Ponte da Barca soa a Minho tradicional, mas uma nova vaga de restaurantes, alojamentos de inspiração ecológica e uma forte aposta nos produtos locais, como o vinho verde, estão a dar um vigor contemporâneo à vila atravessada pelo rio Lima.

O Minho ainda é o que era, verde e hospitaleiro, mas está a ganhar um «twist» cosmpolita que vale a pena conhecer.

Depois de correrem o mundo em busca do paraíso, foi numa verdejante encosta minhota que Joelle Coppin e Dirk Vankerschaver o encontraram. A escolha poderá parecer estranha, tendo em conta os locais por onde passaram, numa longa lista que inclui Havai, Indonésia ou Córsega, mas para este casal de belgas, praticantes de surf e windsurf, faz todo o sentido. Da velha quinta, quase em ruínas, que adquiriram vai para 5 anos, já pouco resta.

Hoje, o espaço é um monumento à natureza e ecologia, desde 2012 partilhado com hóspedes dos quatro cantos do mundo que, tal como eles, chegam em busca de paz e sossego já raros de encontrar. «Saímos de Bruges no ano 2000 e nunca mais voltámos. Começámos por viver em Cascais e depois corremos o mundo, sempre à procura de um lugar como este», conta Dirk, enquanto nos guia pela propriedade. Há dois quartos (Sol e Terra) e seis lodges (fogo, vento, água, montanha, céu e alfazema) -, todos construídos pelo casal. «Com as próprias mãos e muito amor, mas ainda continua muito por fazer», sublinha Dirk, apontando para a «piscina natural», rodeada de alfazemas. Em todas as construções, «foram apenas utilizados produtos de baixa energia e matérias naturais» como cortiça, madeira, cal ou tintas artesanais feitas por Joelle, com ingredientes como batata ou farinha.

Alojamentos modernos, novos espaços para petiscar e saborear os vinhos verdes do Minho estão a dar uma cara mais fresca a Ponte da Barca.

O Na-Bé, assim se chama esta unidade, como abreviatura de «natureza e beleza», as duas palavras que melhor definem o conceito da casa, apresenta-se assim, nas palavras dos seus proprietários, como um «alojamento de luxo». Não tanto pelas mordomias – embora também as haja, como as refeições caseiras com produtos biológicos ou as massagens no spa de inspiração oriental com vista para o vale – mas mais pelo contacto direto com a natureza. Ou, como o expressa Dirk, «há luxo maior que esse?».

Os belgas Joelle e Dirk escolheram fixar-se em Ponte da Barca, depois de 15 anos a correr o mundo

Velhos vinhos com novos sabores

Depois de uma tarde a explorar as margens do Lima em caiaque, uma das atividades mais concorridas na vila, a par com os banhos na bonita praia fluvial, estávamos comprometidos com uma prova de vinhos da Adega Cooperativa de Ponte da Barca. Apesar de existir há mais de meio século, tem apostado, nos últimos anos, numa nova gama de néctares, mais ao gosto das novas gerações. Os últimos raios de sol do dia dão uma tonalidade dourada às águas do Lima, fazendo sobressair a velha ponte medieval que dá nome à terra e é uma das mais bem conservadas do país. Daqui a uma semana, o cenário será bem diferente, quando nos dias 24 e 25, ali se realizar mais uma edição do Festival Folk Celta, que há cinco anos atrai até à vila uma verdadeira multidão, para dançar noite fora. Os escoceses Mánran, o galego Anxo Lorenzo ou os portugueses Júlio Pereira e Diabo na Cruz são alguns dos nomes presentes na edição de 2015.

Entretanto, David Amorim, o nosso cicerone vínico já abriu as garrafas. Vinho verde (alvarinho/loureiro), «mais doce e perfeito para beber de entrada»; Colheita Selecionada (alvarinho/loureiro), «uma das novidades deste ano, mais suave»; Vinho Verde Alvarinho, outra estreia. Há ainda um Rosé e, claro, um tradicional verde tinto, de monocasta vinhão, a mais característica da região. A acompanhar, desfilam petiscos como chamuças de bacalhau com molho de caril, crepe de sardinha com pimentos vermelhos e tomate picante ou folhadinhos de alheira com maçã, saídos da cozinha de José Cabodeira e Vera Bettencourt, os chefes da Adega Vai à Fava, uma loja, tasca, bar e restaurante que somou um novo conceito à restauração na vila, pelo modo como reinventou os sabores tradicionais minhotos – e não só.

Comida saudável em mesa farta

Voltaríamos mais tarde ao Vai à Fava para jantar e provar alguns dos pratos mais afamados da casa, como o bife de alheira, o hambúrguer de vaca cachena ou o bacalhau em cama de broa, espinafres e caril. O mentor do projeto é João Bettencourt, um lisboeta apaixonado pela região, que após anos a visitar Ponte da Barca, decidiu meter mãos à obra. Recuperou um edifício em pleno centro histórico, onde em tempos funcionou uma escola e um quartel de bombeiros, e abriu portas no verão passado. «Enquanto visitante, percebi fazer falta um local como este, mais contemporâneo e cosmopolita, que não se limitasse aos pratos tradicionais. Que fosse restaurante mas também bar, onde se pudesse beber um copo até mais tarde, numa esplanada com vista para o rio», explica João, fazendo questão de trabalhar «com o máximo de produtores locais, de maneira a ter os verdadeiros sabores da região». E quem não gostar de carne, pode optar por um prato vegetariano, coisa rara de encontrar por estas bandas.

Andar de caiaque ou tomar banho no rio Lima são as atividades mais populares na vila, que ganhou um novo conceito de petiscos com a adega Vai à Fava.

Ou se calhar não, como comprovaríamos no dia seguinte, ao almoço, no Vila Gourmet, um espaço, também ele loja e restaurante, aberto há dois anos por Patrícia Pereira, que largou a engenharia civil para se dedicar à sua grande paixão: a comida. «O objetivo é aliar a alimentação saudável a pratos saborosos e apelativos aos sentidos», esclarece. Inicialmente funcionava só como loja de produtos gourmet, mas «a mania de estar sempre a inventar pratos» levou-a a arriscar um pouco mais. Para além de uma variada oferta de sopas, sanduíches, tostas e saladas, há sempre um prato do dia diferente e, mediante marcação, também abre para jantares – sempre com três pratos: peixe, carne e vegetariano. Entretanto, são também já famosos (e bastante concorridos) os brunch de fim de semana da Vila Gourmet. «Foi difícil arrancar, mas já começa a dar os seus frutos. Até porque não só olho pela saúde dos clientes como lhes dou a provar coisas muito boas.» O cestinho folhado de legumes com presunto e salada de quinoa, seguido de um cheesecake de forno com frutos vermelhos da região não nos deixou qualquer dúvida…

Texto de Miguel Judas - Fotografias de Pedro Granadeiro/Global Imagens
Reportagem da revista evasões n,º 15 - grátis à sexta-feira com o Diário de Notícias e Jornal de Notícias