Uma crónica de José Luís Peixoto. O «Passageiro Frequente» da Volta ao Mundo.

Passageiro Frequente

Estávamos apaixonados e estávamos na Bulgária. De dia, ao tentarmos tirar cafés em máquinas de moedas com as instruções em alfabeto cirílico, admirávamo-nos com o que saía nos copos de plástico. De noite, queríamos saber para onde iam todas aquelas loiras, vestidas com roupas que estavam na moda nos anos 80. Quem nos ajudou a responder a esta dúvida foi um amigo português que vivia em Sófia.

Era o fim do inverno, o início da primavera. Por isso, as ruas estavam apenas gélidas. Sentia-se que os búlgaros chegavam de um tempo ainda mais frio, mostravam-no pelo sorriso assustado. Após o jantar de sábado, estávamos num carro em direção a um bar, música techno no autorrádio. Vodka de baunilha, foi nesse bar que experimentei vodka de baunilha pela primeira, pela segunda e pela terceira vez. Ainda não era meia-noite e queríamos um lugar onde se dançasse. Juntou-se a nós uma búlgara que falava francês, indicou-nos o caminho para um lugar que lhe parecia corresponder à descrição do que procurávamos. Mais carro, mais techno e chegámos à entrada de um nightclub. Os seguranças da porta são grandes em qualquer parte do mundo e carecas quase sempre. No interior, em mesas, estavam grupos de casais na faixa dos cinquentas, pediam whisky com gelo a empregados fardados e olhavam para um palco, onde cubanos de ancas elásticas dançavam salsa com cubanas muito sérias, vestidas de folhos garridos. Os búlgaros cruzavam os olhos na velocidade das pernas das cubanas, as búlgaras seguiam os rabos dos cubanos, reflexos de luz, dentro de calças de cetim. Quando acabaram as acrobacias, o palco ficou vazio, mas a salsa continuou. Então, o palco foi-se enchendo de casais búlgaros descoordenados, a «dançarem» salsa. Não nos foi difícil fazer melhor e não nos foi difícil cansarmo-nos. Queríamos um lugar mais parecido connosco. Queríamos tudo.

Os búlgaros cruzavam os olhos na velocidade das pernas das cubanas, as búlgaras seguiam os rabos dos cubanos, reflexos de luz, dentro de calças de cetim. Quando acabaram as acrobacias, o palco ficou vazio, mas a salsa continuou.

Após minutos e outra viagem, estávamos a descer as escadas de uma cave. Comovemo-nos com o talento da vocalista de uma banda ao vivo. Cantava com uma entrega que, àquela hora, nos pareceu excecional. Havia universitários a falar de assuntos que desconhecíamos, pouco aplaudiam no fim de cada canção. Ficava um silêncio de palmas desencontradas. Acreditámos que aquela vocalista merecia um público mais entusiasta, nomeámos vários exemplos de carreiras de sucesso com menos poder vocal. Quisemos falar com ela, dizer-lhe que acreditávamos mesmo que tinha futuro, mas não houve tempo porque, após qualquer coisa, já estávamos de novo no carro. A búlgara desistiu, despediu-se: au revoir. E fomos levados ao único lugar que ainda estava aberto, a última possibilidade da noite. A entrada ficava numa estação de metropolitano, entre lojas fechadas. Havia uma multidão a entrar e uma multidão a sair. Os que saíam estavam transpirados, os que entravam iam eufóricos, como nós. Era uma discoteca imensa, com centenas de metros de balcões. As pessoas dançavam em cima dos balcões e em todos os lugares onde houvesse espaço. Posso estar errado, mas aposto que a maioria dos românticos que sugerem Veneza ou Paris nunca estiveram apaixonados em Sófia.

Crónica da edição de julho 2015 - n.º 249