É uma viagem sem turbulência. Olho pela janela e, lá em baixo, vejo a Mongólia, planícies imensas de uma única cor. Este voo entre Chengdu e Amesterdão saiu à hora marcada, sem atraso, no início da manhã. Ao andarmos para trás na diferença horária, contra o tempo, resistindo‑lhe com os motores gigantes deste avião gigante, faremos toda a viagem durante o dia. Somos centenas de pessoas, uma maioria de chineses a falar alto. Se continuássemos sempre nesta direção, se o combustível nunca acabasse, talvez conseguíssemos contrariar a passagem do tempo para sempre, talvez nunca envelhecêssemos e, por consequência, nunca evoluíssemos. Provavelmente esta ideia está errada, nunca fui muito bom nessas matemáticas.

Tento orientar‑me pelo mapa do monitor, pelas costas da cadeira em frente. O pequeno avião que nos representa segue por uma linha de curvas ligeiras. Regresso à janela. O meu rosto cabe nessa forma oval. O meu olhar contém o céu sem nuvens, um horizonte do tamanho de toda uma face do planeta e aquelas superfícies castanhas, quilómetros e quilómetros de terra.

Às vezes, distinguem‑se povoações que, a esta lonjura, parecem sempre pequenas. Tento avaliar as proporções, perceber o tamanho real dos telhados. A conclusão a que chego sempre é que se trata de gente que vive num mundo próprio, que ignora todo o mundo que conheço. Como será viver ali? Como seria, para mim, mudar a vida toda e instalar‑me ali?

Imagino-os a ouvirem rádio, talvez a fumarem um cigarro, a pensarem de onde saíram ou para onde se dirigem. Por estar aqui, tenho a impressão de que sei mais do que eles.

De cima, para além dessas povoações, vejo as estradas, retas atravessadas por horas de condução em paisagem sempre igual, camiões solitários que avançam sempre em frente, ignorando que são observados a partir do céu. Imagino‑os a ouvirem rádio, talvez a fumarem um cigarro, a pensarem de onde saíram ou para onde se dirigem. Por estar aqui, tenho a impressão de que sei mais do que eles. Venho de um lugar que, provavelmente, não conhecem e, daqui a algumas horas, chegarei a outro lugar que, provavelmente, também não conhecem. Passo por eles a esta altitude e, por isso, creio‑me deslocado das suas preocupações.

Há poucos meses, senti o mesmo, num voo muito mais curto, entre Arequipa e Lima, no Peru. Nesse caso, apreciei povoações aninhadas em vales ou expostas no topo de montanhas, ligadas por estradas impossíveis de tão embaraçadas, um fio dentro de um bolso. Pensei: como será viver ali? E acreditei, também, que aquelas pessoas estavam na sua vida e eu, como uma divindade voadora, as contemplava, sendo‑lhes inacessível.

Só agora, talvez já sobre o Cazaquistão, me apercebo que, da mesma maneira que vejo essas aldeias, como mapas reais, também essa gente levanta o olhar e vê este avião sozinho no espaço, minúsculo perante o céu infinito. Talvez pensem: como será ir ali? E talvez tenham respostas prontas para essa pergunta, próximas ou não daquilo que é estar aqui de facto. Seguros da sua realidade, talvez acreditem que sabem mais do que nós, iludidos por este ar condicionado, pelas diferenças horárias, pelo duty free dos aeroportos. E talvez tenham razão.

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