A segunda maior cidade da Alemanha mistura à sua melancolia hanseática, bairros de sangue quente, o cosmopolitismo e a ousadia arquitetónica. Um concentrado de energia.

Como uma ostra que é vertida, à descrição dos céus terríveis tingidos de cinza-estanho, roxos-furiosos e brancos-frios-e-sujos, feita pelo escritor Siegfried Lenz, junta-se o brilho azulado dos blocos de gelo deste inverno, os sobretudos de chuva, a mordedura do frio, as emboscadas do vento. Como digerir esta imensa cidade lendária, com 105 bairros e quase dois milhões de pessoas?

Num final de tarde, no bairro chique de Blankenese, a montante da cidade, o ar está divinamente puro, tão transparente que vemos tão bem uma chávena de café como a imensidão dos pomares que ficam na outra margem (16 milhões de macieiras, cerejeiras, pereiras…). É aqui que se iniciam os 75 quilómetros do porto. E é até possível escutar os poemas melancólicos de Hans Leip, autor de Lili Marlene, descrevendo o bairro de escadas, o cheiro do peixe e do grogue de especiarias. O local é vasto com as suas casas outrora habitadas por marinheiros e capitães.

O rio Elba mostra as suas mangas e os seus reflexos brancos e é difícil imaginar que o mar fica a uns longínquos cem quilómetros. Um enorme cargueiro, esmagado sob os seus cinco mil contentores, lembra-nos disso com os seus pequenos cubos de Lego que no seu interior trazem de tudo: sucata de metal, automóveis, carne, roupas… Aproximemo–nos, como ele, da cidade. Subamos o rio.

Hamburgo é ainda uma cidade marcada por uma certa imponência arquitetónica do passado, mais formal, mas uma série de novos edifícios públicos assinados por estrelas como Herzog & De Meuron ou Rem Koolhaas vão lançá-la para um patamar urbanístico diferente.

A hora dourada
São 19h30, os turistas são deixados no hotel e preparam-se para o resto do seu circuito. No porto de Sankt Pauli, nos pontões, à Brücke 10, por exemplo, chegam todo o tipo de empregados, vêm tomar um copo de vinho branco, de cerveja, um pastel de camarão ou ostras de Sylt. A hora é loira, com um pôr do Sol admirável, mas é ainda preciso descobrir o grande rasgo arquitetónico, a HafenCity. Em 157 hectares, a segunda maior cidade da Alemanha está em vias de ganhar o seu desafio: reabilitar os seus baldios portuários, tal como Liverpool, Antuérpia ou Bilbau, para se juntar ao pelotão da frente dos líderes das grandes cidades marítimas. Para isso, vai aumentar em 40% o tamanho do seu centro. Em 2020, mais 12 mil pessoas devem acordar no centro desta cidade que nunca dorme.

Quando se finalizar a construção da Filarmónica do Elba, num antigo armazém de cacau e retalhada entre oblíquos e curvas pelo gabinete Herzog & De Meuron, será esta o novo símbolo da cidade sucedendo ao campanário da igreja de Saint-Michel. Juntando o Museu da Ciência revisto por Rem Koolhaas e o terminal de cruzeiros arredondado por Massimiliano Fuksas fará de HafenCity uma soberba lição de arquitetura digna de Chicago.
Uma espécie de aristocracia dá à cidade este carácter único. Como esta cidade não se assemelha a nenhuma outra na Alemanha, foi assim que nasceu cosmopolita. Aqui, as pessoas preferiam casar os filhos com uma estrangeira do que com uma corajosa rapariga de Bielefeld. A mãe de Thomas Mann era brasileira, aqui o horizonte é o mundo.

Recebem os turcos sem pestanejar ( 95 mil cidadãos), os afegãos (vinte mil) vieram juntar-se aos polacos, italianos, gregos, que nada tem que ver com a chegada em força dos chineses. Todos os anos o comércio com estes aumenta vinte por cento.
Se esta cidade começou com os comerciantes e armadores, cresceu tentando a sua sorte com o tweed (tecidos ingleses) e especiarias, criando uma espécie de aristocracia anglófona, que lhe confere esse caráter inconfundível. Basta envolver-se nas colunas eduardianas de um dos melhores hotéis da Europa, o Vier Jahreszeiten, à beira do lago, ou entrar na loja Ladage & Oelke (Hermès local), sob as arcadas de Neuer Wall, para sentir este toque snob, muito culto, indiferente.

Quase solitário, à hora do chá
E onde estão as pessoas? No bairro de Sankt Pauli, pois claro! Se nunca foi sociável na sua vida, pode curar-se imediatamente. O nosso conselho: vá a este bairro efervescente num sábado à noite. De preferência por volta das 11 horas da noite. Engarrafamentos de gente, grupos de bebedores, barrigas bem alimentadas, néons desfigurantes.
Parece-lhe bem? Não. Então vamos continuar já que estamos aqui. Tentar encontrar a alma do bairro no
La Paloma, no café Rossi? Em vão, a cerveja é como um pano de fundo, um aquário. Talvez, na taberna Gretel und Alfons, mas os tatuados rendidos ao álcool e o decote pronunciado da gerente não são suficientes.

Percebe-se então porque no Star Club, incendiado em 1982, agora rebatizado Suss Show Bar, cinco rapazes de Liverpool iriam levar o mundo à loucura. Até batizaram uma praça com a forma de um disco de vinil 33 rotações, com o nome do grupo: Beatles Platz. Foi aqui que eles nasceram verdadeiramente.
É preciso muita paciência e assombro para tragar o ar de Hamburgo como uma canção de Brel ou como o filme O Amigo Americano, de Wim Wenders. Esta melancolia salgada, esta carga emocional cheia de ressentimento, tristeza, força e de ventos. Hamburgo resmunga e geme, com o canto dos pontões, as mágoas da vida. A última guerra aqui foi feroz. Ela tornou, sem dúvida, a carapaça da cidade tão espessa como uma das suas oito torres antiaéreas, incluindo Flakturm IV em Feldstrasse. Quatro mil pessoas poderiam viver de forma independente dentro de paredes com 3,50 metros de betão armado de espessura. A cidade estava protegida por 1500 abrigos antiaéreos, ainda subsistem setecentos.

A zona das docas, sobretudo no bairro ribeirinho de Sankt Pauli, na margem direita do Elba, fervilha de vida graças aos muitos bares. É a febre de sábado à noite à alemã.

Tudo isso faz de Hamburgo uma cidade única no mundo. Pertence ao lote de cidades que estão no topo, pairando como O Viajante sobre o Mar de Névoa, de Caspar David Friedrich, exposto no museu Kunsthalle deserto. É uma cidade revoltada, poderosa mas solitária. Metade da população é solteira. Logo que o dia desponta, percebe-se que a cidade liberta uma energia colossal. Procuramos a origem dessa força, dessa raiva telúrica. Não é difícil de encontrar: a amplitude da maré, que é de 50 cm no Mediterrâneo, aqui sobe para 3,60 metros nos dias de hoje, 1,50 metros no século passado. Hamburgo é simplesmente uma cidade que nos toca, o seu fôlego é imenso. O ar neste Maelström – ou turbilhão – incrível de luxúria, betão, aço e olhares, mantém-se de uma clareza inacreditável.

germany.travel/pt
hamburg-tourismus.de

Um guia à medida: Ulrike
Schröder (ulrike – schroeder.com) conhece a cidade na ponta dos dedos, uma visita por ela guiada (museus, galerias, porto, Beatles, Hamburgo desconhecido) poupa imenso tempo. Para grupos de seis pessoas, 150 euros por duas horas

Onde Comer

Café Paris
Bom local para tomar o pequeno–almoço com alguns inimigos da dieta como o croissant de presunto e queijo, pratos do dia à maneira francesa, e habitantes locais em plena efervescência.
Rathausstrasse 4
Cerca de 25 euros

Oberhafen Kantine
Em pleno porto, uma pequena casa inclinada que serve pratos típicos, como hambúrgueres simples. Terraço para os dias agradáveis e hambúrguer no pão.
Stickmeyerstrasse 39
Cerca de 25 euros

Fischküch
Restaurante encantador e especialmente dotado nos pratos de peixe (solha soberba) ou pratos típicos, tais como a combinação de arenque, beterraba, ovo frito, batata e carne picada (Labskaus).
Kajen 12
60 euros.

Onde ficar

Park Hyatt
252 quartos, incluindo 16 suites, num edifício que data de 1912, excelente localização entre a principal estação ferroviária e a Câmara Municipal. E a cereja no topo do bolo , um health club fantástico: Club Olympus .
Bugenhagenst 8
hamburg.park.hyatt.com

Fairmont Hotel
Vier Jahreszeiten Um dos alojamentos de maior prestígio na Europa, o charme e luxo profundo em estilo eduardiano. Hóspedes distintos.
Neuer Jungfernstieg 9-14
fairmont.hvj.de

Mövenpick Hotel Hamburg
Excelente localização numa antiga estação elevatória de água. Muito mais que uma curiosidade.
Sternschanze 6
moevenpick – hamburg.com

Texto de François Simon - Fotografia de Eric Martin/Figaro Magazine