Longe da agitação de Palma, capital e principal atração desta ilha balear, percorremos a Serra Tramuntana à descoberta dos tons de terracota em Deià, da baía das laranjas de Soller e das memórias islâmicas em Valldemossa. Uma escapada de três dias à costa norte de Maiorca, com o Mediterrâneo aos nossos pés. «Benviguts!»

1.º Dia

Para trás ficou o aeroporto de Maiorca, onde todos os anos chegam dez milhões de turistas. No pico do verão é o mais congestionado da Europa, superando Heathrow, no Reino Unido, e Frankfurt, na Alemanha. Fazemo-nos à estrada, a MA- 10 que ziguezagueia os 111 quilómetros da serra Tramuntana, a protagonista desta viagem junto ao Mediterrâneo. Entre curva e contracurva, à medida que o entardecer teima em levar o Sol, entra-se pela «montanha do vento norte», classificada como Património Mundial pela UNESCO, em 2011, na categoria paisagem cultural. Se, no inverno, a Tramuntana protege a planície das fortes intempéries, no verão torna-se o refúgio perfeito do calor. Com as oliveiras à beira da estrada e os rapazes da ilha, de alcofa de palha ao ombro, a conduzirem as suas vespas, a paisagem tem qualquer coisa de cinematográfica.

O típico bilhete-postal «com vista para o mar» foi substituído por «com vista para a montanha». Ao longo dos séculos os maiorquinos foram construindo as suas aldeias nas traseiras das falésias, de costas para o mar – à exceção de Palma – para se protegerem dos corsários e da nortada. Nesta terra fértil em cereais, tomate, figos, uvas, laranjas, amêndoas e azeitonas, florescem nove espécies únicas de orquídeas e mais de uma dúzia de tipos de samambaias.

Antes do jantar, check-in no hotel de cinco estrelas La Residencia, do grupo Belmond, em Deià, pitoresca «aldeia dos artistas», por ser morada, ponto de passagem e fonte de inspiração de dezenas de artistas. O poeta inglês Robert Graves (1895-1985) chegou à ilha em 1929 e nela morou 45 anos, até morrer e ser sepultado na vertical assim como os restantes defuntos da aldeia, numa tentativa bem-sucedida de economizar espaço. Atualmente, a sua casa – transformada em museu, mesmo ao lado do La Residencia – é paragem obrigatória. Também o compositor britânico Andrew Lloyd-Webber tem morada oficial em Deià, depois de muitas estadas no La Residencia. Na rua principal, com o nome do arquiduque Luis Salvador, o Café Sa Fonda é um exemplo de como é possível ter os irmãos Gallagher (dos Oasis) a tocar, numa aparição inesperada, assim como Mike Oldfield e Bob Geldof no funeral de Kevin Ayers.

Em 2014, o aeroporto de Palma de Maiorca recebeu mais de 23 milhões de passageiros.

Muitos dos passageiros dos iates de luxo que viajam pelo Mediterrâneo e atracam na Cala Deià sobem até ao La Residencia. Na lista de hóspedes célebres contam-se membros da realeza (Lady Diana, reis de Espanha e da Jordânia), atores e atrizes (Bruce Willis, Calista Flockhart, Harrison Ford, Gwyneth Paltrow, Leonardo Di Caprio, Pierce Brosnan), cineastas (Francis Ford Coppola, George Lucas, Roman Polansky), músicos e cantores (Annie Lennox, Bruce Springsteen, Chemical Brothers, Sting) e chefs de cozinha (Jamie Oliver, Mario Batali, Heston Blumenthal).

Já instalados num dos 67 quartos do hotel (quase metade são suites, tendo a presidencial com 120 metros quadrados terraço, piscina e alpendre), descemos até ao Café Miró, restaurante de tapas e cozinha mediterrânica. O final de tarde aqui pode ser mágico. As belas canções de amor francesas, tocadas no piano branco, compõem a banda sonora enquanto a lua surge tímida e o nevoeiro toma conta da montanha de Teix. Num ambiente descontraído, numa sala de refeições clássica decorada com madeiras escuras e um serviço irrepreensível, provam-se especialidades locais, temperadas com azeite de Soller, feito com as variedades Arbequina, Empeltre e Picual. O menu de tapas inclui bochechas de porco (carrilleras) com puré de batata, calamares, chouriço com sidra, polvo à galega, almôndegas de porco e vaca com leite de coco, caril e conhaque e presunto Pata Negra com 24 meses de cura. No copo, o vinho maiorquino Acrollam (Maiorca escrita ao contrário, em castelhano) feito com as castas Prensal, Parellada e Chardonnay, de forma ecológica, pela adega Mesquida Mora, em Porreres, uma das 67 existentes na ilha. Seguiu-se um desfile de frescura, com a parrillada com vieiras, gambas, lulas, rodovalho, tamboril e robalo. É nos mercados que se realizam aos sábados, seja em Palma, Olival, Santa Catalina ou Pere Garan, que o chef Juan Bérnart, 47 anos, nascido em Soller, compra os ingredientes locais para a ementa que pode terminar com um semifrio de laranja e um vinho doce da região. No irmão mais novo do El Olivo, há clientes que vêm há vinte anos e têm direito a pedidos especiais.

Maiorca é a maior ilha do arquipélago espanhol das baleares. Na costa norte, tudo é mais tranquilo. Sempre com a montanha por perto.

2.º Dia 

Com o galo a marcar passo, acompanhado pelo sino da igreja à hora certa, a sala e a esplanada do pequeno-almoço reservam lugar só para as especialidades da ilha. Antes, um aviso proíbe o uso de telemóveis. Do lado dos salgados, o pa amb oli (pão com azeite, sal e tomate ramallet), os queijos maiorquino e Mahón, a sobrassada (enchido). Nos doces, o mel, a ensaimada (uma espécie de pão) e a fruta, com os frescos sumos de laranja e de toranja. Desconcertante, no mínimo.

É tempo de descer ao Port de Soller onde Sebastian, 55 anos, nos espera para um passeio de barco. Do mar também se tem uma vista privilegiada para a serra Tramuntana, que com mais de 60 trilhos públicos se tornou um dos destinos preferidos dos que fazem da caminhada um desporto. À medida que nos afastamos da marina, Sebastian recorda como este porto se tornou pioneiro do turismo em Maiorca, muito antes do de Palma, quando dali saía azeite e citrinos para os cais franceses de Marselha, Sète e Vendres, daí ser conhecida como «baía das laranjas». «Os meus dois avôs morreram no mar nestas travessias à vela», recorda. Há cerca de 90 anos, quando chegava de França o barco a vapor com mercadorias e passageiros, estes hospedavam-se nos antigos hotéis Costa Brava e Marina com 150 anos, entretantomilitarizados. Já a navegar, embalados pelas ondas que a passagem dos barcos de pesca artesanal (llauts) provoca, avista-se o Farol de La Cruz, do século xvi, o mais antigo da ilha. Ao longo do passeio perde-se a conta às dezenas de torres espalhadas pela costa, todas visíveis entre si. A explicação é simples: gregos, fenícios, romanos e turcos, todos tentaram invadir a ilha. Antes de regressar ainda se vê a montanha Puig Mayor, com 1440 metros de altura, onde no inverno chega a nevar, garante Sebastian.

Os primeiros colonizadores da ilha foram os fenícios. Seguiram-se cartagineses e romanos.

Com o pé em terra firme, é tempo de almoçar no Balear, mesmo no porto. Domingo só é dono do restaurante há três anos, mas fez questão de manter a mesma cozinheira que ali trabalha desde 1976. Na região, as gambas de Soller são um segredo que continua por desvendar. «Devem comer uma alga diferente, ou é a qualidade do plâncton que lhes confere um sabor e uma textura únicos», conta Domingo. Dizem os locais que a temperatura mais quente da água do mar também ajuda. Típicas por aqui são também as paellas e esta com amêijoas, gambas, mexilhões, choco, caldo de peixe, arroz, açafrão, pimentos, alcachofras e ervilhas é deliciosa. Depois da tarte de amêndoa com uma bola de gelado de amêndoa, remate com licor de Herbas de Mallorca.

O terminal do centenário elétrico de madeira, que de meia em meia hora liga a zona portuária ao centro de Soller, fica resvés ao restaurante. Partida para a Praça da Constituição com a sua igreja de São Bartolomeu, uma construção iniciada no século xvi e concluída já no século xx por Rubio, discípulo de Gaudí. Na Calle de La Luna concentra-se o comércio tradicional, com drogarias, livrarias, pastelarias ou loja de ferragens. Logo à entrada, o talho Ca’n Matarino que faz os hambúrgueres com azeitona e alecrim servidos no La Residencia, além de vender sobrassada e patês artesanais com mais de cem anos de tradição de foie gras de pato, de trufa, três pimentas, porco preto, tomate, azeitona, cordeiro, nozes. Mais à frente, uma mercearia exibe réstias de pimentos e piripíris à porta. Aqui provamos ginjols, um fruto da montanha parecido com uma maçã, que quando está mais maduro é muito doce. Penduradas estão também as típicas sandálias de Menorca (pons) e as porqueras de couro feitas à mão com cores garridas, na loja-fábrica Ben Calçat.

A Serra da Tramuntana foi distinguida pela UNESCO em 2011

Nas imediações desta rua central fica a fábrica La Luna, a empresa mais antiga de Maiorca, fundada em 1900. Aqui o típico enchido das Baleares (sobrassada) é feito de modo artesanal com 70% de carne de porco e 30% de toucinho, sal, pimento doce ou picante. Para comer quente ou frio, como tempero ou como matéria-prima, existe na versão normal de porco branco com pimentão-doce ou picante; de porco preto, autóctones de Maiorca com pimento doce; ecológica, apenas com antioxidante vegetal. Às quartas-feiras de manhã chega a carne que dará para a produção semanal: entre mil e mil e quinhentos quilos de sobrassada. Antes do regresso, fazemos uma pausa para um gelado artesanal de creme de laranja na Sa Fàbrica de Gelats que partilha o seu terraço com a loja delicatessen Fet a Soller onde vendem laranjas, limões, romãs, cerâmica, vinagretas, licores, amêndoas.

3.º Dia

Começar o dia com uma massagem ao ar livre foi a melhor maneira de nos irmos despedindo de Deià. Três dos seis quartos para tratamentos no spa do La Residencia têm um acolhedor terraço com vista para a montanha, salpicada pela terracota das poucas casas da aldeia. Com movimentos serenos, o esfoliante de azeite percorre todo o corpo que, após um duche, será hidratado com óleo de amêndoa com essência de limão e laranja. A forte componente de aromaterapia da Citrus Siesta (115 euros/50 minutos) deixa-nos relaxados até ao regresso. Além de usar as marcas Natura Bissé (Barcelona), Guinot (França) e Aromatherapy Associates (Londres), o spa também produz um sabonete artesanal com produtos da ilha, limão, flor de sal e óleo de jojoba, um lip balm de baunilha e uma máscara de jasmim, antioxidante e hidratante para o rosto.

De carro ou de motorizada, as melhores opções para descobrir Maiorca.

É hora de descer até à receção para conhecer o escultor e pintor chileno Juan Waelder, um dos artistas residentes do hotel, cujas paredes servem para expor 850 pinturas originais, a que se soma parte da coleção de George Sheridan, pintor americano também fascinado por Deià, onde morou e faleceu em 2008. Além de Juan Waelder pode marcar-se encontro com Alan Hydes, pintor britânico famoso por retratos, entre eles, o de Lloyd Webber; Joanne Kuhne, ceramista de Chicago; David Templeton, artista local; Arturo Rhodes, cartoonista inglês. A morar no La Residencia há cinco anos, Juan dá aulas de escultura. «Em quatro horas, adultos ou crianças aprendem a fazer uma escultura porque tudo o que se pode desenhar pode modelar-se. O corpo humano é disso o exemplo mais fácil», explica. Chegou à ilha nos anos 1970 para abrir uma agência de publicidade, mas só na década de 1990 se fixou em Deià. «As semelhanças com a Califórnia, de onde vinha, fizeram-me ficar.» Privilegiado, em 1978 conheceu e privou com Joan Miró, na comemoração dos 85 anos do pintor catalão, na altura convidado pela Baleares International School a vir a Maiorca. Juan ensinou às crianças os símbolos básicos do trabalho de Miró e as obras dos pequenos pintores ficaram expostas com direito a visita do mestre. «Acredito no trabalho mais do que na inspiração. Tentar e errar é o melhor método.»

Maiorca tem cerca de 120 praias. Agora escolha a sua.

São cenários idílicos como o da Cala Deià que atraem tantos artistas à costa norte da ilha. Para chegar a esta praia efémera e dependente do vaivém das marés é preciso descer, uma parte de carro e a restante a pé, acompanhados pelo cheiro da terra molhada, ao som da água que jorra com força da nascente. À beira-mar os barcos e os caiaques virados ao contrário alinham-se no pouco espaço que sobra. Um restaurante de cada lado da cala disfarça a sensação de isolamento. O que faz um casal vestido a rigor, ela de saia travada e saltos altos, ele de fato completo, ambos descalços, em cima das rochas? Um sessão fotográfica improvisada e muito molhada. Agitado, o mar serve de inspiração a uma pintora de Soller que passou por Lisboa, precisamente, em 1975 e ainda recorda o ambiente de tensão que se vivia na época. Há de voltar, quem sabe, para desenhar, pintar ou fotografar o Tejo.

De volta à estrada principal rumo a Valldemossa, onde o veterano ator Michael Douglas mora parte do ano, com direito a poster no posto de turismo e tudo. Também o escritor argentino Jorge Luis Borges passou por esta povoação a 437 metros de altitude, constituindo o núcleo urbano mais elevado das Baleares. O almoço no restaurante Es Port, no porto de Valldemossa, é um dos mais merecidos da viagem, depois de descer seis quilómetros escarpados, numa estrada de curvas sinuosas, durante vinte minutos. Por aqui fica o santuário Son Mas, considerado o mais antigo da ilha (800 a.C.). E também o miradouro d’es Puig de Sa Moneda, de estilo árabe, mandado edificar pelo arquiduque Luis Salvador (1847-1915), membro da casa real austríaca, viajante e escritor, que comprou algumas terras entre Valldemossa e Soller onde construiu miradouros, capelas e caminhos para contemplar a paisagem da serra, descrita na obra Die Balearen. Já no centro histórico, com as esplanadas cheias, todos os caminhos vão dar ao mosteiro La Cartuja onde se visita os aposentos de Frédéric Chopin (1810-1849) e George Sand (1804-1876). O compositor polaco viajou até à ilha, acompanhado pela sua amante, a escritora francesa Aurore Dupin, que adotou o pseudónimo masculino de George, tendo escrito Un Invierno en Mallorca, em 1838. Agora na casa há retratos, objetos, cartas, manuscritos, livros e fotografias originais do par romântico.

É proibido sair de Valldemossa sem provar a «coca de patata». Na padaria Ca’n Molinas guardam a receita original à base de batata, farinha, ovos e um segredo com mais de 90 anos.

A gastronomia tem um peso considerável na cultura maiorquina. É terra de bons produtos.

A despedida acontece à mesa do El Olivo, onde Guillermo Méndez trabalha todas as noites há 27 anos, 16 dos quais como chef principal. A meio da sala está a prensa onde o avô de Guillermo fazia azeite. Nascido em Soller, gosta de fazer pratos que juntem os produtos do mar e da montanha, como a paella. À mesa chegam atum rojo, tártaro de tomate e salmonete, foie com molho de trufa e cogumelos, frescas gambas e carne maturada de leitão. Dificilmente se percebe que este é um dos destinos mais procurados de Espanha. Nesta Maiorca, há tempo e espaço para tudo.

 

Texto e Fotografias de Fernando Marques
Reportagem completa na edição de junho 2015 - n.º 248