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Lea Rieck deixou Munique há dezasseis meses para explorar o mundo de moto. Viajante assumida desde adolescente, sentiu que era a altura certa para dar o passo seguinte e deixar o trabalho que a prendia à rotina. Hoje está prestes a terminar a volta ao mundo e tem mais de 40 mil seguidores no Instagram. A VM esteve à conversa com ela na sua passagem por Lisboa.

Lea Rieck tem 31 anos, mas a vontade de viajar sozinha surgiu cedo: «Sempre achei muito enriquecedor. É um dos melhores presentes que podes dar a ti mesmo. É muito educativo, aprende-se muito», explica. Mas as viagens que fazia eram curtas e sem grandes riscos a correr. Foi quando tirou a carta de moto há dois anos – meses antes de iniciar a aventura da sua vida – que percebeu que queria viajar durante mais tempo, sem data de regresso. E de moto.

Em Munique, cidade onde vivia, trabalhava como jornalista e produzia conteúdos online para grandes empresas. A certa altura, sentiu que tinha de dar um passo à frente na sua vida, e que aquele era o momento certo para ir. «Se não o tivesse feito, provavelmente teria aceitado outro trabalho. Poderia até ter mudado alguma coisa, mas depois estaria nesse novo trabalho durante mais dois ou três anos. E foi então em que percebi que tinha mesmo de fazer esta viagem ou seria tarde de mais», contou à Volta ao Mundo.

No início, os «e se…» eram algo muito presente na cabeça desta aventureira – fazer uma viagem destas implicava preocupações, como a possibilidade de adoecer ou ficar sem dinheiro a meio. «A certa altura, percebi que todos estes receios não eram coisas más. Por isso, mesmo se ficasse doente, haveria sempre um avião para voltar para casa. E se ficasse sem dinheiro, teria os meus amigos e a minha família, e todos eles estariam dispostos a ajudar-me a comprar um bilhete de regresso. Por isso, decidi que queria mesmo fazer esta viagem. A pior das hipóteses seria ficar falida. E se isso acontecesse, poderia voltar para casa e procurar outro trabalho. Os «e se…» acabam por desaparecer», afirma.

«A moto é o melhor veículo para se viajar porque consegues perceber o que está a acontecer à tua volta. Se está frio, tens frio; se está calor, estás a transpirar. E as pessoas estão muito mais dispostas a abordar-te, porque estás mais perto delas do que estarias se estivesses num carro.»

As motos não eram o seu transporte de eleição, mas sempre estiveram presentes na família. O pai de Lea foi motard, tendo viajado duas vezes pela Austrália numa Honda 450. Já a mãe não gostava da ideia de ver a filha a passear de motociclo. «Quando tirei a carta há dois anos, percebi que queria mesmo fazer esta viagem e só queria fazê-la de moto. Fi-la com a minha companheira Cleo (uma Triumph Tiger 800 XCA), e foi a melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos», conta.

Apesar de ter poupado bastante para conseguir financiar a viagem, Lea trabalha como jornalista a partir da estrada. Esses rendimentos servem-lhe para adquirir experiências diferentes, como aprender a fazer kitesurf ou andar a cavalo. Além de todo o dinheiro que conseguiu juntar, Lea tem a Triump Alemanha e a Touratech como parceiros de viagem. «Ofereceram-me algum material: a Triumph deu-me a moto e a Touratech deu-me equipamentos, como o capacete e o meu fato, que adoro. Estou muito contente por tê-los como parceiros, porque gosto muito do equipamento deles e encorajaram-me sempre desde o início. Tanto a Triumph como a Touratech acreditaram em mim e no meu projeto, e acharam que realmente conseguiria fazê-lo sozinha, sem mais ninguém. Penso que, hoje em dia, é importante apoiar as mulheres para que tornem os seus sonhos realidade», afirma.

Quando questionada sobre as possíveis dificuldades e medos que enfrentou durante a viagem por ser mulher, Lea explicou que a solução é ser forte e arranjar uma forma de fazer as coisas à maneira de cada um. «Penso que viajar sozinha sendo mulher não é mais perigoso ou mais difícil do que sendo homem. Aliás, para mim, foi o oposto. Se as pessoas perceberem que viajas sozinha e que és mulher, são muito mais prestáveis e tentam proteger-te. Acho que estou em vantagem por ser mulher», diz.

«Há sempre uma viagem extra, por isso não estou muito triste por regressar a casa agora. Já estou ansiosa por tudo aquilo que vou fazer no futuro».

Quando chegar a Munique, Lea pretende escrever um livro sobre a experiência de dar a volta ao mundo de moto sendo mulher. Depois espera criar a sua empresa e ajudar outras empresas no que toca à responsabilidade social de cada uma.

A aventureira deixa um conselho aos leitores da Volta ao Mundo que ainda têm medo de viajar sozinhos: «Acho que todas as pessoas deveriam – se têm o desejo de o fazer – ir para fora e explorar o mundo, porque é muito recompensador. E vão aperceber-se que as pessoas são simpáticas e muito genuínas».

Texto de Mafalda Magrini – Fotografias de Lea Rieck

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