior, está no centro da Gotaplatsen, praça onde também se pode encontrar um dos símbolos da cidade – a enorme estátua de Poseidon, o Deus do Mar na mitologia grega, dentro de uma fonte. Não é de estranhar, transporta-nos para outro dos elementos-chave da cidade sueca: o mar.

No bairro de Haga (fundado no século XVII): igreja, música de rua no centro e a estátua do escultor Johann Peter Molin.

(Foto: A Ópera de Gotemburgo foi fundada em 1994; O restaurante Wasa Allé  é gerido por Mats e Margareth Nordström. O peixe é ingrediente fundamental)

Cidade de peixe e música

Conhecida hoje por ser uma cidade industrial – é em Gotemburgo que está a sede de uma das maiores multinacionais do setor automóvel (Volvo), também ela a maior empregadora da zona –, a pesca e a reparação de navios foram o maior motor económico no século xvii. A cidade está dividida em duas pelo rio Göta, mas a realidade era bem diferente há 400 anos. A indústria náutica já não tem a força que tinha, mas o mar e o peixe mantêm uma forte presença no dia-a-dia da população. «Gostamos muito de comer e o peixe é, sem dúvida, um elemento essencial em qualquer restaurante ou em casa. Quase tudo o que comemos é produzido cá, é tudo fresco», diz Stefan Gadd, guia e habitante de Gotemburgo. Salmão, truta, cavala, bacalhau, ovas, lagosta, lagostins, camarão e ostras fazem parte da rotina alimentar da cidade. «Mas também comemos carne, claro», sossega o guia com um sorriso. E continuamos o passeio a pé. A cinco minutos do centro da cidade está o Feskekörka (igreja do peixe, em sueco), o maior mercado da cidade. Construído em 1873, na Rua Rosenlundsgatan, tem uma estrutura medieval que faz lembrar uma igreja e tem peixe para todos os gostos, dispostos por dezenas de bancas, e é também aqui que se encontra um dos símbolos da cidade, o premiado restaurante Gabriel. É fácil encontrá-lo, no piso superior do mercado.

Cultura, comércio e noite são atrações no centro de Gotemburgo. Um dos pontos de encontro é o hotel Scandic Rubinen, onde cada sala pode ter uma surpresa.

O destaque vai para a deliciosa sopa de peixe que por lá se come. Não se admire se os donos do restaurante – Gunnar Malm, o fundador, e o seu filho Johan – iniciarem uma conversa consigo durante a refeição e não se admire ainda mais se Johan fizer uma demonstração de como abrir ostras em tempo recorde – ele foi campeão do mundo nesta modalidade em 2012, numa prova disputada em Copenhaga, na Dinamarca.Para boa comida, convém que haja boa bebida. No que a isso concerne, a cerveja é dos líquidos mais consumidos. «É muito popular, toda a gente bebe, e são boas. Produzimos vários tipos de cerveja, só o vinho é que importamos, não há grande hábito de o produzir, isso faz-se mais noutras cidades nórdicas», acrescenta Stefan, o guia. Sabe bem fazer uma caminhada pela parte velha da cidade, a Hada, mesmo ali ao lado, onde residem cinco mil dos habitantes de Gotemburgo. Numa encruzilhada de ruas estreitas e prédios mais antigos, vale a pena perder – investir – duas horas a explorar os cafés, todos eles diferentes na decoração e no ambiente, ou as lojas de roupa vintage, de artigos originais de decoração para a casa, de livros ou de souvenirs da cidade ou do país. É provável dar de caras com um concerto improvisado na rua, normalmente de uma banda à espera de dar o grande salto. Hada ganha um novo ambiente, com dezenas de pessoas na rua a dançar, a bater palmas e a deixar uma moeda no final da atuação.

A segunda maior cidade da Suécia tem cerca de 550 mil habitantes e uma política de sustentabilidade ambiental de fazer inveja.

Liberdade e natureza

A localização geográfica de Gotemburgo, na costa oeste sueca, faz dela uma das cidades com clima mais ameno no país. Em maio as temperaturas andam entre os 25 e os 30 graus. O bom tempo leva a que os bares e as esplanadas se encham quando os trabalhadores saem do emprego, para um copo entre amigos e dois dedos de conversa ao final da tarde. «No verão, temos apenas cinco horas de noite, às quatro da manhã já é de dia», conta Stefan Gadd. E mesmo nos meses mais rigorosos de inverno não se vê neve nem gelo no chão da zona central de Gotemburgo, uma vez que foi ali instalado um sistema de aquecimento no subsolo.

A localização dentro da Suécia significa que se pode complementar uma viagem a Gotemburgo (que, só por si, pede um mínimo de três ou quatro dias) com outra cidade ou país. Em três horas de comboio, consegue-se chegar à capital, Estocolmo. Ou em menos tempo ainda, duas horas, faz-se a ligação de barco até à Dinamarca. Não são apenas as três horas de comboio que separam Estocolmo de Gotemburgo. «Existe alguma rivalidade entre as cidades, mas acho que isso é normal em qualquer país, como em Portugal acontece com Lisboa e Porto. Os suecos, em geral, olham para a nossa cidade como o elo mais fraco das duas, o irmão mais novo. Estocolmo é mais elegante e até snob, enquanto Gotemburgo é mais descontraída e relaxante», frisa o guia turístico. Também por isso, os preços e a qualidade de vida em Gotemburgo são mais acessíveis do que na capital. Ainda assim, o custo para turistas portugueses não é barato, está ao nível de cidades como Londres ou Berlim. Para a população local, o salário médio é de 2400 euros.

Gotemburgo é uma cidade estruturada, como Nova Iorque, por exemplo, o que ajuda a que os turistas não se percam facilmente. Com uma vasta população estudantil – tem duas universidades com cerca de 65 mil alunos –, a bicicleta é o meio de transporte mais procurado, estando disponíveis para aluguer por um mês, através de um passe de oito euros, ou apenas por um dia. E mesmo – ou talvez por isso – com este espírito jovem, Gotemburgo consegue ser uma cidade extremamente limpa. «Menos ao sábado de manhã», brinca o guia, soltando uma gargalhada.

O espírito da cidade vê-se noutros valores, como o da tolerância e da igualdade de género. Dezenas de bandeiras do movimento LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgéneros) estão espalhadas pelas ruas da cidade – o festival Pride decorre habitualmente em junho.

Com uma localização privilegiada na costa oeste da Suécia, Gotemburgo tem um clima mais ameno do que o do resto do país. Em maio, aproveite o início do bom tempo.

Gotemburgo

Arquipélago de oportunidades

Ir a Gotemburgo implica reservar um dia da viagem para visitar o arquipélago ao longo da costa da cidade, outro dos seus maiores interesses turísticos. Através de uma viagem de ferry (a duração varia consoante a ilha, embora a média seja de menos de meia hora), é possível visitar-se vinte (as habitáveis) das centenas de ilhas. Todas elas são diferentes em tamanho, população, serviços e paisagem, mas as mais procuradas são Vrängo e Styrsö. A primeira, fortemente ligada à pesca e a um ambiente rural, não tem automóveis a circular – só se usam bicicletas e carros de mão. A segunda, a maior de todas, tem todos os serviços de uma cidade média (posto de saúde, biblioteca, dentista, escola, etc.) e mantém intactos os espaços verdes. É ótima para passeios a pé enquanto se apreciam as enormes e luxuosas vivendas que ali existem.

«Na maioria, as ilhas são habitadas por pescadores e pelas suas famílias. Mas também existem muitos suecos que preferem este modo de vida, vivem na sua ilha e fazem o percurso de ida e volta para a cidade, onde trabalham, todos os dias. Visitar as ilhas é também algo completamente natural mesmo para quem vive em Gotemburgo. É um programa habitual de fim-de-semana». Quem o diz é Birgitta Ekesand, também ela guia, também ela sueca. E acrescenta: «Aqui nas ilhas há imensas igrejas livres, independentes, enquanto no centro de Gotemburgo a religião maioritária é protestante.»

De regresso a Gotemburgo, uma palavra para a segurança que se sente. Esta parece ser uma cidade pacífica nesse sentido. A um dia normal de semana, e à uma da manhã, é normal andarem muitas pessoas pelas ruas, com as esplanadas ainda cheias. Ideal para ser apreciada com tempo e tranquilidade, Gotemburgo é uma cidade de surpresas a cada esquina. Quer seja através de recantos encantadores, aromas ou até mesmo dando de caras com um português na receção de um hotel. É o caso de Gonçalo, na casa dos vinte e poucos anos, que trabalha num hotel no centro da cidade. «Em Portugal trabalhava na Marinha, mas cheguei há ano e meio. O Passos Coelho mandou-me para cá…», vai dizendo ao balcão, ao mesmo tempo que encolhe os ombros. «Lá ganhava à volta de 600 euros, aqui recebo o quádruplo como rececionista. O estilo de vida é muito bom, acessível, as pessoas são simpáticas. Só as bebidas e o tabaco é que são mais caras, mas eu não fumo, portanto não faz mal», remata, entre risos.

Além de aproveitar os espaços verdes, os habitantes da cidade aproveitam a vasta oferta cultural dos seus museus e galerias.

Gotemburgo Gotemburgo Gotemburgo

Texto de Nuno Cardoso, Fotografias de Artur Machado/Global Imagens
Leia a reportagem completa na edição de maio 2015 - n.º 247