Quando se fala em ilhas gregas ouve‑se de imediato um suspiro. Fama ou proveito? Realidade ou ficção? A Volta ao Mundo embarcou num cruzeiro por algumas das incontornáveis ilhas do mar Egeu, entre elas Mykonos, Santorini, Creta, Patmos e Rodes. E não só. Quantas pessoas terão ouvido falar da ilha de Marathi? Afinal, ainda há sítios (quase) secretos em plena era do turismo.

Texto de João Ferreira Oliveira
Fotografias de Leonel de Castro / Global Imagens

Atenas – O começo

Não, não é ilha, já se sabe. Mas é aqui que tudo começa. A democracia, os Jogos Olímpicos, a viagem. A maior parte dos navios de cruzeiros sai do porto de Pireu, a menos de meia hora do centro, são por isso poucos aqueles que resistem a fazer uma visita à capital grega. Que é como quem diz à Acrópole. Estar em Atenas e não subir à mais famosa e antiga acrópole do mundo é pior do que ir a Roma e não ver o papa. O sumo pontífice tem uma agenda preenchida e nem sempre está à janela, já este património parece eterno, inquebrável, imutável, ponto de visita obrigatório e fascínio imediato para toda a gente. Ou quase. «Quando chegámos à Acrópole – foi uma loucura ir para lá imediatamente –, havia centenas de pessoas à nossa frente, apinhadas junto ao portão.

Nessa altura, já estava um calor tão tremendo, que eu só conseguia pensar em sentar‑me à sombra», escreveu Henry Miller, no livro O Colossso de Maroussi, relato de uma odisseia de vários meses pela Grécia, durante 1939. Talvez por ter acabado de chegar, porventura para fugir aos turistas – a tão na moda turismofobia é tão antiga como o próprio turismo –, não teve nem força nem paciência para subir os 150 metros da colina e sentou‑se à espera de que o seu companheiro de viagem visse «tudo a que tinha direito». Ele que acabaria por apaixonar‑se pelo país, escrevendo aquele que é um dos mais belos livros de literatura de viagens. O seu melhor livro, afirmou várias vezes.

Passadas oito décadas o ritual mantém‑se. Intensificou‑se. Não se sabe ao certo se por solidariedade para com um povo em crise (versão romântica), se na esperança de beneficiar dos baixos preços de um país à beira da bancarrota (versão mais real), a verdade é que o recorde de visitantes continua a ser batido ano após ano.

A região de Atenas é habitada de forma continua há cerca de 3400 anos.

Centenas de pessoas sobem e descem a colina, de boca aberta, o fascínio a levar a melhor ao cansaço. «Já todos vimos isto na escola, na televisão, no cinema, mas nunca pensei que fosse assim», confessa Emilia, madrilena. «Conheço muitos sítios Património Mundial, mas às vezes a montanha acaba por parir um flop, aqui não. Olhe para aquilo», diz apontando para o Partenon, lá no topo. É a mais emblemática obra da acrópole, porventura da Grécia Antiga, um templo de V a.C dedicado a Atena – deusa da civilização e da sabedoria. O marido concorda. «Parece que estamos dentro de um livro de história da arte. Só senti algo semelhante em Roma.» Ele que tem precisamente o livro de Henry Miller na mão. Tiram a milésima primeira foto e despedem‑se a correr, que o barco não espera. Vão fazer um cruzeiro, tal como nós.

Roma e Atenas não se fizeram num dia, e a capital grega merece muito mais do que umas horas de visita, mas dá, sem dúvida, para lhe sentir o peso. E ver a vista. Afinal, acrópole em grego significa: cidade alta.

Mikonos – A famosa

Quem já vez uma viagem de cruzeiro sabe como é: durante a noite navega‑se e de manhã acorda‑se com um novo destino à janela. Destino esse que pode ser explorado até meio da tarde ou final do dia, altura de voltar ao barco e zarpar. Mykonos é a primeira paragem. A mais famosa ilha grega, a par de Santorini. É pequena (tem pouco mais de 80 km2), ventosa e cada vez mais procurada. No inverno são cerca de seis mil os residentes fixos, no verão ultrapassam os cem mil. As praias são pequenas, o aluguer de uma cama ou de guarda‑sol pode custar cem euros e nem sempre parece haver areal para tantos corpos. «Podem estender a toalha nos espaços entre as espreguiçadeiras, que é grátis», diz‑nos a guia, Azzurra, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Porquê este fascínio, então?

Sai‑se do barco e percebe‑se logo porquê. As casas caiadas de branco (no máximo com dois andares), as portas e janelas azuis, os moinhos de vento, as cerca de mil igrejas, as ruas e vielas carregadas de buganvílias e, ao fundo, omnipresente, aquele mar cor de Grécia. É postal, mas não é Photoshop, bate tudo certo, nem sequer é preciso puxar pelas cores. Tudo aparentemente simples, básico, mas que é na verdade o culminar de muitos estilos, muitas heranças, numa ilha que foi ocupada por jónios, fenícios, macedónios, atenienses, romanos e alemães. Mas foi só no início da década de 1960 que começou a andar nas bocas do mundo, depois da visita de Jacqueline Kennedy Onassis. Com ela veio o jet set, as revistas, a fama, as festas, os hotéis de charme, daqueles que meio mundo imita. Os originais estão aqui.

Se em Atenas parecemos estar num livro de história da arte, aqui parecemos estar nas páginas de uma boa revista de decoração.

A ilha tem cerca de 12 mil habitantes e a grande fatia vive na cidade principal, Chora. Quanto ao número de turistas que a visitam, chega aos 50 mil por ano. A invasão começou durante a década de 1950.

Mas nem tudo é perfeito, como já se percebeu: os turistas, sempre eles. A discussão mil vezes repetida, aqui como em Portugal: serão uma praga ou salvação? Azzurra, napolitana, na ilha há 13 anos – ela que passa metade do ano a viajar pelo mundo à procura do sol e volta durante a primavera – não se coíbe de fazer algumas críticas, o que só lhe engrandece a função. «Onde há quatro anos uma refeição custava 80 euros agora custa 150, além disso, muitas daquelas tavernas típicas, simples, gregas, onde se comia com os pés na areia, têm vindo a desaparecer.» Depois do lamento, a declaração de amor: «Já visitei dezenas de ilhas gregas, tive oportunidade e ir viver e trabalhar para outros sítios, mas não consigo trocá‑la por nenhuma outra. Não se é deste vento, mas tem uma energia diferente, mais positiva, mais livre. Não é por acaso que é também um destino muito procurado pelos gays. Ninguém chateia ninguém. E os gregos são muito conservadores», conclui, antes de nos deixar em Pequena Veneza, junto ao porto, um conjunto de casas construídas no século XVI, debruçadas sobre o mar. A partir do final da tarde, os bares como que se fundem transformando‑se numa espécie de discoteca gigante, ao ar livre.

O que acontece em Mykonos fica em Mykonos lê‑se em algumas T‑shirts. Mais do que com Las Vegas, a ilha gosta de se comparar a Ibiza. Não será por acaso que este é o único destino em que o navio fica atracado durante a noite. No mínimo, acaba tudo a dançar a música do filme Zorba, o Grego.

Delfos – A poética

Fica apenas a dois quilómetros de Mykonos, pouco mais de quinze minutos de barco. Outra ilha, outro mundo, a sensação de que este país tem tanto de realidade como de ficção. Voltamos às palavras de Henry Miller, que logo no início do livro confessa que os relatos de Lawrence Durrell, amigo e escritor que o convenceu a viajar para o país, lhe pareciam algo exagerados. «As cartas que me escrevia também eram maravilhosas, ainda que um pouco irreais. O Durrell é poeta, e as cartas dele poéticas eram: faziam‑me uma certa confusão, pois nelas o sonho e a realidade, o histórico e o mitológico, misturavam‑se com uma mestria imensa. Mais tarde vim a descobrir por mim mesmo que essa confusão é real e não se deve apenas ao talento poético. Mas na altura pensei que ele estava a embelezar o lugar, que era a sua forma de me convencer a aceitar os convites reiterados para lhe fazer uma visita.»

Esta é a terra do Oráculo de Delfos, um dos mais famosos da Grécia Antiga. Diz a história que nem Alexandre, o Grande, terá resistido a perguntar pelo seu futuro.

A ilha de Delfos é um desses lugares. Não tem aeroporto – como poderia, com 3,5 km2? – nem hotéis, nem casas, apenas meia dúzia de arqueólogos residentes. É património distinguido pela UNESCO. Os primeiros habitantes datam de 2500 a.C, foi santuário de adoração a Apolo e um importante porto do Mediterrâneo, que juntava comerciantes, banqueiros e gente de todo o mundo, tendo‑se tornado por isso uma cidade próspera, luxuosa, repleta de casas com frescos, mosaicos, anfiteatros e esculturas. Acabaria por ser quase destruída por piratas em 69 a.C, mas ainda se pode ver muito desse património, incluindo uma série de leões que guardavam o lago onde nasceu Apolo. Sim, porque Apolo (deus do sol, da beleza, das artes) e a sua irmã gémea Artemisa (deusa da lua, dos animais, bosques e das mulheres grávidas) terão nascido aqui.

Creta – A grande

Se dúvidas há quanto ao número de ilhas gregas – cada guia com que nos cruzamos tem os seus próprios números oficiais, ainda que o turismo do país remeta para seis mil, pouco mais de duzentas delas habitadas –, Creta é, sem dúvida, a maior de todas. Cerca de 253 quilómetros de extensão e 61 quilómetros de largura e mais de 620 mil habitantes. Fruto da dimensão, tem tudo aquilo que as ilhas mais pequenas não têm, de hospitais a universidades próprias, passando pela água potável, sentindo‑se menos o custo da insularidade. A localização geográfica (a 100 quilómetros da costa europeia, 175 da Turquia e pouco mais de 300 de África), também ajuda. É um importante ponto estratégico. Olha‑se para a baía de Suda e veem‑se vários navios de guerra, resultado de uma base naval partilhada por marinha grega, NATO e EUA.

Ao contrário de Mykonos, a beleza não bate desde logo à janela do navio, é preciso tempo. «Para conhecer bem esta ilha há que passar aqui pelo menos oito dias», diz Irene, a nossa simpática guia, grega. Ela que, mais uma vez contra o livro de estilo de muitos guias, não tem problemas em deixar escapar que os seus sítios preferidos se encontram mais no interior e no sul da ilha, «onde ficam as praias mais paradisíacas, quase só frequentadas por gregos e com tavernas tradicionais».

Esta é a quinta maior ilha do Mediterrâneo. Foi aqui que surgiu a civilização Minoica, a mais antiga de que há registo na Europa (século III a.C).

Não temos oito dias, apenas oito horas e estamos na parte norte – as cidades maiores e onde param os ferries ficam todas aqui, Héraclion, Chania e Rethymno –, por momentos desejamos ter atracado mais a sul e ter tempo para alugar um carro e fazer uma road trip, mas se aquilo que nos relatam é melhor do que aquilo que se vê, aquilo que se vê está longe de ser uma desilusão. Por mais estranho que possa parecer vê‑se neve, lá no topo. É que esta ilha não tem apenas mais de 500 praias, mas também muitas montanhas, entre elas a mais alta do país (monte Ida) com 2454 metros de altitude. Terá sido numa das suas encostas que nasceu Zeus, o deus dos deuses. Há quem venha de propósito para fazer caminhadas, sobretudo no desfiladeiro de Samarai, com 18 quilómetros de comprimento, um dos maiores da Europa. Muita natureza, «inúmeras plantas», continua a Irene, «tantas espécies como na Suíça, 170 delas endémicas», não deixando escapar um certo orgulho na comparação.

Depois de vários quilómetros de autocarro para visitar o mosteiro de Arkadi – desempenhou papel importante na resistência dos cretenses aos otomanos – fechamos as horas que nos restam com um passeio por Rethymno, seguido de um almoço. Bastava termos ficado por aqui, para bem‑dizer Creta. Um viajante pode ser conquistado de várias formas, mas o estômago continua a ser uma das mais eficazes, neste caso o restaurante Prima Plora, debruçado sobre as rochas. Cozinha orgânica, mediterrânica, grega, feita com o que a terra e o mar dão. «Trouxe‑vos a um dos melhores sítios da ilha», diz Irene. Pelos vistos não ficam todos no Sul.

 

Rodes – A mítica

Já sabe que Atenas é história, que há ilhas gregas umbilicalmente ligadas à mitologia (quase todas), mas, no final, parece que as águas azul-turquesa, a natureza e o hedonismo se superiorizam ao peso do património. Rodes é diferente. Não é que não tenha praias paradisíacas, que as tem – além disso é considerada uma das ilhas do Mediterrâneo com melhor tempo durante todo o ano, não fosse a sua origem fruto da paixão entre Hélio, um titã que era representação divina do sol, e a ninfa Rodo, filha de Poseidon e Halia – a verdade é que há aqui uma força que nos apanha desprevenidos. Como se a maior parte das ilhas fossem mulheres, delicadas, sensíveis, e esta mais masculina, guerreira, bruta. Mais do que na acrópole de Lindos, na costa leste, um dos pontos mais visitados na ilha, sente‑se isso na capital, Rodes, que tem um dos conjuntos medievais mais importantes da Europa.

Pouco mais de 115 mil pessoas vivem em Rodes. O turismo é a principal atividade da população.

Parecemos estar num filme de época. Há muralhas e paredes de pedra à volta de quase toda a cidade, veem‑se cúpulas, mesquitas, torreões, um castelo, vielas labirínticas, contam‑se histórias de cavaleiros – os cavaleiros de São João, mais tarde transformada em Ordem de Malta, tiveram aqui o seu quartel general – sente‑se e vê‑se por todo o lado a sua herança romana, otomana, bizantina, a lista de feitos e de histórias é quase interminável. Devíamos ter trazido o livro de apontamentos em vez dos calções de banho, vestir a pele de jornalista aplicado em vez de turista, para absorver tudo. Para compensar compramos Reflections on a Marine Venus, obra que Lawrence Durrell, amigo e companheiro de estrada de Miller, escreveu sobre a ilha. Ele que é também o autor de As Ilhas Gregas, recentemente editado em Portugal.

O Colosso de Rodes tornou-a famosa, é uma das sete maravilhas do mundo antigo. A Unesco declarou a cidade património histórico da humanidade.

Entre o património da ilha falta, claro, referir o Colosso de Rodes. Uma estátua gigante de Hélios, considerada uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, lado a lado com os Jardins Suspensos da Babilónia, o Farol de Alexandria ou as Pirâmides de Gizé. A entrada no porto fazia‑se entre as pernas da estátua que, nas mãos, segurava uma tocha para alumiar os barcos. Mito, realidade? Terá sido destruída num terramoto em 226 a.C. Certo, certo é que o autor da Estátua da Liberdade veio aqui buscar inspiração.

 

Patmos – A pacata

Em trabalho ou em lazer todas as viagens têm aquele momento. Aquele dia. Neste caso, aquela ilha: Patmos. «Amanhã não se esqueçam dos calções de banho e da toalha», insistia a representante da Pullmantur. Como é que poderíamos estar a fazer um cruzeiro nas ilhas gregas e não estar sempre prontos para um mergulho!? Poucos minutos depois temos um guia à espera, como sempre – neste caso, Antonis Dismas, jornalista de viagens como nós – mas, ao contrário do habitual, não vamos de autocarro. A ligação é curta e tem como destino um barco mais pequeno, entre a traineira e o iate. Foi recuperado por Dionísio, o grego típico, barba rija, feições vincadas, rudes, sorriso franco – poderia ser Zorba, ou Anthony Quinn – um antigo pescador que será nosso capitão durante as próximas horas. Não há qualquer glamour nem brindes com de champanhe.

Diz a lenda que terá sido nesta ilha que o Apóstolo João teve as visões que levaram à elaboração do novo testamento. É ver para crer.

Patmos fica para trás, mas lá ao fundo vê‑se uma ilha: Arkoi. Tem cerca de 50 habitantes e algumas praias desertas, diz Dismas. «Além disso não há autoridade. É o paraíso.» Mas não é para o paraíso que vamos. Seguimos para outra ilha, ainda mais pequena. Enquanto navegamos, aproveita para mostrar o guia que escreveu sobre Patmos e falar um pouco da ilha. A ilha do Apocalipse, onde, numa caverna, o apóstolo São João terá recebido as visões que deram origem ao Novo Testamento. Tal como a sua colega Azzurra, de Mykonos, reclama‑lhe uma energia especial, enigmática. Se bem que aqui o turismo não pareça ser um problema. «Há alguns navios de cruzeiro, mas não mudou muito, o ambiente continua tranquilo, como numa aldeia.»

Está na hora de atracar, finalmente, ao largo de Marathi, uma ilha minúscula, com 36 hectares. Tem apenas meia dúzia de casas, meia dúzia de pessoas e um pequeno hotel com restaurante, Pantalis Resort. Foi construído em 1978 quando a família veio aqui dar um passeio de barco e resolveu ficar. Nas paredes têm algumas imagens antigas em que se vê a família a carregar baldes de água, lenha e a construir o cais e a casa. «Não havia ninguém. Um paraíso só para nós», diz a filha de Pantalis, o patriarca.

Dionísio lança a âncora mais à frente e diz‑nos que podemos mergulhar, enquanto prepara salada de atum e cebola, com muito azeite e pepino. «O mais incrível na Grécia é que acabarás sempre por encontrar a tua ilha gémea», diz Dismas, já no regresso, antes de se deitar ao sol a fazer a sesta na proa. Um almoço e um passeio por Chora, a capital – e também ela Património da Humanidade pela UNESCO, juntamente com a caverna e o Mosteiro de São João – confirmariam toda esta pacatez e aura especial. Não só não nos cruzamos com nenhum turista, como não nos cruzamos com ninguém.

 

Santorini – A ativa

Para o final da viagem, mais uma pérola grega: Santorini. Metade dos postais que vemos das ilhas gregas são tirados em Mykonos, a outra metade aqui. É igualmente pequena, ainda mais do que Mykonos (73 km2), mas de origem vulcânica, o que lhe dá o encanto extra e ângulo que tanto fascina os fotógrafos. É ver a quantidade de telemóveis e máquinas a tentar enquadrar o casario branco, no topo, com o mar, os barcos e as outras pequenas ilhas, lá em baixo. Entre elas Nea Kameni. Santorini é, na verdade, um miniarquipélogo composto por cinco ilhas à volta do vulcão, estando a minúscula ilha de Nea Kameni no centro da caldeira. Vai‑se de barco, como sempre, sobe‑se até ao topo, pouco mais de cem metros, onde se avistam as cidades de Fira e Oia, as mais pitorescas, encavalitadas no topo da falésia. O solo é árido, vê‑se o fumo, está vivo. Ativo. O único vulcão ativo no mundo cuja cratera é no mar. Os relatos são de tragédia, uma das maiores erupções da história. No melhor e no pior, na Grécia não parece haver nada que não faça parte da história. Mas se na altura foi uma tragédia que destruiu por completo a vida em mais de metade do arquipélago, acabou por dar a forma, a cor, o relevo que tem hoje e que a transformaram na ilha mais visitada do país e uma das 15 mais visitadas do mundo.

As palavras podem ser as mesmas utilizadas em Mykonos, se bem que o enquadramento seja ainda mais imponente e desconcertante. É postal, mas não é Photoshop, bate tudo certo, nem sequer é preciso puxar pelas cores. Ainda assim, Mike pede para o fotógrafo dar uns retoques. «Não se esqueça de mexer nisso que com esta cara não vou longe», sorri. Anda de mão dada com a mulher, Sarah, de postal em postal, de pose em pose, brinde em brinde – Santorini tem alguns dos melhores vinhos brancos do país – sempre com um fotógrafo atrás. São várias as empresas que fazem sessões de fotografia pela ilha. Rimos da situação e eles também, de si próprios. «Nós sabemos que é um bocado piroso, mas conhecemo‑nos aqui, queremos dar um presente aos nossos filhos», conta Sarah. São britânicos, na casa dos 60 anos. «Fizemos um cruzeiro, cada um com as suas famílias, e apaixonámo‑nos, já lá vão dez anos. Agora voltamos para comemorar. » O romantismo, tal como o turismo, nunca serão consensuais. A beleza e o amor pelas ilhas gregas sim.


Guia Ilhas Gregas

Documentos: passaporte
Moeda: euro
Fuso horário: UTC + 2h
Idioma: espanhol (no barco) e grego (no país)

Ir
Os voos para Atenas não estão incluídos no preço final do cruzeiro. Sendo a Pullmantur uma companhia espanhola o ideal será viajar para Madrid, podendo assim fazer o check in diretamente com o grupo e a ajuda do pessoal da companhia. Há várias ligações diárias do Porto e Lisboa para a capital espanhola. Desde aí até Atenas a Iberia é uma boa opção. No site prometem 114 euros por trajeto, desde que marcado com antecedência.

O Navio
É sempre uma espécie de ilha rodeado de água por todos os lados. Muito mais um cruzeiro. Uma ilha fictícia, dizem alguns. Pode ser muito bom, para qualquer idade, desde que encarado com o espírito certo. «Quando a minha namorada me falou eu não queria vir, mas pensando bem que outra forma tinha de descobrir estas ilhas todas numa semana, mais ainda a estes preços?», confessa Alfonso, galego. «Ainda bem que cedi.» Têm os dois cerca de 30 anos. E estão de ressaca, graças à bebida num cruzeiro com tudo incluído. Não, nem todos os passageiros vão para a cama às nove da noite. O ambiente é descontraído, calmo e há várias possibilidade de diversão, desde a discoteca até noites de música ao vivo. O facto de não ser propriamente um navio gigante – leva cerca de 1500 passageiros, há «monstros» com capacidade para mais de cinco mil pessoas – faz que haja um espírito familiar. Tem piscina ao ar livre, ginásio, spa, casino, possibilidade de internet a bordo e comida de qualidade – está na hora de rever o preconceito de que é tudo comida pré‑feita, a despachar – quer no buffet quer à la carte. Sendo a Pullmantur uma companhia espanhola, a língua oficial é o castelhano, mas há muita gente da tripulação a falar português e inglês.

Dormir
Esta é daquelas raras viagens é que não é preciso preocupar‑se com o alojamento. Dorme‑se a bordo, claro está, em cabinas confortáveis e espaçosas quanto baste. O Horizon tem tudo o que é preciso. Comida e bebida estão incluídas no preço, bem como espetáculos de teatro ou de música ao vivo. As excursões são pagas à parte e podem ser reservadas in loco ou antecipadamente. Preços para setembro desde 1049 euros por pessoa.

Comer
Quem vai fazer um cruzeiro nas ilhas gregas não quer perder a oportunidade de experimentar a gastronomia local, uma das mais afamadas do mundo. É difícil não gostar. A salada grega é omnipresente e a primeira coisa a vir para a mesa – queijo feta, tomate, alcaparras, azeitonas, pepino, pimentão, cebola roxa, orégãos e muito azeite. Uma cozinha orgânica, natural, que aqui e ali sabe a Turquia, outra vezes a Itália. Ao Mediterrâneo. E de mesa sempre farta. A moussaka é dos pratos mais procurados pelos turistas, apesar de os gregos o considerarem algo pesado. Leva beringela, carne de borrego moída,
tomate, azeite e mais uma série de temperos. Para terminar: uzo, a bebida tradicional grega, uma espécie de aguardente feita com anis.

Mala de viagem
Vale sempre a pena ver ou rever Zorba, o Grego, filme de 1964 protagonizado por Anthony Quinn e rodado em Creta. A música do filme, Sirtaki, tornou‑se numa dança (popular) oficial do país. E de qualquer festa grega. Além da Volta ao Mundo, vale sempre a pena levar na mala de bagagem O Colosso de Maroussi, de Henry Miller (editado em Portugal pela Tinta da China) e As Ilhas Gregas, de Lawrence Durrell – editado entre nós pela Relógio d’Água.


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