Uma crónica de José Luís Peixoto. O «Passageiro Frequente» da Volta ao Mundo.

Passageiro Frequente

Um passo para a frente, volta ao meio e para. Um passo para trás, volta ao meio e para. Dançar salsa não é difícil mas, ao fim da quarta/quinta noite, torna-se repetitivo. As músicas começam a parecer todas as iguais e, antes de adormecer, só se ouve trombones na memória. Na capital de Porto Rico, San Juan Viejo é o centro turístico e tem poucas diferenças de um parque temático: a arquitetura colonial bem pintadinha e, no rés-do-chão, Starbucks, Burger Kings e Domino’s Pizzas.
Para os visitantes estrangeiros, não é possível chegar a Vieques sem passar por San Juan e sem acumular um pouco dessa transpiração que destila charutos e Bacardi. Vieques é uma pequena ilha ao largo da Isla Grande, que é o principal território de Porto Rico. Depois de meia hora num avião com motor de lambreta, onde cabe meia dúzia de passageiros e um piloto, aterra-se noutro mundo.
No aeroporto não há quase nada. É possível que um dos três ou quatro funcionários sonolentos aponte para a parede. Numa folha escrita à mão, afixada com fita-cola, uma lista com os números de telefone dos taxistas da ilha. Na ilha há dois destinos possíveis: Isabel II e Esperanza. Sou de intuições semânticas e, por isso, segui para Esperanza. O impacto das praias paradisíacas sente-se ainda no avião. Na estrada, resta o impacto das plantas, das árvores carregadas de peso tropical, folhas grossas e grandes, verdes-verdes. Em Vieques, toda a natureza é abundante.
Esperanza, para além dos bairros residenciais, sem ninguém à vista, é o Malecón, o pequeno Malecón: uma rua de bares e restaurantes, paralela ao mar do Caribe, que se percorre de ponta a ponta em cinco minutos, andando devagar.

O impacto das praias paradisíacas sente-se ainda no avião. Na estrada, resta o impacto das plantas, das árvores carregadas de peso tropical, folhas grossas e grandes, verdes-verdes.

Escolhi um quarto numa pensão deserta. No bar ao lado, deram-me um número de telefone. Quando liguei, atendeu uma americana, chamada Charlotte. Disse que podia escolher um quarto, as chaves estavam nas portas.
Inglês/espanhol. Uma conversa pode começar em espanhol e, a meio, sem aviso, muda para inglês, ou o contrário. Também há as conversas em espanhol polvilhadas com palavras inglesas, ou o contrário. Foi em diálogo numa destas variantes que percebi a necessidade de visitar a Baía dos Mosquitos. Com um porto- -riquenho de rastas, num jipe carregado com dois caiaques, lá fui pela noite. Percebi o nome da baía quando cheguei. Os mosquitos gostaram de me conhecer. O amigo das rastas ensinou- -me os movimentos básicos para manobrar um caiaque.
Aquilo que aconteceu a seguir é difícil de descrever. Dadas as condições especiais do clima e da água, a Baía dos Mosquitos é um dos cinco lugares do mundo onde se encontram uma espécie de micro-organismos que se iluminam quando são perturbados. Assim, cada movimento na água, a passagem dos caiaques, o pousar dos remos, era acompanhado por clarões líquidos. Tudo isto, na escuridão quase absoluta de uma noite de lua nova. Apenas as estrelas, apenas ao som de sapos e insectos. Aproveitei para nadar. Todos os movimentos a iluminarem-se.
Foi então que percebi. Era aquela a razão por que tinha saído de casa e atravessado a distância de céus e de estradas. Era aquela a razão por que tinha ido ali, tão longe.

Texto de José Luís Peixoto
Crónica da edição de junho 2015 - n.º 248