Eleita pelos nazis como cenário da sua propaganda, foi destruída, renasceu das cinzas, recuperou a beleza e tornou-se um símbolo dos direitos humanos. Hoje continua a renovar-se mas mantém bem vivas as tradições – e algumas são deliciosas.

Texto de Teresa Frederico

Há muita gente sentada no chão da Tiergärtnertorplatz como se estivesse no mais confortável dos sofás. São turistas mas também moradores, a maioria a beber uma cerveja local, e não é raro que se ponham à conversa. Na verdade, este é um bom sítio para saber mais sobre Nuremberga, os lugares imperdíveis ou onde se comem as melhores iguarias típicas: orgulhosos da sua cidade e das tradições, não faltam residentes disponíveis para dar uma ajuda.

Acima fica o castelo, uma das mais importantes fortalezas da Alemanha. Remonta ao século XI, foi residência temporária de imperadores até ao século XVI e a visita constitui uma interessante viagem a essa época remota.

Vestígios de tempos bem mais recentes, que marcaram a história da humanidade, ficam por debaixo dos pés, a vários metros de profundidade: os bunkers (informações em felsengaenge-nuernberg.de) onde foram escondidas obras de arte antes do início da II Guerra Mundial e que serviram de refúgio a milhares de famílias durante o conflito, quando noventa por cento de Nuremberga foi arrasada.

Esse passado negro não é esquecido, quer pela população local, que fala abertamente sobre o tema, quer pelos turistas, como prova o facto de o Centro de Documentação Nazi, com uma mostra permanente designada Fascínio e Terror, ser o terceiro museu mais visitado da cidade. São igualmente recordados os julgamentos de Nuremberga que sentaram no banco dos réus da sala 600 do Palácio da Justiça uma vintena de criminosos de guerra. Funciona como memorial e é possível espreitá-lo quando não decorrem audiências (em 2018 deverá ficar permanentemente acessível).

Fora do centro histórico, definido por cinco quilómetros de muralhas, há mais para descobrir, concretamente em Gostenhof, conhecido por GoHo, numa alusão ao Soho. Lojas, galerias, restaurantes e bares, num total que ronda a meia centena de moradas, trouxeram nova vida a uma área de má fama, na qual residiam os emigrantes (portugueses incluídos) que em tempos vinham trabalhar na indústria.

Lá perto, também a vasta área antes ocupada pela fábrica da AEG renasceu na última década e hoje possui atrativos que justificam a visita. Paralelamente, a cidade tem apostado num desenvolvimento amigo do ambiente e das pessoas, por exemplo, estimulando o comércio justo e os produtos orgânicos, disponíveis em muitos restaurantes e até no famosíssimo Mercado de Natal – um bom motivo para viajar até Nuremberga mas que está longe, muito longe, de ser o único.

O Caminho dos Direitos Humanos (1) exibe artigos da respetiva Declaração gravados em 27 pilares. É um dos muitos lugares a visitar nesta cidade apostada no futuro mas que faz questão de não esquecer o passado.

Dormir num castelo medieval
Não é todos os dias que se tem oportunidade de pernoitar numa fortificação secular. O Youth Hostel Nuremberg (2) (ou Pousada de Juventude) ocupa os antigos estábulos, com cerca de 500 anos e muito bem restaurados. Conta com 93 quartos (duplos com pequeno-almoço desde 89 euros) e, apesar do nome, recebe hóspedes de todas as idades, famílias inclusive. Possui ainda bar e um restaurante buffet com cozinha aberta, pelo que é possível assistir à confeção dos pratos. É necessário Cartão de Alberguista, que pode ser obtido nas Pousadas portuguesas por 2,5 euros; ou pagar no local 3,5 euros por noite por um International Guest Card.
jugendherberge.de

Água na boca
Salsichas há muitas, mas estas obedecem a uma receita com mais de 700 anos e têm tamanho e peso estabelecidos: oito centímetros e 20 a 25 gramas de carne. Melhor ainda, são deliciosas, no pão ou no prato, acompanhadas de salada de batata ou chucrute. Central e premiado, o histórico Bratwurstküche (3) Zum Gulden Stern é um dos restaurantes onde as provar (desde dez euros). Outro é o acolhedor Hexenhäusle (desde oito euros), nas traseiras do castelo e com um agradável Biergärten – esplanada onde beber uma boa cerveja, por exemplo a tradicional Rotbier, avermelhada e saborosa. O vinho local também tem muitos apreciadores (consta que Goethe era fã).
bratwurstkueche.de
hexenhaeusle-nuernberg.de

Concertos solidários
No GoHo (4), o MuzClub parece uma sala de concertos comum, mas, na verdade, é apenas o lado mais visível da Musik Zentrale, organização que reúne músicos e promove também projetos sociais: possui um estúdio de gravação e aluga equipamento a baixo custo, dando oportunidade a jovens, migrantes inclusive, de editar o primeiro disco ou tocar ao vivo. As noites de quarta-feira e os fins de semana são muito animados, a programação inclui atuações de bandas internacionais e DJ e sempre que se bebe um copo contribui-se para a causa.
musikzentrale.com

De fábrica a espaço cultural
A produção da AEG acabou há dez anos, deixando vazia uma imensa área que hoje reúne algumas empresas, um polo universitário, espaços comerciais e restaurantes. Acolhe ainda vários eventos, de mercados de vinhos e petiscos a feiras de arte a preços acessíveis, além de workshops e até aulas de dança, promovidas por uma marca de sapatos especiais para rodopiar pelos salões. Vale a pena saber o que por lá se passa quando da visita à cidade e aproveitar a deslocação para ir à torrefação e loja Rösttrommel beber um ótimo café – que até pode ser artisticamente decorado pois os baristas são formados por Christian Ullrich, campeão mundial de latte art.
aufaeg.de
roesttrommel.de

Museus para todos os gostos
Obrigatório pela vista e pelo aprazível jardim, o Castelo Imperial (5) possui também um interessante museu que revela a sua história. Faz parte do Germanisches Nationalmuseum, outro lugar a descobrir quer pelas exposições permanentes quer pelas temporárias, como é o caso de Lutero, Colombo e as Consequências, que assinala os 500 anos da Reforma Protestante (termina em novembro). Igualmente incontornável é a Fembo Haus, casa edificada em finais do século XVI que sobreviveu à Segunda
Guerra Mundial e acolhe o museu da cidade. E há muitos outros espaços museológicos a conhecer, nomeadamente a residência do pintor Albrecht Dürer (6) e os museus dos Brinquedos (7), o Ferroviário e o Neues, com peças de arte e design desde a década de 1950.
gnm.de
museums.nuernberg.de
nmn.de

Sempre em festa
A animação de Nuremberga faz inveja a muitas cidades: ao longo do ano realizam-se festivais de rock, de cerveja, de música sacra ou de clássica, por exemplo, além dos que celebram a cultura tradicional, como o Altstadtfest (8) (em setembro). Este último acontece em pleno centro histórico, que também serve de cenário à Trempelmarkt, uma espécie de Feira da Ladra organizada em maio e setembro. A Noite Azul (em maio) atrai multidões com espetáculos de luz e performances em espaços culturais, enquanto a Noite Longa das Ciências (em outubro) permite adquirir conhecimentos até à uma da manhã, no maior evento do género na Alemanha.
altstadtfest-nbg.de
nacht-der-wissenschaften.de

Uma praça especial
Quase todos os caminhos vão dar à Hauptmarkt (9), que acolhe o mercado de frutas, legumes e flores. É dominada pela igreja gótica Frauenkirche (ou de Nossa Senhora), dividindo as atenções com a fonte Schöner Brunnen, de 19 metros, decorada com uma quarentena de figuras e com dois anéis metálicos de efeitos mágicos: diz-se que dão sorte a quem lhes tocar e até que ajudam as mulheres a engravidar. É nesta praça que decorre o Mercado de Natal (christkindlesmarkt.de), que atrai inúmeros turistas, e residentes, que aqui se reúnem para beber vinho quente e dar dois dedos de conversa.

Como ir
A Ryanair (ryanair.com) voa desde o Porto. Já a Lufthansa (lufthansa.com) tem ligações de Lisboa e do Porto com escala em Frankfurt ou Munique

Mais informações
tourismus.nuernberg.de

Agradecimentos
A Volta ao Mundo viajou a convite da Germany Travel.


Veja também:
Guia da Alemanha: tudo sobre um país surpreendente
Nuremberga: a cidade alemã que se soube reinventar

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.