Ele quase não viajava, ela sempre o fez. Desde que estão juntos, há dez anos, já estiveram em quatro continentes e conseguiram a proeza de fazer por terra os caminhos das caravanas que iam dar ao Oriente, da Turquia até à China.

HERÓIS DA ROTA DA SEDA

Carla Mota viaja desde sempre. Tem 40 anos, mas desde pequena que está habituada a explorar o desconhecido. Com os pais, fazia campismo e montanhismo, mas assim que ganhou asas e se tornou independente o céu era o limite. Geógrafa, aproveitou até o ano em que fez investigação nos Andes argentinos para calcorrear de mochila às costas a América do Sul, completamente sozinha. Rui Pinto, de 38 anos, professor de Físico-Química, viajava sobretudo «no plano teórico» até conhecer Carla. «Lia muito, mas faltava-me o impulso inicial.» Quando se encontraram, e poucos meses depois de começarem a namorar, decidiram lançar-se num InterRail. Rui adorava comboios, Carla não gostava de estar quieta. Podia ter sido o fim de uma curta relação, não tivessem descoberto na altura que afinal eram mesmo compatíveis e que o que os fazia felizes era viajarem na companhia um do outro.

Geografia e Físico-Química são as duas áreas de ensino deste casal de professores que não consegue estar quieto.

Na Patagónia, Carla e Rui renderam-se à natureza.

Passado o primeiro teste, voltaram a casa, em Guimarães, já a pensar na viagem seguinte. Porque a Europa era «demasiado próxima», escolheram um destino que lhes permitisse afastar-se de tudo quanto tinham como certo e seguro. No ano seguinte, foram para a Índia. Gostaram tanto que, em 2016, se prepararam para repetir: o célebre festival das cores, uma antiga celebração hindu que acontece todos os anos em data diferente, vem-lhes mesmo a calhar nas férias escolares da Páscoa.

Sendo ambos professores, explicam, têm a vantagem de conhecer em setembro o calendário do ano letivo. Ao mesmo tempo que planificam as aulas, vão gerindo férias e feriados. Entre viagens mais curtas, na Páscoa ou no Natal, planeiam a mais comprida, que normalmente lhes toma os dois meses das férias do verão. Neste ano, vão para África do Sul, Namíbia, Zimbabwe, Botswana. «A viagem de verão é normalmente restrita a um tema», diz Rui. Existe sempre um fio condutor que liga os vários países do itinerário. No continente africano, a prioridade será a observação da vida animal.

Em 2012, foram conhecer mais de perto a civilização maia e passaram pelo México, Honduras, Guatemala. Antes, já tinham percorrido vários países do Médio Oriente e estiveram em Palmira, a cidade síria conhecida como a «Veneza das Areias» que agora está sob o domínio do Estado Islâmico. «Estivemos na Síria poucos meses antes do início da guerra civil. Um país que conhecemos como progressista, relativamente laico. É triste ver como se transformou», desabafa Carla.

No deserto chinês de Taklamakan, a vista recompensa quem escala a duna.

São democráticos na escolha dos destinos: ela vai para qualquer lado, garante, é raro bater o pé. Ambos vão fazendo sugestões, mas como o interesse no conhecimento científico é comum, acabam muitas vezes em locais inóspitos, que pouco atraem o comum mortal à procura de umas férias. Descanso, aliás, é coisa que não têm quando saem de Portugal à descoberta, seja para ir ver as paisagens glaciares da Gronelândia ou para fazer os oito mil quilómetros da Rota da Seda, a viagem que lhes tomou o verão de 2013. Orgulhosamente, suspeitam de que mais nenhum português conseguiu o mesmo feito: terão sido os únicos – «que nós saibamos!», dizem a rir – a atravessar Turquia, Irão, Turquemenistão, Usbequistão, Quirguistão e China, sempre por via terrestre, quais Marcos Polos do século xxi. «Em termos físicos, foi uma viagem muito exigente, até porque coincidiu com o período do Ramadão. E andámos sempre em transportes públicos, a língua também foi um obstáculo.»

Mas sobreviveram para contar a história, felizes e com um sentimento de «missão cumprida» por, também eles, terem feito os passos dos mercadores do mundo antigo que ligavam o Ocidente ao Oriente em busca do mais belo tecido de fabrico chinês. Estão até a trabalhar num livro sobre a viagem, já que investiram em muitos meses de estudo e pesquisa antes de partir. «Ficou a sensação de que era só para nós, o que não é mau, mas tínhamos necessidade de o passar também a outros.» Por outros, diz Carla, entenda-se não só os interessados em conhecer a história desta rota como também os viajantes com quem contactam, sobretudo através das redes sociais e dos vários blogues que têm criado para cada itinerário.

Recentemente, decidiram aglutinar toda a informação na mesma plataforma – viajarentreviagens. blogspot.pt – onde publicam os seus relatos e, ao mesmo tempo, fazem divulgação científica, já que tantas vezes as viagens têm um «lado B» que interessa a quem estuda os fenómenos e os mistérios da natureza. Estão sempre em contacto com outros viajantes, para trocar histórias e informações pertinentes. «Temos todos a mesma doença», admite Carla, entre duas gargalhadas.

A patologia sai-lhes cara, mas para pagar as viagens vão abdicando do que podem ao longo do ano. «São escolhas», esclarece Rui. Sem remorso. Dos cinco continentes, falta-lhes a Oceânia, onde ainda não estiveram porque durante o verão europeu é inverno na Austrália e na Nova Zelândia.

À medida que vão desbravando países, trazem consigo pequenas recordações que já lhes transformaram a casa num autêntico «museu etnográfico ». Há peças para todos os gostos, desde o chapéu dos monges do Tibete aos trajes típicos da Mongólia e da Sibéria. O espaço já vai faltando, mas há sempre onde arrumar mais um instrumento musical ou a estátua de uma divindade desconhecida.

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viajantes@voltaaomundo.com.pt

Texto de Bárbara Cruz