Num ano decisivo para a Europa, o politólogo Bernardo Pires de Lima faz-se à estrada para percorrer as 28 capitais da União Europeia. Depois de muitas conversas, encontros improváveis e perceções surpreendentes, vai juntar os 28 ensaios num livro. Até lá, a Eurovisão será emitida aqui, na Volta ao Mundo.

Sófia, Bulgária

É a terceira capital europeia mais antiga, o país tem uma identidade profunda e longínqua, há um cruzamento nítido de tradições surgidas de fora com maior ou menor brusquidão, mas nem tudo isto foi capaz de conduzir a um sobressalto durante o jugo soviético. Nunca existiu na Bulgária um Imre Nagy ou um Lech Walesa que sinalizassem uma dissensão profunda com Moscovo ou um rumo de transição capaz de regenerar a elite dirigente. A primeira impressão dada pelas conversas em Sófia foi de uma profunda exaustão com a incapacidade búlgara em transformar a sua democracia num sistema transparente, credível e moderno. Exaustão e exasperação: a falta de alternativas leva a que o primeiro-ministro vá já no terceiro mandato sem que verdadeiramente alguém diga bem dele.

De certa forma, essa angústia transformadora reflete um pouco a dinâmica histórica búlgara, bem visível na interessante traça arquitetónica da capital, capaz de fazer emergir a imponência da Catedral Alexander Nevski, construída após a expulsão otomana pelas tropas russas em 1878 e tornada marco do cristianismo ortodoxo balcânico, mas que não destoa da catedral de Santa Sofia Agia Sofia em Istambul, o que reforça a proliferação de cruzamentos otomanos e bizantinos nesta parte da Europa. Capaz ainda de realçar a mesquita Banya Bashi, não muito longe da terceira maior sinagoga europeia e da igreja ortodoxa de Santa Sofia, num eixo de proximidade religiosa tão curioso como metafórico da evolução histórica do sudeste europeu.

Também aqui perto, o neoclássico do teatro nacional Ivan Vazov mistura-se com os dourados da igreja russa de São Nicolau, num percurso ainda capaz de nos orientar pelo lado urbanístico de inspiração soviética, com destaque para o imponente hexagonal Palácio da Cultura, a praça onde está o Palácio Presidencial, a Assembleia Nacional (antiga sede do Partido Comunista), ou as várias estátuas em honra do exército soviético, perto da universidade de Sófia. O auge do espólio soviético pode ser visto no museu de arte socialista, já fora do centro de Sófia, onde estátuas de Lenine e do “homem novo” fazem certamente chorar os nostálgicos do totalitarismo, tal e qual como o Memento Park, nos arredores de Budapeste. O resquício do culto da barbárie, nesta Europa de 2017, é qualquer coisa de absolutamente incompreensível.

Sófia tem espaços verdes agradáveis e um bonito enquadramento montanhoso. Vejo Ancara e Atenas em vários lados e recantos meio toscos (vale a pena jantar no made in blue) que vão definindo uma crescente e vibrante atmosfera cultural independente no teatro, no bailado e na pintura. É verdade que a cidade tem uma oferta cultural limitada, embora o espólio da Galeria de Arte da Cidade de Sófia mereça uma visita com tempo, sobretudo para ver a retrospetiva do trabalho de Ivan Milev, expoente da pintura búlgara na aproximação ao modernismo europeu do princípio do século XX. Hoje, no turbilhão das várias velocidades comunitárias, esse roteiro torna-se ainda mais indispensável.

Texto e Fotografias de Bernardo Pires de Lima

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