Mais de seiscentos quilómetros de estrada entre Tânger e Marraquexe com Fez pelo meio. Marrocos é muito mais do que isto, mas não seria nada sem as diferenças de cada uma destas cidades. É um país que se descobre a cada viagem.

Viajante em Marrocos que se preze terá de passar pelo menos uma vez por aqui. A cidade azul tem encantos para descobrir e pode servir de base para a descoberta da região norte do país. As montanhas do Rif estão à sua espera.

Normalmente, a meia dúzia de quilómetros de Chefchaouen, à beira da estrada, já há rapazes a fazer sinal aos condutores para pararem e fazerem negócio. O que oferecem não deve nunca vir nos guias turísticos nem nas revistas de viagem, mas eles estão lá. Menos hoje, quando se faz parte de uma viagem organizada pelas entidades ligadas ao turismo do país. Afinal, estamos a duas horas de carro ao Sul de Tânger, nas montanhas do Rif, conhecidas pela sua beleza, imponência e também pelos seus cultivos tradicionais. Mergulhar no interior da cidade é descobrir as ruas azuis, num anil que fere a vista mas aguça a curiosidade. O sobe e desce constante, as mulheres de cabeça coberta, as crianças que passam a correr ou os carros que desafiam as leis da física para circular fazem parte do retrato.

Este tem sido também um destino de curta duração nas minhas anteriores incursões. Dois ou três dias são mais do que suficientes para absorver o espírito e seguir em frente, mas Chefchaouen pode ser também uma base simpática para uma semana de viagem que inclua Tânger, Tétouan e Fez, por exemplo. Tem hotéis para todos os gostos e preços, restaurantes de qualidade, comida de rua e artesanato típico com fartura. Neste caso, serviu como paragem para almoço antes de mais quatro horas de viagem até ao destino intermédio da reportagem – Fez, a mais antiga cidade imperial de Marrocos (parceira de Meknès, Rabat e Marraquexe), fundada no ano 789.

Verão azul
No centro de Chefchaouen, as paredes estão pintadas com o tom caraterístico. No labirinto das ruas descobrem-se lojas, riads e restaurantes onde apetece ficar mais tempo. É uma terra de negócios, ponto de partida para o Sul.

Hotel Parador
É um clássico da cidade, à entrada da zona antiga. Não tem o encanto dos muitos riads (na maior parte dos casos mais baratos) nas ruas mais estreitas, mas é uma aposta segura para quem não quer largar os parâmetros europeus.
Place El Makhzin I
Tel.: (+212) 399 861 136
Quarto duplo a partir de 65 euros por noite
hotel-parador.com

É uma das cidades imperiais, tem uma medina labiríntica com mais de nove mil ruas e alberga a mais antiga universidade do mundo. Na gastronomia também dá cartas, além de ser a capital espiritual de Marrocos e Património da Humanidade.

É aqui que encontramos a medina mais impressionante do país, com cerca de 9400 ruas e quinze quilómetros de muralhas. Além de capital espiritual, é a cidade mais importante em termos gastronómicos e também aqui foi aberta a mais antiga universidade do mundo – a de El Qaraouyin, em 859. Curiosamente, começou sendo liderada por uma mulher, Fatima al-Fihri. O sentido de orientação é fundamental em Fez. Isso ou contratar um guia local para percorrer os sinuosos caminhos da zona mais histórica da cidade de um milhão de habitantes.

É muito fácil alguém perder-se por aqui. Hidriss, o guia que acompanha a viagem, tem o nome do fundador do país e da cidade e um sentido de humor apurado. «Estão a ver as crianças mais loiras e brancas que encontram na medina? São filhos de turistas que se perderam nestas ruas…»

Caminhar pela Fez antiga é sentir o peso da história e do selo de Património da Humanidade atribuído pela UNESCO. Aqui, podem encontrar-se uma igreja católica, uma sinagoga e uma mesquita separadas por curta distância. E, no caminho, é obrigatório parar na Praça Seffarine e ouvir os artesãos dos metais que martelam pratos e panelas a um ritmo cadenciado que dá vontade de dançar. Não gostam de ser filmados ou fotografados e entende-se porquê. Apesar de viverem e trabalharem numa das cidades mais visitadas de Marrocos, não são animais de circo nem este é um safari fotográfico. É tudo uma questão de respeito, seja aqui, em Portugal ou noutra qualquer paragem.

Fez mantém o seu papel de ponto de encontro ancestral. Os berberes da montanha ou os tuaregues do deserto deixaram aqui a sua herança e ela reflete-se, por exemplo, na gastronomia, através da cozinha Fassi, típica da região e que combina igualmente influências da Andaluzia espanhola e dos costumes judeus. Complicado? Antes pelo contrário – beringela açucarada, cenouras com mel e espinafres, tagine de vitela com sésamo e amêndoas ou curgetes com carne seca fazem lamber os dedos. Mesmo que se esteja num dos restaurantes mais elitistas da cidade, o do Palais Faraj, hotel e spa com vista sobre a medina.

Terra de Artesãos
Metal e pele de animal são materiais nobres em Fez. Ver os homens que os trabalham faz parte do roteiro turístico. Nos curtumes, a maior dificuldade é esquecer o cheiro da oficina a céu aberto.

Dois dias não chegam para apreciar tudo o que Fez oferece, mas isso depende do gosto de cada visitante. Há monumentos e espaços históricos que merecem mais atenção, como as escolas corânicas – as madrassas –, onde se percebe realmente o elevado grau académico que o mundo árabe experimentou entre os séculos VIII e XV. Escultura, poesia, arquitetura, engenharia ou pensamento faziam parte da cultura de um povo que procura manter intactos os seus tesouros. Entre eles, a madrassa Attarine (início do século xiv), o mausoléu Moulay Idriss (fundador e patrono da cidade) ou a fonte Nejjarine, com a sua fachada ricamente decorada. E depois há a vida do dia-a-dia de Fez, aquela que obriga ao trabalho.

Nesse campo, é difícil encontrar comparação com o que se passa na zona de tratamento de curtumes de Chouara. Centenas de tanques arredondados, e com profundidade de até meio corpo de um homem adulto, ligam-se uns aos outros. Em comum têm a água no seu interior, sempre com tonalidades diferentes formando um mosaico impossível de não fotografar. Nem que seja com a mente. É aí que são mergulhadas as peles de animais que vão dar origem a sandálias, malas, casacos, selas e tudo o mais que se possa imaginar fabricar com este material.

Depois são postas para secar, ao sol, com excrementos de pombo a ajudar ao processo. Homens de todas as idades passam os dias a tratar a pele num meio onde o cheiro é intenso, agressivo e ligeiramente suportável graças às folhas de hortelã – as mesmas do chá – distribuídas à entrada da loja e fábrica de couro que nos coube em sorte. La tannerie é uma visão – e um cheiro – que não se esquece.

Les Merinides
É, provavelmente, a melhor vista de hotel da cidade. Está situado numa encosta virada para a medina e a curta distância da mesma. Os quartos e as zonas comuns têm um estilo clássico, o serviço é eficaz e o terraço permite momentos únicos de tranquilidade.
Borj Nord I
Tel.: (+212) 535 645 226
Quarto duplo a partir de 100 euros por noite
hotel-lesmerinides.com

A seguir vamos até Marraquexe
A cidade mais visitada de Marrocos é um misto de história com luxo e modernidade. A sua praça mais famosa sai em todos os guias de viagem, mas há muito mais para conhecer, como os jardins, as mesquitas e a vida do dia-a-dia.

Acompanhe a continuação da viagem em
www.voltaaomundo.pt

visitmorocco.com

Texto de Ricardo Santos - Fotografias de Adelino Meireles/Global Imagens