Uma escapadela em França, a percorrer com calma uma paisagem talhada pelos rios, humanizada pelos vinhos e pelos campos de mostarda. Ou como quatro ou cinco dias de um fim de semana prolongado na Borgonha podem fazer tão bem à alma e ao palato.

Texto de Catarina Carvalho
Fotografias de Gerardo Santos / Global Imagens

Não é verdade que umas férias de sonho tenham sempre de ser longe. Ou que tudo o que se aproxima desse modelo perfeito tenha de ter praia incluída. Um bom vinho, comida de acordar o palato e paisagem fotogénica podem cumprir o mesmo papel, lavar a cabeça. E basta um fim de semana prolongado.

O outono e a primavera são boas alturas para partir de carro por aí ‑ não está tanto calor que faça apetecer praia a um europeu do Sul nem muito frio que o afaste. A Europa é lugar ideal para uma road trip. Chega‑se rapidamente ao destino ‑ que é só o ponto de partida. Depois é escolher um ponto de chegada que seja exequível e traçar o trajeto. Ora, Lyon fica a uma hora e meia de Lisboa… e se fossemos de Lyon a Paris de carro? Assim pode começar uma boa viagem, uma viagem memorável, até. Com paisagens cuidadas, história e cultura, comida e vinhos dos melhores do mundo, tudo em tom calmo e sem as loucuras do turismo da moda. Única regra para não chegar com uma sensação de frustração numa road trip: tomar decisões implica saber sempre que há outra estrada que pode ser mais bonita, há outro caminho que se calhar tinha paisagens tão boas. Este é, talvez, o único ponto em que os meios digitais têm muitas limitações na ajuda: a escolha será sempre confirmada pelos nossos olhos. Podemos ler imensas coisas e apesar disso aquilo que preferimos, de facto, não vem nos guias. Em frente é o caminho.

Primeira paragem Lyon

A cidade mais gastronómica de França assegura ter mais de 2000 restaurantes, 20 com estrelas Michelin – e esta tradição não é alheia à industrialização precoce da cidade, também aqui começou a Revolução Industrial, com as enormes tecelagens de seda que já tinham antecessores artesanais. Lyon está pronta para as fotos, entre as duas colinas, Fourviére e Croix Rousse – a flamante e aristocrática, e a trabalhadora, a dos palácios e igrejas, e a dos grandes teares industriais. A confluência dos dois rios, o Saône, e o Ródano, ajudam à paisagem urbana, formando ilhas atravessadas por 24 pontes que tornam as fotografias fáceis.

Carro alugado no aeroporto, o caminho até Lyon faz‑se por autoestradas bem assinaladas. Numa pequena praça, a Francisque Regaud, o hotel Silky prova que não é preciso gastar muito – decoração cool, vista para as cerejeiras. A seda, bobinas dela espalhadas pela decoração, é o tema. E quando as portadas do quarto se abrem para a esquadria de prédios burgueses dos finais do século XIX, sabemos que estamos em França, numa França civilizada, e que vamos ser felizes aqui.

A cidade é muito fotogénica, com duas colinas e entre dois rios, o Saône e o Ródano.

Felizes como à mesa de um bouchon qualquer, assim se chamam os restaurantes populares, entre a tasca e o gourmet, com gastronomia local e produtos frescos. Aqui, em Lyon, oficia o mítico Paul Bocuse – mas quem quiser não ser demasiado snob pode escolher qualquer restaurante da lista da associação dos Les Bouchons Lyonnays – cujo chef, Joseph Viola tem o mais famoso da cidade, o Daniel et Denise.

Até porque aqui nem sequer é preciso propriamente uma mesa para ser feliz pela comida. O Mercado de Saint‑Antoine ocupa quase um quilómetro no cais com esse nome, na presqu’île, entre os dois rios – por aqui chegavam os produtos, de barco, do lado do Saône. É uma espécie de Disneylândia de quem gosta de comer. Há legumes de toda a forma e feitio, peixes vários – e bancas de ostras – e carnes. Mas só vendo, a variedade, a qualidade, o bom gosto.

Dica do viajante:
Compre queijos, doces, patês do campo e pão estaladiço como só em França, um vinho, equipe‑se com copos, facas e saca-rolhas e siga para a estrada. Nas margens do Saône, a caminho de Macon, entre nas estradas secundárias em direção ao rio e encontre um lugar com boa vista para um piquenique, por entre as aldeias onde a burguesia campesina trata bem das vistas e as margens suaves fazem o resto.

Segunda paragem Beaune

Chegámos ao vinho, o da Borgonha, dividido em várias regiões, Chablis, Côtes de Nuits, Côtes de Beaune, Côte Chalonnaise et Couchois, Macônnais, Châtillonnais. Beaune, cidade pequena, cuidada, é normalmente ponto de apoio para visitas às caves e vinhedos – e este deve ser um dos poucos nomes do vinho, no mundo, que em lugar nenhum precisa de explicação.

Nenhum português habituado ao caos em que se tornaram algumas cidades do seu interior pode deixar de reparar na organização de Beaune. Casas em vários tons de areia, janelas e portadas pintadas numa paleta de cores condizentes. O negócio do vinho obviamente ajuda – cada torrão de terra vale ouro. Quinhentos metros quadrados, cerca de um milhão de euros. Por isso os bancos aqui não fecham dependências. Abrem‑nas em cada esquina da Place Carnot, coração da cidade, e disputam com as lojas de comida e vinho, que é o artesanato local.

Em Beaune, há que comer e beber – as caves são às dezenas, há algumas estrelas Michelin na área, e uma confeitaria onde se vendem macarons, a Fabien Bertaud, a melhor de França no guia Gault Millau em 2015. Também há que prestar homenagem ao que se come e se bebe, no Museu do Vinho e na Mostardaria Fallot, uma espécie de casa-museu deste grão amarelo que há de marcar a viagem. Dezenas de tipos de mostarda e os sabores seguem a tradição e a inovação – pimenta verde, pimenta preta, alecrim com ácer, manjericão, e, claro, vinho, que é, a par com o sucedâneo vinagre, uma das razões de existir uma coisa chamada mostarda de Dijon (a capital da Borgonha).

Passear por estas ruazinhas calmas, em busca de mais um pormenor numa janela ou numa portada antiga, acaba sempre por levar ao imenso Hotel Dieu, um hospital com mais de 600 anos, cujas telhas vidradas e coloridas se veem de todo o lado e são o símbolo do que fez esta região: uma nobreza tão espalhafatosa como ligada à terra, como assim foi o chanceler Nicolas Rolin que mandou construir este lugar para cuidar dos seus quando Beaune ainda fazia parte do importantíssimo reino da Borgonha.

Dica do viajante:
Ficar no recente Ibis Styles Beaune Centre, uma excelente opção low cost, mesmo à beira do centro com a segurança do conforto de uma grande cadeia.

 

Terceira paragem Dijon

Esta viagem é curta em quilómetros para que se possam explorar algumas estradas secundárias que rodopiam à volta dos vinhedos: a sul de Beaune merece visita Mersault, com vinhas de brancos melosos, cuidadas como o valor que têm. Climats, assim se chamam aqui os vinhedos que levam nomes próprios e podem ter apenas meia centena de metros quadrados de área. A região aqui chama‑se Côte d’Or – quando segue para norte, de Beaune até Dijon – por causa do tom do terreno.

Pernand‑Vergelasses é, além de lugar de prova de Premier Crus, Pinot Noir e Chardonay, também um ponto de observação da cultura vínica: do alto da oratória de Notre‑Dame de Bonne Espérance veem‑se os campos cuidados e os vinhedos separados pela orientação como foram plantados. Mapas em placards mostram a separação das terras. Seguindo pela 974, viramos para a D122, os Campos Elísios do vinho francês. As caves – milionárias – não se preocupam muito em mostrar‑se – há várias fechadas e outras cuja visita se faz apenas por marcação, para enólogos experientes. Muitos dos vinhos que daqui saem já estão vendidos ainda as uvas não saíram da planta.

Mais um piquenique na estrada, com mantimentos comprados na enorme Fromagerie Hess, há quatro gerações na Praça Carnot, em Beaune. As estradas da Borgonha são gastronómicas: entre Beaune e Dijon, além das vinhas há o amarelo da mostarda. Mostarda e vinho têm uma história comum, que começa na Idade Média, depois de as invasões bárbaras terem retirado a zona da rota das especiarias romanas – a mostarda, que já por ali existia, substituiu a pimenta desaparecida. O vinagre ajudou à especialização dessa pasta que vem de um grão duma flor amarela que dá cor aos campos.

Na cidade de Dijon, a célebre Maille, fundada em 1747, vende mais de cem mostardas na rua pedonal da Liberdade que leva ao Palais des États, sede do ducado da Borgonha onde há um pouco – ou mesmo muito – de Portugal. Isabel – da geração de ouro de filhos de D. João I, irmã do infante D. Henrique – foi duquesa da Borgonha por casar com Filipe III, também chamado o Bom. Era mulher inteligente e culta – todos os retratos lhe fazem jus, com a testa altíssima, alguns pintados por grandes pintores flamengos, como Van Eyck. Desenvolveu as artes – pintura reunida no Museu das Belas-Artes, imperdível. Mas ajudou também na política, representando o reino em missões diplomáticas – numa altura em que as mudanças geopolíticas eram constantes, como aliás mostra o próprio ducado feudalizado da Borgonha.

A Praça da Liberdade onde está o Palácio Ducal é também o coração da cidade de Dijon, e daqui pode andar‑se a pé: a Igreja da Notre Dame – onde se esfrega o mocho de pedra, como manda a tradição – a rue des Forges, o Museu Etnográfico da vida borgonhesa, o Jardim Darcy e o mercado. Aqui há história – e das antigas – em cada esquina. Por isso Dijon é uma cidade para ir andando por aí, pelas ruas pavimentadas a grandes lajes que ajudam a dar o tom centro‑europeu à cidade – a par com as casas medievais, de madeiras de estrutura à mostra.

Dica do viajante:
Descarregue a aplicação‑mapa do percurso do Mocho de Dijon e acompanhe a história e as principais atrações da cidade em 22+15 passos assinalados no chão nas ruas. Vale a pena, mas não deixe de se sentar num café. Se lhe apetecer.

 

O caminho até Paris

Todas as estradas francesas são bonitas, e quanto mais secundárias forem, melhor. Esta é uma lapalissada que nos é mostrada todos os anos pela inefável Volta à França e que se confirma sempre que se vai mesmo ao terreno. Por isso, a escolha de por onde se vai, aqui, é mais ou menos aleatória. Para regressar a Paris, vindo de Dijon, por exemplo, pode‑se ir direto pela autoestrada ou fazer uma ligeira entorse à esquerda, no mapa, em direção a Chablis, outro nome mítico, este de brancos de sonho.

Há tempo para parar na pequenina vila de Noyers sur Serein, onde um restaurante referido em todos os guias franceses, o Les Millesimes, anuncia usar produtos da charcutaria Paillot, família de charcuteiros antigos, estabelecidos na pitoresca praça da cidade. Gente culta do campo francês, a campagne, orgulhoso de si mesmo. Não desilude, na sua sala de pedra e tradição.

Na aldeia de Flavigny sur Ozerain, uma das cem mais bonitas de França, um casario medieval, um castelo e, no mosteiro, uma surpresa: a fábrica de pequenos dropes de anis, feitos há centenas de anos pelas monjas deste local que foi, antes delas, hospital das tropas de Julio César no cerco a Alésia – sim, a aldeia gaulesa que serviu de inspiração a Astérix e que fica aqui a dois passos e tem um museu, uma reprodução do cerco e um centro de interpretação histórico a funcionar.

O caminho para Chablis faz‑se por entre os vinhedos do Chardonnay, que aqui se faz seco, metálico, frio, desde o século XII. As caves são mais amigáveis e há provas por todo o lado. Chablis Savary, Brocard, Domaine d’Henri, William Febre, Domaine Roland Laventureux… Mas talvez não seja muito interessante misturar tanto álcool numa road trip.

Dica do viajante:
Para provar vários vinhos ao mesmo tempo e não ir logo para a estrada, no Auberge do Pot d’Etain há lugar para comer, beber e ficar, e uma lista de mais de 2500 referências locais, escolhidas pelo escanção Alain Péchery. É considerada uma das melhores caves de França, fora de Paris.


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