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Pilsen é o grande destino turístico da cerveja checa. A cidade é capital europeia da cultura em 2015 e revela o seu lado mais erudito. Vamos à descoberta de mais uma pequena pérola europeia.

Guia para a fonte do prazer checo

Até há um par de anos, Pilsen significava apenas uma viagem ao coração cervejeiro da República Checa. Não que seja dado irrelevante, afinal este país ostenta o mais elevado consumo de cerveja em todo o mundo – 145 litros por pessoa por ano – e o interesse sobre o assunto chega ao ponto de existir um santo cervejeiro, Santo Venceslau, instituído pelo Rei Carlos IV, em 1357. Mas a verdade é que seria redutor circunscrever a cidade a esse domínio, com tanto que na sua história há para descobrir e, sorte a nossa, para ver.

É claro que é fundamental rodearmo-nos do tema da cerveja para compreendermos a cidade, até porque há nisso histórias e factos interessantes. Em 1295 o Rei Venceslau concedeu múltiplos direitos de fabrico de cerveja, o que garantiu desde logo benefícios financeiros para a cidade, mas também em matéria de conhecimento do assunto. A mais importante das histórias chegou, no entanto, apenas em 1842, quando Josef Groll inventou o método pilsner, um processo de fabrico famoso e imitado pelo mundo fora, fazendo de Pilsen sensivelmente o mesmo que a Guiness fez – e ainda o faz – de Dublin.
Mas Dublin é Dublin e Praga vai continuar a ser o mais importante bastião turístico do pais, pelo que Pilsen necessitou de apostar na sua própria identidade. Em ano de capital da cultura parece ter apostado bem. A cidade ganhou um novo teatro, o único construído nos últimos 30 anos em todo o país – e que até nasceu de ideia portuguesa, -, e investiu no magnifico património industrial reconvertendo-o em novos espaços culturais. É assim que nasce o DEPOT (1), o TECHMania – sediado na antiga fábrica da Skoda – e ainda o Papirna (2), numa antiga fábrica de papel.

Também o coração da cidade foi cúmplice de melhoramentos. Referimo-nos concretamente à Praça da República, uma das maiores praças na Europa. A sua arquitetura permite uma belíssima viagem no tempo e história da cidade. Começando pela catedral (3), talvez o edifício mais importante de Pilsen, e a sua construção gótica. O edifício da câmara (4) da cidade devolve-nos o espírito renascentista enquanto as muitas fachadas barrocas – que o regime tentou demolir – glorificam uma das maiores reputações da cidade enquanto, por fim, o socialismo do Hotel Central (5) relembram-nos parte da história mais recente.
Se é verdade que zonas e edifícios houve que sofreram as referidas benfeitorias, todo o restante património nos pareceu tão belo como no passado, com os prédios limpos e de imaculada beleza.
A boa noticia é que o calor do Verão traz também o advento de boas caminhadas de descoberta e, numa cidade plana e relativamente pequena como Pilsen, recomendamos que não desperdice o incentivo. Tudo é, de resto, relativamente próximo, e percorrer os pontos turísticos obrigatórios trará, só por si, muitas outras experiências ao olhar.

DR / A Catedral de S. Bartolomeu (gótica) começou a ser construída em 1295 e foi terminada no início do século XVI. Tem 58 metros de comprimento e mais de cem metros no seu ponto mais alto.
DR / A Catedral de S. Bartolomeu (gótica) começou a ser construída em 1295 e foi terminada no início do século XVI. Tem 58 metros de comprimento e mais de cem metros no seu ponto mais alto.

É a quarta maior cidade da República Checa, tem cerca de 160 mil habitantes e aqui podemos encontrar a segunda maior sinagoga da Europa.

Seguindo a linha verde do park ring, por exemplo (uma sucessão de zonas verdes criada em cima das muralhas antigas), encontra-se o Mestanka Beseda (6), um edifício com decoração art noveau. É daqueles tipo de locais para beber um café e ler o jornal matinal, admirando as gentes da terra. Um pouco mais adiante, o VelKe Divadlo (7), ou o grande teatro, merece uma noite de cultura só para ver a bonita sala do inicio do século passado. Do outro lado da rua, as cúpulas rosadas da sinagoga (8) colocam-na como a terceira maior do mundo, perdendo apenas para Budapeste e Jerusalém. Representa a história da comunidade de judeus locais e também ajuda a explicar a enorme escultura thank you America.

O Mosteiro Franciscano (9) transporta-nos para outro período da história, assim como o vizinho West Bohemia Museum (10), onde algumas das mais importantes exposições deste ano serão realizadas. Há ainda uma pequena pérola, escondida e negligenciada até mesmo pelo turismo local – a estação de comboios (11) local. Será pela localização um pouco distante do centro da cidade? Ou será pela abundância de pontos de interesse? Se é certo que o evento Pilsen2015 não pode chegar a todo o lado, foi pelo menos razão para pensar quantos mais locais fora do roteiro há por descobrir. No matter what, obrigado capital da cultura por mais este tesouro desvendado.

Pilsen3

Capital da Cultura

A chegada do Verão traz o bom tempo e a cidade vai aproveitá-lo da melhor forma. Entre junho e setembro decorrem diversos festivais de música ao ar livre (rock, jazz e música barroca), enquanto que no capitulo expositivo destaque para as mostras que permitem redescobrir os artistas Ladislav Sutnar e Gottfried Lindauer, duas das personalidades locais mais famosas, este último um dos pintores mais importantes a retratar a cultura maori no séc. XIX. Um dos novos espaços dedicados à arte, o DEPOT (1), é outro armazém industrial reabilitado. A sua inauguração vai trazer uma exposição com esculturas de Cestmir Suska, um conhecido escultor checo.

DEPOT

Adolf Loos

Trata-se de um dos mais importantes arquitetos do movimento modernista. Embora seja conhecido pelo American Bar em Viena, parte significativa do seu trabalho de interiores foi realizado em Pilsen, entre 1907 e 1932. Ao todo contam-se cerca de 13 projetos, embora apenas oito tenham resistido à passagem do tempo. A Capital da Cultura e a Câmara local aproveitaram a efeméride para recuperar alguns destes projetos. A visita é obrigatória também pela sua relação com a história da comunidade judaica na cidade – os seus principais clientes. Se quiser conhecer mais, recomendamos que visite igualmente a Villa Muller, em Praga, outro projeto icónico de Loos.

Cerveja artesanal

Para além da Urquell, há um conjunto de cinco pequenas cervejarias artesanais que merecem tempo e atenção. A Purkmeiester (purkmistr.cz) é a mais famosa, até pela dimensão. Para além de restaurante e uma belíssima esplanada, oferece tratamentos spa com base nas próprias qualidades medicinais da cerveja. Tem, no entanto, o inconveniente de estar fora da cidade – mas é a única. A Groll (pivovargroll.cz) iniciou a produção pela mão do mesmo Josef Groll que levou a Urquell ao estrelato, enquanto a Pasak (pivopasak.cz) é uma face mais contemporânea de cena de Pilsen. A qualidade, no entanto, não sai beliscada.

Papirna (2)

É o centro de arte contemporânea mais ativo na cidade. Não espere, no entanto, um edifício com pompa e circunstância. Pelo contrário. O informalismo e o espírito do it yourself impera nesta apropriação de uma antiga fábrica de papel, um edifício industrial de muita beleza. De tão vasto que é que lá dentro encontra uma pista de karts, outra para skaters, um restaurante, estúdio de som, sala de concertos e vários espaços de exposição. Em ano da cultura, mas sem qualquer financiamento público, preparam também eles uma programação à altura dos acontecimentos.papirnaplzen.cz

Onde ficar em Pilsen

Numa cidade com potencial para alguns equívocos em matéria de alojamento, aposte pelo seguro. O Hotel Central (5) (central-hotel.cz) não engana quanto à localização, com vista direta para a catedral. O edifício e os quartos seriam uma viagem ao socialismo de outrora não fosse a leve remodelação sofrida – trabalho pouco sensível diga-se. De qualquer forma, é uma opção com equilíbrio entre preço e serviço oferecido. Para uma experiência menos rica mas de tons contemporâneos, aponte a carteira para o Marriot Courtyard (14) (marriott.com), uma chancela que não oferece dúvidas. A pé, localiza-se a apenas dois minutos do centro.

Onde comer

As estrelas Michelin encontram-se em Praga – são apenas dois restaurantes, pelo que não é de esperar invenções em matéria de cozinha. Não significa, porém, que a viagem gastronómica não possa acompanhar a congénere cultural. À falta de espaços de caráter contemporâneo a nossa escolha acabou por recair sobre a vertente tradicional, onde o Stara Sladovna (15) (starasladovna.cz) representa um papel importante. A casa familiar, outrora uma malt house, foi resgatada ao passado e convertida num espaço medieval de ambiente acolhedor, com longas mesas de madeira, velas, lareira e música celta. O menu não destoa e oferece vários pratos tradicionais à base de carne. O Groll (12) (pivovargroll.cz) é uma outra opção. É uma típica casa de pasto com a sua própria marca de cervejas.

(12)
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Como chegar

A Tap (flytap.pt) voa diariamente para Praga (com excepção da 4ª feira, com preços a partir de 216 Euros (ida e volta). No aeroporto existe uma ligação directa para Pilsen de autocarro (1 hora de viagem e cerca de cinco euros por trajecto). Também é possível viajar de comboio mas necessita de ir ao centro da capital. Os comboios partem a cada hora com a viagem a demorar cerca de 90 minutos.

Mapa:

Texto de João Nauman