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Aos 28 anos, Paulo Canas equilibrou-se numa prancha de surf pela primeira vez. Com 35, só consegue pensar em viagens que o levem perto do rebentar das ondas. A primeira grande experiência foi em Bali, na Indonésia.

Viajantes Extraordinários

Destino: Mar

Quando Paulo Canos viaja, os seus destinos passam longe dos centros urbanos. Exceção feita a Barcelona e Nova Iorque, «duas paixões muito grandes», as metrópoles ficam fora dos roteiros. Nada contra os estilos de vida cosmopolitas, explica o lisboeta de 35 anos, que até nasceu no Chiado, coração da capital. A verdade é que aquilo que o motiva a sair de casa não são as grandes avenidas, os espetáculos inéditos, o burburinho das multidões. É mais simples. «Todas as minhas viagens têm ligação à natureza.»

A escolha é consciente e tem uma justificação: o surf. Desde que, há sete anos, pegou numa prancha pela primeira vez, encaminha- se invariavelmente para o mar, mesmo que a ligação ao oceano já venha de trás. Foi ao Egito só para mergulhar no mar Vermelho e experimentar a peregrinação de cinco horas até ao monte Sinai. «As minhas viagens são muito pela questão da autodescoberta, para conhecer pessoas de culturas diferentes, com hábitos diferentes. Para trazer tudo isso para a minha vida também.»

Quando foi ao Egito, ainda não levava a prancha. O desafio colocou-se quando já tinha 28 anos e um amigo lhe atirou com o fato de surf para cima, estava ele sentado no sofá. «Se um dia quiseres vir surfar comigo, vais ter de dar uso a esse fato.» E ele deu. Teve uma aula no Guincho, duas semanas de treino intensivo e, desde então, faz surf regularmente, ao longo de todas as estações do ano. «Começou a entranhar-se na minha vida, até na minha profissão.» Estudou Gestão e iniciou-se na auditoria financeira, mas hoje trabalha na área da performance e produtividade. Um dos projetos que criou entretanto chama-se Surf.Art: leva para a água crianças e jovens de contextos mais desfavorecidos, que aprendem as regras do surf enquanto são incentivadas a refletir e a questionar os seus limites, a confiar no outro. «Na água, somos todos iguais», sublinha.

Surf.Art é um dos projetos que criou. Leva para a água crianças e jovens de contextos menos favorecidos.

Apesar de Portugal ser um país de surfistas e de as ondas lusas fazerem a felicidade de muitos aficionados, quis experimentar outras praias. Porque gosta de integrar nas suas viagens as dimensões que o completam tanto quanto o desporto, decidiu que a primeira grande viagem seria à chamada meca do surf – Bali, na Indonésia –, não só pelo mar mas também pela dimensão espiritual que encerra a ilha, virada para o turismo mas firme nas tradições e nos rituais dos habitantes da região.

Bali, na Indonésia, foi o primeiro grande destino de surf que Paulo Canas visitou com o intuito de apanhar umas ondas. Nunca mais conseguiu largar este «vício».

Foi com mais 13 pessoas, um grupo grande cujos interesses variavam: houve quem fosse pelo trekking, outros pelas praias, a maior parte pelas ondas. Ficou num bungalow, dormia quase de pés na areia e todos os dias acordava e ia para o mar. A maior diferença que sentiu, em relação ao surf nas praias portuguesas, teve que ver com a recuperação muscular: a água é mais quente e os músculos ressentem-se menos do que quando mergulham no Atlântico. O elemento verdadeiramente diferenciador, garante, reside no «ambiente que nos rodeia». As famílias balinesas têm uma cultura muito forte de adoração aos deuses e visível propensão artística: o artesanato da região é «belíssimo », conta, e junto à porta de cada casa há um altar onde os locais depositam, em folhas de bananeira, arroz, pedaços de fruta e outras oferendas às divindades. Só para que o dia corra bem. Outro bónus de passar quase um mês a viver numa ilha foi a mobilidade dentro do espaço limitado. Alugar uma Vespa era baratíssimo e encher o depósito, numa das estações de serviços improvisadas em armários – onde os combustíveis eram «armazenados» – custava pouco mais de um euro. «Mas conduzir uma moto em Bali faz lembrar aqueles filmes rodados  em Xangai», avisa. «Somos nós e mais mil colados a nós, caótico.» Carros há poucos, regras de trânsito também. «Uma das peripécias que tive foi vir um carro em contramão e eu ter de entrar pelo passeio, para o meio das pessoas, e depois voltar à estrada», recorda a rir-se. Episódios que o marcaram tem vários, mas não esquece o dia em que se viu sozinho numa praia onde tinha chegado com os amigos, através de uma gruta. A meio de uma saída difícil, tentando acertar com as correntes que o levariam de volta à costa, apanhou com outro surfista, que se descontrolou no percurso e lhe acertou em cheio na prancha. Um buraco que os «médicos do surf» de Bali repararam sem problemas, mais do que habituados às mazelas do equipamento desportivo.

Outra das memórias que guarda vem do dia em que decidiu fazer a tradicional massagem balinesa. Já no final de duas semanas intensas a surfar, quis descontrair num spa. Na altura, estava a fazer um curso de Osteopatia e, a muito custo, conseguiu convencer a terapeuta que o atendeu a ensinar-lhe um pouco mais das técnicas que tinha aplicado durante o tratamento. «Ela ficou muito surpresa, não sabia o que fazer.» Perante a insistência, foi chamar uma colega do spa para exemplificar os movimentos e, no final, apesar da timidez, acabou por aceitar a proposta de receber uma massagem balinesa feita… por um português.

Na Indonésia apaixonou-se também pelas pessoas e pela sua relação com o divino. Rendeu-se à dimensão espiritual.

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Texto de Bárbara Cruz
Viajante da edição de junho 2015 - n.º 248