Casaram-se à pressa em 2013 para aceitar uma oferta de emprego no Dubai e, desde então, Rute e Tiago não param muito mais de um ano no mesmo sítio. A meta está definida: querem viver sem amarras e repartir a vida entre os países de quem mais gostam: EUA e Portugal.

Texto de Bárbara Cruz

Rute e Tiago Brito, naturais de Lisboa, começaram a namorar em 2012, mas já se conheciam há muito tempo. Logo no primeiro ano de namoro, foram juntos a Nova Iorque, por puro acaso: iam com um grupo ver um festival de hip hop e, à última hora, todos desmarcaram, deixando‑os sozinhos a aproveitar a primeira viagem como casal. No Natal desse ano, Tiago ofereceu à namorada uma viagem a Paris e aproveitou o romantismo da cidade para a pedir em casamento.

Andavam alegremente a preparar a festa no ano seguinte quando ele, que trabalha na área das tecnologias de informação, recebeu uma oferta de emprego no Dubai. Tinha então 24 anos, ela 26. Rute trabalhava como gestora de marketing e a vida corria‑lhes bem. Mas iam recusar uma aventura internacional para celebrar a boda? Nem por isso. Apressaram os planos, casaram‑se e partiram sem olhar para trás. «O pior que podia acontecer era termos de voltar para Portugal. Nada mau, certo? Tudo era recuperável», conta Rute.

Chegaram ao Dubai em pleno verão, com calor insuportável e na altura do Ramadão. «Estávamos cansadíssimos, quase a desfalecer com o calor e não podíamos comer ou beber em público, por lei.» Com os restaurantes «aparentemente todos fechados», o desespero foi tal que acabaram a comer chamuças, cada um trancado em seu cubículo de uma casa de banho. Mais tarde descobriram que havia muitos restaurantes abertos, «mas éramos novatos, não sabíamos», confessam.

«Queremos o melhor de dois mundos: repartir a nossa vida entre os Estados Unidos e Lisboa.»

A experiência no Dubai foi positiva, garantem. Num mercado de trabalho que é «uma atmosfera de possibilidades», diz Tiago, com empregos qualificados «é muito fácil ter uma qualidade de vida mesmo boa», acrescenta Rute. «Por outro lado, também é fácil cair‑se na ilusão de que a vida real é assim, e viver‑se numa bolha. Essa artificialidade foi o que menos nos agradou», assinalam.

Entretanto, e porque ambos tinham especial apreço pela cultura norte‑americana, decidiram concorrer ao diversity visa dos EUA, uma espécie de lotaria que anualmente sorteia autorizações de residência no país por 50 mil pessoas oriundas de todo o mundo. «Continua a ser a terra das oportunidades, mas conseguir uma via de emigração legal é muito difícil. Então, porque não concorrer a um programa que, apesar de ser quase impossível ganhar, é gratuito? Nunca se sabe», diz Rute.

Tentaram em outubro e tiveram de esperar até maio para saberem os resultados. Num golpe de sorte, ela foi selecionada e, a partir daí, submeteram‑se a um processo de quase um ano que exigiu muitas burocracias e entrevistas na embaixada. Mais uma vez, pensaram: «O que é o pior que pode acontecer?» Despediram‑se do Dubai e a 2 de outubro de 2015 chegaram a Nova Iorque.

As primeiras horas não correram bem, admite Tiago: saíram à uma da manhã da imigração do aeroporto JFK, no meio de um temporal, e seguiram num carro alugado para Queens, onde tinham reservado um hotel para a primeira noite. «Quando lá chegámos, era literalmente uma espelunca.» Recusaram-e a pagar 140 dólares para «não dormir» e começaram a conduzir à deriva. Até que apanharam um sinal wifi aberto e encontraram uma promoção de última hora num hotel de 4 estrelas em Times Square. «Estávamos a odiar Nova Iorque. Até que finalmente caímos na cama confortável, mandamos vir piza, abrimos as cortinas e damos de caras com aquela cidade fantástica, vista de cima. Afinal estava tudo bem.

«Fomos perceber se a vida de nómada digital era para nós. Foram 16 voos em 75 dias.»

Iam ao teatro na Broadway todos os meses, passeavam de bicicleta no Central Park, foram aos museus e galerias de arte. Constataram a «dicotomia de Nova Iorque», conta Rute: «Há dias em que parece que, por estarmos ali, vamos conquistar o mundo. Há outros em que o sentimento é esmagador, que somos insignificantes no meio de tanta gente.»

Até que começaram a ler sobre nómadas digitais e Tiago falava constantemente em tirar um ano sabático para viajar pelo mundo. «Um dia ao jantar voltámos a falar sobre o tema e apercebemo‑nos de que o tempo oportuno não era dali a um ano nem dali a dois. Era já.» Mais uma vez, venderam tudo e em cerca de um mês estavam dentro de um avião. A 24 de abril de 2017 partiram para Phuket, na Tailândia, sem rumo certo nem trajeto definindo. «Fomos perceber se a vida de nómada digital era para nós.»

A ideia era passarem três meses na Tailândia, alugar uma casa em Chiang Mai e ir passeando na região aos fins de semana. Mas descobriram que a AirAsia vende uma modalidade de viagem em que, por apenas 200 dólares, pode apanhar‑se aviões para inúmeros destinos no Sudeste Asiático Entusiasmaram‑se e os planos tornaram‑se «mais ambiciosos»: fizeram Phuket, ilhas Phi Phi, Chiang Mai e Banguecoque, na Tailândia.

Foram ao Camboja, Malásia, Vietname, Indonésia, Singapura e, pelo meio, meteram uma semana em Tóquio. «Foram 16 voos em 75 dias», contam. Por serem os dois «apaixonados por finanças» e disciplinados na gestão do orçamento, tinham uma rede de segurança que lhes permitiu ir apenas fazendo pequenos trabalhos por conta própria e escolher sempre hotéis médios para irem ficando, dedicando tempo aos projetos pessoais: Tiago quis empenhar‑se na produção musical, na fotografia e no vídeo. Rute escrevia um livro sobre gestão de carreira para jovens profissionais.

Entretanto, lançaram um blogue (usxworld.com) e regressaram à Europa para umas férias sem destino certo, entre Portugal e o resto do continente. Em outubro voltam aos EUA, ainda sem saber se ficam por Nova Iorque ou se vão à descoberta da Califórnia.

«A médio prazo, queremos tornar‑nos location independent e repartir a nossa vida entre os Estados Unidos e Lisboa», explicam. «No fundo, queremos o melhor de dois mundos: a ambição profissional de viver emigrado e a estabilidade familiar que se tem “em casa”.»

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