A cadeia hoteleira asiática Six Senses escolheu Portugal para ser o primeiro país da Europa a ter um resort com a sua marca. Fê lo no Douro, recuperando o antigo Aquapura, em Samodães, para uma nova vida que se anuncia promissora.

«Era muito escuro e agora está diferente, mais luminoso e mais adequado à realidade do Douro.» Com ligeiras variações, esta é a frase que mais se ouve, por estes dias, entre o staff do Six Senses Douro Valley, a funcionar desde 15 de julho. A grande maioria sabe do que fala. Na mudança de gestão (e de conceito) operada entre outubro de 2014 e junho de 2015, período em que esteve encerrado, apenas 20 por cento dos empregados do antigo Aquapura terão sido dispensados; os restantes ficaram, receberam formação e estão agora mais confiantes do que nunca no futuro. E passaram a ser chamados de anfitriões.

Inaugurado em 2007 na Quinta do Vale Abraão, que fora até então propriedade da família Serpa Pimentel e servira de inspiração ao romance de Agustina Bessa-Luís (e, mais tarde, de cenário ao filme de Manoel de Oliveira), o projeto Aquapura, pela mão da família Vaz Guedes, causou furor e deu notoriedade nacional e internacional ao Douro enquanto destino. Só que, devido à crise no setor imobiliário, de que dependia boa parte do investimento realizado, nunca cumpriu por completo o seu desígnio.

Em 2013 o passivo foi adquirido, através do Fundo Discovery, por Miguel Guedes de Sousa, que investiu oito milhões de euros e persuadiu a cadeia asiática Six Senses (ver caixa), conhecida pela excelência na hotelaria e também por dar grande ênfase à questão da sustentabilidade e do bem-estar, a fazer da unidade o seu primeiro resort na Europa.

Esta unidade renovou-se e agora ressurgiu com materiais naturais como a pedra e a madeira. A paisagem, essa, continua deslumbrante, como sempre.

A entrada dos tailandeses em campo implicou rever a estratégia e o posicionamento. A decoração da premiada designer de interiores portuguesa Nini Andrade Silva, em tons de uva e com um estilo marcadamente oriental, que fora por anos a marca registada do hotel, foi substituída por uma outra abordagem mais próxima à realidade e à história do lugar. Materiais naturais como a pedra e a madeira e uma paleta de cores que vão do cinza-claro ao areia e verde-musgo são a grande aposta do ateliê de arquitetura nova-iorquino Clodagh Design, o escolhido para orquestrar a reviravolta visual, que teve ainda o cuidado de fazer um levantamento de objetos tipicamente portugueses na região (como utensílios agrícolas ou caixas de vinho) para os incorporar nos vários ambientes. Outro detalhe importante foi a inclusão, junto às áreas dos elevadores, de fotos ampliadas a preto e branco do tempo em que a quinta pertencia aos Serpa Pimentel.

Este sentimento de integração agrada e, de acordo com os atuais responsáveis pelo Six Senses Douro Valley, deve atrair mais hóspedes de mercados como o Reino Unido, França, Espanha, Brasil e EUA, além dos asiáticos, que são esperados para estadas mais longas do que a média habitual. Os portugueses também entram nas contas, apesar dos preços um pouco proibitivos, daí que na época baixa esteja prevista uma campanha de 25 por cento de redução nas tarifas de fim de semana para nacionais.

O número de alojamentos, num total de 57 que inclui desde quartos de várias tipologias a suites e vilas, foi mantido, bem como a propriedade de oito hectares que abarca, além da casa apalaçada do século XIX e da nova ala com superfícies espelhadas que refletem o rio e as vinhas, jardins, fontes e lagos ao gosto romântico. A piscina exterior, uma das mais bonitas do país, e todas as áreas de apoio mantiveram igualmente a sua essência, mas os materiais foram trocados. A grande diferença está sobretudo na forma como se pretende desfrutar deste imenso potencial, com mais áreas de relaxe e de meditação e um sem-número de atividades diárias que vão do ioga ao ar livre, escalada e até passeios de kayac, entre outras.

Vai ser difícil querer sair do Six Senses Douro Valley, mas motivos de peso não faltam para o fazer — nem que seja apenas por um par de horas.

Nesse sentido, e junto à horta, foi já instalada debaixo de uma pérgola uma mesa comum onde o chef Paulo Matos (que transitou do Aquapura) organizará jantares para poucos hóspedes num sistema de proximidade que lhes permitirá uma interação constante. Como num showcooking, só que melhor. Em alternativa, os mesmos banquetes podem ter lugar na cozinha aberta do restaurante Vale Abraão (o principal da unidade), o mesmo onde é servido o excelente buffet de pequeno-almoço, com direito a ver em ação o Josper, um fogão a lenha de última geração.

A gastronomia praticada segue uma lógica local, com produtos regionais e sazonais (destaque para a bonita louça de barro preto), mas trabalhada segundo as técnicas de hoje. Mais simples é a ementa pensada para a Wine Library, à base de tapas, enchidos e queijos, mas que funciona muito bem como acompanhamento dos vários vinhos que se quer dar a provar. Verdadeiro pivô das áreas comuns, a sala, sem descurar quem quer apenas descansar e/ou ler um livro, está equipada para ser levada muito a sério em termos vínicos – para isso foi determinante a contratação de duas wine directors, Francisca van Zeller e Sandra Tavares da Silva, que reuniram já cerca de 750 referências que vão até ao Douro espanhol.

A Six Senses não quer deixar nada de fora; a começar numa política de solidariedade que os levou a criar uma mascote, o burro Dorival, cujas miniaturas são vendidas sem fins lucrativos. Conhecendo porém a sua filosfia, é claro que não poderia faltar um spa. A área de 2200 metros quadrados existia anteriormente, com piscina interior aquecida e dez salas de tratamento, mas a parada subiu e deve, pela primeira vez, funcionar como um chamariz por si só (aberto a não hóspedes). Com um treino bastante exigente, as terapeutas iniciam os rituais com a taça tibetana (ao ser tocada ela emite vibrações que ressoam por todo o nosso corpo) e utilizam ingredientes como uvas provenientes dos vinhedos durienses. As diferentes formas de ioga, a par de outras possibilidades, são um dos grandes cartões-de-visita.

Como o rio. Por onde quer que se olhe. À chegada ou à partida, poucos são os que resistem à janela, e varanda, rasgada de alto a baixo na receção. Numa das curvas do Douro, a obra do homem enaltece a criação da natureza.

Six Senses Douro Valley
Quinta de Vale Abraão, Samodães, Lamego
Tel.: 254660600
Web: sixsenses.com/DouroValley
Preço: A partir de 285 euros em quarto duplo com pequeno-almoço

Restaurante Vale Abraão
Preço médio: 35 euros


EN222: Há quem lhe chame, e bem, a estrada do Douro. A EN 222, criada para ligar Canedo, em Vila Nova de Gaia, a Almendra, em Vila Nova de Foz Côa, nem sempre facilita a vida a quem a percorre, pelo seu traçado e aglomerados populacionais, mas a transformação do trecho final de 110 quilómetros em corredor turístico faz dela um dos maiores cartazes do Alto Douro Vinhateiro. Recentemente, através de uma fórmula matemática que levou em conta dados como a aceleração, o raio das curvas e o comprimento das retas, ela foi eleita a melhor estrada do mundo para conduzir.

Roteiro

Quinta do Pôpa
Estrada fora, antes de chegar a Tabuaço, é preciso um curto desvio para entrar na Quinta do Pôpa (quintadopopa.com), pela localidade de Cimo Corgo, Adorigo. Aberta a visitas e à realização de eventos como piqueniques (todos os dias, entre as 10:30 e as 17:30 mediante marcação, com duração de uma hora), esta quinta ainda muito jovem nas lides dos vinhos — os primeiros foram para o mercado em 2007 — conta já com três prémios e uma produção anual de 70 mil garrafas.

Pedro Granadeiro/Global Imagens

Lamego
Desta cidade muito haveria para dizer e ver, mas ficamo-nos por um apontamento saboroso: bolas, carnes fumadas de porco, os biscoitos de Teixeira, os pastéis de Lamego ou os peixinhos de chila são especialidades da terra. Estes últimos, avisa quem amigo é, são das guloseimas com mais saída na Pastelaria Trás da Sé (Rua Virgílio Correia, 16), que, como o nome bem sugere, fica numa rua colada à praça da Sé.

D.O.C.
Em Armamar, em Folgosa do Douro, o D.O.C. (ruipaula. com, preço médio: 40 euros por pessoa) de Rui Paula permanece uma referência espacial e gastronómica. Há cerca de 20 anos no ativo, Paula nasceu no Porto, emigrou e voltou ao Douro para fazer do D(egustação) O(rigem) C(ertificada), com oito anos, um caso de sucesso tão grande que lhe abriu caminho para outros projetos de boa saúde no Porto, no Vidago e até no Brasil.

Pedro Granadeiro/Global Imagens

Império dos sentidos
A cadeia Six Senses, que engloba também as unidades Evasion, nasceu na – Tailândia e tornou-se uma referência de luxo e bem-estar. A sua implantação, através de hotéis, resorts e spas,começou na Ásia, mas nos últimos anos tem vindo a expandir-se para o Médio Oriente e para a Europa. Em Portugal começou por ter um spa no Penha Longa, em Sintra, mas a parceria terminou. O Douro Valley é o seu primeiro resort na Europa.

Texto de João Miguel Simões
Artigo da revista evasões semanal n.º 21 - grátis à sexta-feira com o Diário de Notícias e Jornal de Notícias