Reabriu apenas há quatro anos, mas a sua história é bem mais antiga, ao ponto de fazer dele um dos primeiros hotéis de que há registo no Algarve. Sem rival que se lhe compare na praia da Rocha, em Portimão, o Bela Vista aposta agora, depois do spa Occitane, no fine dining e nos sabores portugueses.

No topo da Rocha

No verão passado, um grupo de franceses, ligados à indústria da moda, hospedou-se no Bela Vista Hotel & Spa e logo tratou de partilhar nas redes sociais fotos sem filtro, mas certeiras nos ângulos, da sua bela piscina exterior com cabanas no topo e espreguiçadeiras às riscas a toda a volta. Mais do que apenas inveja branca, as imagens pejadas de hedonismo despertaram a curiosidade daqueles que julgam conhecer Portugal de lés a lés. Afinal, onde ficava este hotel, ter-se-ão perguntado muitos, que nunca deram por ele?

Prestes a comemorar quatro anos, no dia 18 deste mês, o hotel que já chegou a ser sugerido pelo jornal norte-americano The New York Times como um dos 45 destinos a visitar em 2012, é sobretudo frequentado por estrangeiros — na maioria clientes fiéis da associação Relais & Châteaux, que combina unidades hoteleiras de charme e chefs de renome, de que faz parte —, o que explica de certo modo a sua discrição em solo nacional. Para mais, e esse é o fator que acaba por provocar maior surpresa, ele fica em plena Praia da Rocha, em Portimão, que não é propriamente apontada como um exemplo de bom urbanismo ou de exclusividade.

O Bela Vista fica em plena Praia da Rocha, no topo de uma falésia sobranceira ao areal e ao mar e tem por base um palacete construído em 1918.

Ironia, a situação geográfica do Bela Vista dificilmente poderia ser melhor: no topo de uma falésia sobranceira ao areal e ao mar, o que lhe garante acesso direto à praia (apesar de não haver concessão própria, mas apenas acordos com os já existentes). Quando se diz que o hotel abriu em 2011, em rigor estamos a faltar à verdade. Ele reabriu, pois o ponto de partida foi um palacete construído em 1918, que começou por ser uma residência particular e, a partir de 1934, foi convertido num dos hotéis mais antigos do Algarve. O tempo não perdoa, é sabido, pelo que, em 2008, a sua atual proprietária, Natália Proença de Carvalho, neta e sobrinha de hoteleiros, iniciou o projeto de renovação. Contou com a ajuda do arquiteto Carlos Pereira e das designers de interiores Graça e Gracinha Viterbo. No palacete e na Casa Azul, de origem, remodelaram com intuito de criar áreas comuns e também 38 quartos e suites, assumindo depois igualmente a construção e a decoração de um novo anexo, o Bela Vista Jardim, e a adaptação da Casa Branca a salas de eventos e de reuniões. Pelo meio, a fazer a ligação, há jardins e terraços, mas se a arquitetura apalaçada prende o olhar, sem dúvida que são os interiores o grande cartão-de-visita do Bela Vista. Com um estilo muito marcado, o ateliê de Graça Viterbo soube neste caso fazer um compromisso, bem conseguido do ponto de vista cromático e do conforto, entre o senhorial e o despojamento que convém num hotel à beira-mar. Estão por isso muito presentes elementos como as riscas, que nos remetem para um espírito de Riviera, bem como quadrículas pretas e brancas, tecidos de Alcobaça (que forram o piano de cauda e o elevador), capitonados, azulejos portugueses e uma paleta de cores fortes que inclui amarelos, azuis, rosas e até encarnados.

Mas, desde março, o hotel assumiu um novo desafio: transformar o seu restaurante numa experiência de fine dining à altura do melhor que se faz, em alta gastronomia, na região. Para levar a ideia avante foi fundamental a chegada, em janeiro, de João Oliveira. Apesar de ainda não ter completado 30 anos, o chef natural de Valongo tem um palmarés de respeito, com quatro anos na Casa da Calçada, outros tantos como subchef de Ricardo Costa no The Yeatman e, mais recente, uma passagem rápida pela cozinha do Vila Joya. Tudo estabelecimentos estrelados que ajudaram a consolidar a sua experiência e a moldar a sua identidade. Agora, no Vista, onde cumpre o sonho de trabalhar num Relais & Châteaux, espera–se que consiga transpor a aprendizagem adquirida para uma linguagem própria. Para começar, trouxe a sua equipa e recebeu carta branca, detalhe muito importante, para ser ele a fazer e a gerir as compras. Fá-lo todos os dias e não esconde o seu espanto, por exemplo, com a variedade e os preços competitivos dos peixes e dos legumes à venda no mercado de Portimão.

No hotel estão presentes elementos como riscas, que nos remetem para um espírito de Riviera, mas também apontamentos portugueses.

A questão do produto, como acontece cada vez mais entre os seus pares, é determinante para o tipo de experiência que João deseja proporcionar: «Quero que todos os meus pratos sejam identificados pelo sabor.» Sabor e textura, com bases portuguesas, são os dois pilares da sua cozinha, preferindo a frescura ao excesso de tempero e de informação — tenta não ir além dos três a quatro ingredientes por prato, não usa muitas ervas e retira o sal acrescentando intensidade com recurso a caldos e molhos.
Esta abordagem levou a que, em apenas cerca de três meses de atividade, somasse já três cartas; isto porque a cada seis ou sete semanas introduz alterações com base no que é ou não da época. Outro aspeto de que não abre mão é das carnes devidamente repousadas — «no mínimo uma semana» —, um ensinamento que lhe ficou do The Yeatman, e de ir sempre conversando com os pescadores locais para ter uma noção dos timings certos.

Esclarecida a teoria, como se traduz isso na prática? Até setembro, o restaurante vai servir apenas jantares, deixando uma carta mais informal para os almoços e para os snacks junto à piscina. À noite, a carta tem três momentos: um menu diário que inclui entrada, prato de peixe ou carne e sobremesa; um menu especialidades, mais clássico como convém num Relais, onde apresenta uma versão mais elaborada da cataplana mas também pratos como foie gras com maçã, ravioli de chanterelles feitos na hora ou um arroz de lavagante e vieiras; e um menu de degustação, a 115 euros por pessoa, que o chef batizou de Viagem. Um périplo pelo país, de sul para norte, que parte do Algarve, com os peixes e mariscos de Faro, Portimão e Sagres, passando depois por Setúbal, Castelo Branco para terminar no Marão e em Trás-os-montes, com carnes como o borrego e o leitão. As sobremesas seguem mais a escola clássica e sobre os queijos há o desejo de reunir os cinco melhores de Portugal e de oferecer outros mais artesanais e desconhecidos como o requeijão de Monchique.

A viagem é tão ou mais importante quando grande parte da clientela do restaurante, como acontece no hotel, é de fora e quer ser conquistada pelo estômago, mas atrair mais portugueses faz parte dos planos. Pela cozinha e pela vista do Vista: da sala, toda branca com apontamentos de cor a azul e encarnado, ao terraço, no topo da falésia, à luz de velas. Porque, como no refrão da música dos GNR, «sabem que me escondo na Bellevue» é susposto ser um atrativo, quase um teaser, e não uma proibição.

Uma estada no Bela Vista é também um belo pretexto para realizar alguns passeios e atividades à volta de Portimão.
Damos cinco sugestões:
– Grutas de Benagil, em Lagoa
– Grutas da Ponta da Piedade, em Lagos
– Praia de Dona Ana ou do Camilo, em Lagos
– Subida do rio Arade em barco
– Castelo de Silves


Bela Vista Hotel & Spa

Av. Tomás Cabreira,
Praia da Rocha, Portimão
Tel.: 282460280
Web: hotelbelavista.net/pt
Preço: A partir de 400 euros por noite
em quarto Elegance com pequeno-almoço

Texto de João Miguel Simões - Fotografias de AlgarvePhotoPress/Global Imagens
Artigo completo na revista evasões nº. 16 - grátis com o Diário de Notícias e Jornal de Notícias