Depois de ter ganho as atenções com o Campeonato Mundial de Futebol de 2010 e como Capital Mundial do Design em 2014, a Cidade do Cabo, na África do Sul, faz tudo para provar que, além de multicultural, multifacetada, multilingue, multirracial e multidesign, é também muito cool.

De Fio a Pavio

O momento marca até hoje as pessoas e a cidade. As primeiras não escondem o orgulho de tudo ter dado certo no Mundial de 2010 e o gosto de, por uma vez, terem sido notícia pelas razões certas; a segunda adaptou-se, e moldou-se, à presença de novos pontos de referência na sua paisagem, como é o caso do incontornável Cape Town Stadium, situado entre o bairro de Green Point e a Table Mountain – pena que o mesmo permaneça agora às moscas.

Para nós, portugueses, a história é outra. Ela estará sempre associada à passagem do cabo da Boa Esperança – um dos pontos turísticos mais visitados da África do Sul –, mas importa ter bem presente que superar com sucesso essa prova foi fundamental para a sua autoestima. E para permanecer no pelotão das metrópoles mais vibrantes da atualidade.

Nem tudo são vitórias. A Cidade do Cabo está ainda a aprender a gerir o clima de insegurança, mas o facto de ter sido Capital Mundial do Design em 2014 e a aposta em eventos como a Indaba Design Expo (uma vitrina para o mundo do melhor que se faz no país em arquitetura, decoração de interiores, artesanato, moda, design ou joalharia, entre outras coisas) reforçou o seu imenso potencial enquanto polo fervilhante de criatividade. Este ano perdeu o lugar de anfitriã para Durban, mas o legado não arredou pé; pelo contrário, cresce a olhos vistos e mostra-se a todos. A pergunta é: por onde começar se há tanto para ver e fazer? Long Street, no centro, é um bom ponto de partida, ainda que a sua frequência não reúna consenso. Fica a dica: escute os conselhos, seja prudente, mas não deixe de ir. Famosa pelas suas fachadas  vitorianas, é nesta longa artéria comercial que entendemos melhor a sua génese, não faltando bares, lojas de roupas usadas, cafés (como o gráfico Rcaffe) ou restaurantes para todos os gostos. Não falta até aquela que se anuncia como a primeira loja concetual de África, a Merchants on Long, e um hotel inusitado, o The Grand Daddy, conhecido por ter instalado no terraço do último piso um parque de rulotes estilizadas para quem não se conforma com um quarto convencional. Só que Long Street não é mais o lugar onde tudo acontece.

O facto de ter sido Capital Mundial do Design em 2014 atraiu as atenções sobre a Cidade do Cabo

Nos últimos anos os focos voltaram-se para outros eixos de gravitação. Podemos prosseguir pelo bairro de Gardens, que soma ao encanto dos Company Gardens, o maior jardim no centro, um hotel-design recente, o 15 On Orange, que depressa caiu no goto dos estetas pelo seu arrojo. Seguem-se Higgovale e Tamboerskloof, também eles endereços elegantes aos pés da Table Mountain, sendo que neste último surgiu, há meia dúzia de anos, um pequeno hotel-boutique, o Manolo, idealizado pelo casal holandês Peter Zeeuw e Leen Filius. Entre os seus atrativos, a audácia de uma piscina vermelha. No bairro, convém não perder de vista algumas das casas (ou fachadas, vá lá) da rua New Church.

Adiante, Bo-Kaap é o bairro malaio, onde, entre minaretes, muitos só vão pelo colorido do seu casario art déco, sendo que as casas mais bonitas ficam entre as ruas Wale e Church. Quase colado, Waterkant é gayfriendly, igualmente colorido, mas aposta nas galerias de arte – recomendamos a iArt Gallery, em Gardens, e a vanguardista David Krut Projects, no Montebello Design Centre, em Newlands –, nas agências de modelos e nos restaurantes da moda.

O Parlamento Nacional fica na Cidade do Cabo, capital legislativa da África do Sul. Esta é a segunda maior área urbana do país, depois de Joanesburgo.

(Foto: Long Street e o bairro Gardens são as duas áreas que merecem uma visita)

Chegados aqui, estamos a dois passos do Victoria & Albert Waterfront. Esta zona portuária, emoldurada pela montanha e com uma torre de relógio como ex-líbris, é uma das mais seguras da cidade para passear, pelo que se sucedem as lojas de marca, os cafés charmosos, os bons restaurantes e, claro, os hotéis. Um dos últimos a chegar foi o One & Only, que logo se autoproclamou o primeiro resort urbano e inclui entre os seus restaurantes o famoso Nobu. Performers, acrobatas e músicos 84 dividem as atenções na rua e garantem animação quase contínua.

Hotéis-boutique, lojas de design, restaurantes e bares com comida e bebida de todo o mundo continuam a inaugurar na Cidade do Cabo. A dinâmica começou com o Mundial de 2010 e continua a prolongar-se.

À semelhança do que aconteceu no Rio de Janeiro, também na Cidade do Cabo surgiram visitas guiadas às Townships, situadas na periferia. O programa «turístico» não agrada a todos, mas estas «favelas-bairros», criadas durante o apartheid para manter segregada a população negra, mas que persistem por razões sociais e económicas, são uma peça do puzzle sul-africano, demasiado importante para ser ignorado. De todo o modo, a nossa sugestão é que rume à zona leste, já fora do centro, e conheça uma das grandes atrações de Woodstock. Habitado por imigrantes de toda a África, este bairro, com a sua arquitetura vitoriana dominada pelo grande Pico do Diabo, organiza todos os sábados de manhã, em Old Biscuit Mill (uma espécie de Lx Factory local), uma concorrida feira de produtos biológicos, o Neighbour Goods Markets, não falta, claro está, uma banca de produtos portugueses. O evento atrai uma clientela hipster, boa onda e urbana, que, além de frequentar as lojas do circuito – como o outlet Abode (homeware) ou o Plush Props (loja-estúdio dedicada à culinária) –, sempre faz paragens estratégicas para apreciar as últimas tendências da Karoo Moon Country Store (misto de mobiliário vintage e delicatessen) ou para comer nos dois restaurantes a cargo do chef Luke Dale- -Roberts – de origem britânica, ele é a maior vedeta local graças aos sempre cheios Test Kitchen, o primeiro e mais caro, e The Pot Luck Gallery, mais informal e com uma vista incrível, já que fica no cimo de uma torre de escritórios de Old Biscuit Mill.

(Foto: O estadista Nelson Mandela [1918 – 2013] é considerado o pai da nova África do Sul, o maior exemplo da reconciliação após o período de «apartheid»)

Aliás, não é só de Woodstock que se fala. Os subúrbios estão em ebulição. Century City, na área de Milnerton, é uma vizinhança emergente, assumidamente artificial, novo-rica e futurista. Os projetos iniciais foram um parque temático e o maior centro comercial do continente, o Canal Walk, mas não param de surgir novidades arquitetónicas como as Crystal Towers (um complexo de luxo, ultramoderno, que inclui um hotel cinco estrelas), Knightsbrigde (dois blocos de apartamentos ligados por uma ponte onde ficam as coberturas) ou uma passagempara peões de traçado elíptico.

Mas esta é igualmente uma cidade rodeada de praias e de vinhas. Sobre as primeiras, muito se fala de Muizenberg, já nos arredores, mas tirando o cartão-postal que são as suas berrantes barracas de praia, a verdade é que nada mais de muito interessante se passa aqui. Praias urbanas boas, com areais extensos e mar convidativo (ainda que não muito temperado), vai encontrá-las, isso sim, em Camps Bay, o subúrbio mais caro a par de Constantia. A sua cultura de boa vida, as palmeiras, a marginal com casas cinematográficas e a vida noturna livre de amarras (e de preconceitos, ou não fosse esta uma «Pink City»), lembram-nos Miami Beach ou Palm Springs nos EUA.

Camps Bay é o local para quem gosta de praia e boa vida. É um dos subúrbios mais caros da cidade. E um dos mais procurados por habitantes locais e turistas.

(Foto: As cabanas coloridas de Muizenberg já são uma atração turística)

As vinhas, por sua vez, não estão muito longe. Basta uma curta viagem de carro e, em menos de uma hora, estará a admirar o encanto rústico de Stellenbosch, Paarl – imperdível o Paarl Rock, imponente rochedo de granito, junto ao qual foi inaugurado, em 1975, The Taal, monumento dedicado à cultura africânder, concebido pelo arquiteto Jan van Wijk – ou Franschhoek, que formam a região conhecida por Cape Winelands. Com uma ótima relação qualidade-preço, o que ajuda a perceber, pelo menos em parte, o seu sucesso além-fronteiras, os vinhos sul-africanos, jovens e fáceis de beber, fizeram da casta Pinotage, resultante do cruzamento da Pinot Noir com a Cinsault, um cartão de visita da África do Sul. A degustação, juntamente com queijos e enchidos, é um dos programas mais recorrentes para quem se desloca em visitas de meio dia ou dia inteiro a enoturismos como a Delaire Graff Estate, uma magnífica propriedade Relais & Châteaux, ou a Lanzerac Wine Estate, onde uma prova de cinco vinhos com chocolate, explicada tintim por tintim, sai a menos de cinco euros por pessoa. Difícil de bater. São estas possibilidades que fazem da Cidade do Cabo um destino plural. E de nós privilegiados por estarmos a assistir e a participar deste seu momento histórico de transição.

Ao largo, a Ilha de Robben, onde Nelson Mandela esteve detido durante 18 dos 27 anos da sua pena. Do porto da cidade saem excursões para este local de má memória.

Há luxo e paisagens únicas em Camps Bay, o parque de diversões dos ricos da região.

8 coisas a não perder

1. Subir ao teleférico à Table Mountain para as melhores vistas
2. Ir de ferry até à ilha-penitenciária de Robben, onde esteve preso Nelson Mandela
3. Reservar 3 dias para fazer o trilho de Hoerikwaggo através da cordilheira dos 12 Apostles
4. Visitar as adegas e fazendas das Cape Winelands
5. Ir à praia de Muizenberg, frequentada por surfistas, para fotografar as cabanas de praia multicoloridas
6. Reservar a manhã de sábado para ir ao Neighbour Goods Market, a feira biológica em Albert Rd., Woodstock
7. Ir às compras e almoçar/jantar em The Old Biscuit Mill
8. Admirar as mais de setecentas espécies de flores do Kirstenbosch National Botanical Garden, criado em 1913

 

Texto de João Miguel Simões - Fotografias de Adelino Meireles/Global Imagens
Leia a reportagem completa na edição de junho 2015 - n.º 248