Lanzarote é misteriosa. El Hierro é sustentável. Gran Canária é divertida. Três ilhas, três realidades de um arquipélago conhecido pela oferta turística. Mas há muito mais para descobrir nesta comunidade espanhola com identidade muito própria.

Lanzarote

Lanzarote tem aura de paisagem do fim do mundo, ventosa, cinzenta, deserta. O preconceito só se esfuma no fim da viagem, como os vapores que saem do solo do Parque Nacional de Timanfaya. Ou como a luz do Sol que desaparece ao fim do dia na praia de Caleta de Famara.
Teguise, a primeira capital do arquipélago, com o seu Museu dos Piratas e histórias de corsários, é a primeira paragem. No Callejón de La Sangre, a rua atrás da igreja quinhentista de Guadalupe, travou-se a pior batalha entre a população local e aquele tipo de invasores. Ficou o nome. Ao fim de semana, a localidade enche-se de visitantes. Vêm pelas melhores ofertas no mercado de rua.

Nas entranhas da ilha, nos Jameos del Agua ou na Cueva de los Verdes, descobre-se a importância de César Manrique e do seu mundo imaginário.

Rumando ao norte da ilha, às Peñas de Andia, descobre-se uma das mais fantásticas paisagens do mundo. O exagero não é despropositado. O Mirador del Río está entre os dez miradouros mais impressionantes do planeta, de acordo com várias publicações (espanholas e não só). É o ponto ideal para saber mais sobre César Manrique, o génio da lâmpada que é esta ilha. Nasceu em Lanzarote em 1919, veio de uma família de classe média e cresceu à beira do mar. Enquanto jovem adulto, foi voluntário ao lado das forças do general Franco na Guerra Civil Espanhola. Quando o conflito terminou (1939), voltou à casa dos pais, cumprimentou a família, despiu o uniforme e pegou-lhe fogo.
Estudou Arquitetura Técnica, não terminou o curso e rumou a Madrid para cursar Belas-Artes. Tornou-se professor de Arte e Pintura e, em 1964, viajou para Nova Iorque, rodeando-se de boémios, artistas e jornalistas do East Side nova-iorquino.

Parque de Timanfaya: As crateras e os vales de lava merecem uma visita. A entrada fica por 8 euros. Todos os dias, das 10h00 às 18h00.

Timanfaya é parque natural e tem 50 km2 de área.

Cansado da «artificialidade» – foi essa a sua expressão – da cidade americana, voltou a Lanzarote com um objetivo: «Converter a minha ilha natal num dos lugares mais bonitos do planeta.» E assim foi. Pintor, escultor, arquiteto, ecologista, César Manrique teve vários rasgos de génio, foi polémico quanto baste, pagou caro pela homossexualidade numa sociedade preconceituosa e desapareceu de forma inesperada em 1992. Um acidente de automóvel, bem perto do local onde hoje se localiza a fundação com o seu nome, vitimou-o, mas Manrique continua vivo. Seja no miradouro, na sua casa (onde hoje funciona a fundação) ou nos Jameos del Agua e na Cueva de Los Verdes, grutas indescritíveis formadas pelo túnel criado aquando da erupção do vulcão de La Corona. Da cratera ao mar são sete quilómetros com formações geológicas impressionantes, ilusões óticas, um lago natural e uma praia artificial saídas da mente de Manrique.

Em termos de natureza, não há nada como o Parque Nacional de Timanfaya, no lado oposto da ilha. Os cinquenta quilómetros quadrados de Timanfaya são o resultado de seis anos de erupções violentas de mais de cem vulcões, entre 1730 e 1736. Um dia, quando o mundo como o conhecemos acabar – porque algum dia terá de ser – provavelmente tudo ficará assim. São quilómetros a perder de vista de um mar de rochas negras, retorcidas, misturadas com terra avermelhada ao longo das encostas e das crateras, formando ravinas tão assustadoras como belas. A meia dúzia de metros de profundidade, a temperatura chega facilmente aos seiscentos graus centígrados.

Em Tías, a homenagem a José Saramago.

Fundação Manrique: A casa do artista é um convite ao espanto e ao deslumbramento. Saiba mais em fcmanrique.org

Foi por aqui, pelo Parque Nacional de Timanfaya, que José Saramago e Pilar del Río se deixaram filmar para um dos documentários de maior sucesso do cinema português – José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes. E é daqui que se parte para Tías, muito perto da animada Puerto del Carmen. A rotunda à entrada da pequena localidade dá a entender que não se está longe da casa. A Casa, o local escolhido para viver pelo escritor e pela jornalista ibéricos. Funciona como casa-museu, mantendo vivas as recordações. A visita leva o seu tempo, como todas as coisas boas da vida. E na rotunda, a cem metros da casa, a escultura de ferro de uma oliveira é a homenagem de Tías a Saramago. Na base, a frase do escritor português: Lanzarote no es mi tierra, pero es tierra mía.

El Hierro

Não há voos diretos entre Lanzarote e El Hierro. Tenerife ou a Gran Canária são os destinos de ligação para se chegar ao paraíso ecológico que é a menos conhecida ilha das Canárias. Desde a antiga Grécia que El Hierro está no mapa. E por uma simples razão – antes de se sonhar sequer com o meridiano de Greenwich, já a ilha estava referenciada como o Meridiano Zero. Hoje é conhecida pela sustentabilidade ambiental, pela existência de rede wi-fi nos principais miradouros do seu território ou pela erupção vulcânica subaquática de 2011 que atraiu a curiosidade da comunidade científica.

El Hierro é Reserva da Biosfera pela UNESCO desde o ano 2000. Cerca de sessenta por cento do seu território é protegido, apresentando mais de quinhentos cones de vulcões, montanhas, florestas, bosques de pinheiro autóctone, escarpas que impressionam e uma diversidade de flora ao alcance de poucos. Valverde é a capital, e quem aqui vem sabe que não pode fazer comparações com as restantes ilhas das Canárias – mais populosas, mais turísticas, mais apetrechadas. Quem chega sabe ao que vem. Caminhada e mergulho são as principais atividades de lazer em El Hierro e «só» isso já vale a pena.

Em baixo, o Miradouro junto ao pico Roque Nublo, a 1800 metros de altitude.

Por aqui também se encontra (em cima) o hotel mais pequeno do mundo (Guinness World Records) – o Hotel Punta Grande (hotelpuntagrande.org). Existe desde 1830, já foi armazém de vinho, fruta e água e em meados dos anos 1970 sofreu uma profunda remodelação, passou a restaurante, converteu-se em museu naval e tem agora quatro quartos à beira-mar, virados para o local onde o Sol se põe.

A ilha de El Hierro é o santuário natural das Canárias. Aqui procura-se a sustentabilidade e a independência energética.

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La Restinga e Mar de las Calmas são dois dos pontos mais procurados da costa por quem aprecia as atividades submarinas. A temperatura da água oscila entre 18 e 25 graus ao longo do ano e, a poucas milhas da costa, atingem-se facilmente os trezentos metros de profundidade. Anualmente, em outubro, decorre aqui o Open Fotosub Isla de El Hierro, um dos eventos de fotografia subaquática mais importantes da Europa. À superfície, também não faltam os itinerários para o trekking. Esta é uma terra de subidas e descidas, um paraíso para quem não dispensa caminhadas nas suas férias. A consciência ecológica está um pouco por toda a parte. Esse é o futuro de El Hierro – o desenvolvimento sustentável graças à construção de uma central hidroelétrica e parque eólico que garantem a sua independência energética.

Gran Canária

O impacte do negócio do turismo sente-se quando se faz o percurso da costa sul entre Puerto Mogán e Maspalomas. Há hotéis, aparthotéis, resorts e casas para alugar por todo o lado. Da beira da praia ao topo da montanha, as encostas estão cheias. Alemães, escandinavos e ingleses encabeçam a lista de nacionalidades.
Tudo começa no inverno, quando os turistas fogem ao frio para se refugiarem nas noites e dias quentes das Canárias. Se os dias são passados na praia, as noites são de muita animação nas centenas de bares e discotecas da Playa del Inglés, um dos destinos mais procurados por jovens e menos jovens de todo o mundo. Centros comerciais como o Kasbah estão abertos 24 horas por dia. Com a luz do sol cumprem a sua vocação mercantilista e, à noite, abrem portas como espaços de diversão. Nas ruas, os angariadores de clientes são rápidos a oferecer bebidas, música e tudo o mais que se possa imaginar. Com o passar das horas, a temperatura aquece e já se sabe o que esperar de grupos de amigos e amigas em férias…

A Gran Canária é um parque de diversões. Na gastronomia, surpreenda-se com o restaurante do Hotel Santa Catalina. Produtos da região com toque especial num edifício cheio de história.

Em Las Palmas a realidade é diferente. Divide com Santa Cruz de Tenerife o estatuto de capital do arquipélago, tem uma riqueza histórica de monta e está longe (cinquenta quilómetros) dos centros turísticos mais procurados. É apontada como tendo um dos melhores climas do mundo, com temperaturas moderadas e quentes ao longo do ano, mas os seus motivos de interesse não ficam por aí. Há uma nova forma de descobri-la que vale a pena – de bicicleta elétrica. Percorrendo o centro histórico, cruzando ruas pedonais e vias estreitas, há tempo para ver a casa de Cristóvão Colombo ou a Orden del Cachorro. Se do navegante já muito foi dito, da ordem pouco se sabe. O Cachorro é o chapéu tradicional dos habitantes da ilha e este espaço, na Plaza de Santo Domingo, é o local ideal para mergulhar na gastronomia e na cultura locais. Também tem vinho da região, o que é sempre um excelente motivo de interesse.

Quando, normalmente, se pensa nas Canárias, a primeira imagem é a de praias de água quente. E elas não faltam. Na Gran Canária, no entanto, o interior é um trunfo bem escondido na manga. Todos os caminhos parecem ir dar ao Roque Nublo, um monólito de oitenta metros de altura a mais de 1800 metros de altitude, no centro da ilha. Para lá chegar, há desfiladeiros que impressionam, como a Degollada de las Yeguas, ou aldeias escondidas na montanha. É o exemplo de Fataga, com mais de dois mil anos de história e um dos locais tombados como Património da Humanidade pela UNESCO. O percurso, de automóvel, da costa sul à costa norte, está repleto de boas surpresas, como vinhedos, paradores ou pequenas plantações de café.

Tal como nos Açores e na Madeira, as lapas fazem parte da ementa das Canárias.

Guia

Ir:
A Binter (bintercanarias. com) voa de Lisboa para a Gran Canária a partir de 300 euros por pessoa.

A não perder em Lanzarote:

Mirador del Río
Na montanha de Risco a 474 metros de altitude, no Norte da ilha. Considerado um dos dez miradouros mais bonitos do mundo, sobre o canal que liga Lanzarote à pequena ilha de La Graciosa. Entrada: 4,50 euros; Todos os dias, 10H00-17H45

A Casa José Saramago
Entre no mundo de José e Pilar, descubra os recantos e as recordações da vida do escritor português, sente-se à mesa da sua cozinha e beba um café antes de mergulhar na impressionante biblioteca.
Calle los Topes, 3, – Tías; Segunda a sábado, 10h-14h30. Entrada: 8 euros
acasajosesaramago.com

 

Texto de Ricardo Santos - Fotografias de Leonel de Castro/Global Imagens