O calor e as praias com água morna atraem, todos os anos, milhares de turistas a Miami. Depois de dois dias a explorar a cidade mostramos-lhe o lado que ainda poucos conhecem. E ainda damos um salto a um Club Med muito especial.

Texto de Cátia Carmo
Fotografias de Pedro Granadeiro / Global Imagens

Suzie Sponder está há 15 anos bem contados a mostrar Miami a quem vem de fora. Atualmente, como responsável pelo departamento de media do gabinete de Convenções e Visitantes da Grande Miami, dedica-se a apoiar os jornalistas que visitam uma das cidades mais turísticas da Florida e procuram histórias para contar. Em pleno agosto, altura em que o ambiente em Miami é bastante húmido e os termómetros marcam mais do que trinta graus durante 24 horas por dia, Suzie convida-nos a conhecer um pouco do passado da cidade, que vai muito além das praias paradisíacas que atraem milhares de pessoas durante todo o ano.

«Miami sempre foi conhecida pela arquitetura, principalmente pelos estilos art déco, MiMo e, agora, a arquitetura moderna que está a florescer especialmente no centro da cidade. Os arquitetos mais conceituados têm feito algumas das nossas mais importantes instituições. Em dezembro, Miami é anfitriã da Art Basel Miami Beach, a maior feira de arte contemporânea do mundo. Tem de se colocar Miami no mapa cultural», reforça Suzie Sponder antes de chegarmos à nossa primeira paragem: a sede da Liga da Preservação do Design de Miami (MDPL).

Esta organização não-governamental com 41 anos dedica-se à preservação, proteção e promoção cultural, social e económica da arquitetura da cidade. São dez da manhã, mas o calor infernal que se faz sentir na curta distância que percorremos desde a carrinha até ao edifício leva-nos a implorar por uma garrafa de água fresca para levar durante o passeio.

À nossa espera temos um guia com cerca de 60 anos. Vive em Miami desde sempre. Depois de se reformar decidiu tornar-se voluntário da MDPL e mostrar aos turistas os encantos arquitetónicos da cidade. Depois de uma breve introdução ao tempo em que Miami era apenas um pântano coberto de jacarés, cobras e mosquitos (há mais de cem anos), voltamos a 2017 e saímos para a rua, para ver os históricos edifícios bem de perto. À medida que percorremos as ruas, o guia não consegue conter o orgulho que sente no trabalho feito por Barbara Baer Capitman, a mulher que fundou a MDPL e teve a ideia de fazer de Miami um destino turístico glamoroso.

«Estes edifícios históricos que antigamente eram hotéis hoje são lojas ou restaurantes. As janelas têm extensões no topo por causa do sol e do calor. Na altura não havia ar condicionado. No movimento arquitetónico MiMo, entre os anos 1950 e 1960, cada pormenor do edifício tem um significado, uma função. Não são apenas decorativos», explica-nos. Os pormenores funcionais dão a estes edifícios uma arquitetura divertida e excêntrica, visível sobretudo nos antigos resorts à beira-mar ou em modestos apartamentos com jardim em Miami Beach.

A diversidade cultural de Miami reflete-se nas praias, nas ruas e nos restaurantes, com pessoas e sabores de todo o mundo.

Na Ocean Drive, a famosa estrada repleta de bares que à noite se transforma por completo ao ser invadida por mulheres com pouca roupa, homens musculados e Ferraris e Lamborghinis com música alta, predomina o movimento artístico art déco. Aqui, os edifícios têm cores tropicais, tons pastel e grandes letreiros com luzes de néon.

Ao fim de hora e meia regressamos à sede da MDPL e termina o passeio com o guia voluntário – custa 25 dólares (21,45 euros) – que parou o trânsito para nos levar a conhecer o interior de edifícios imperdíveis para quem visita Miami, como o Victor Hotel, The Webster e The Carlyle.

Um passeio de barco ao estilo de Miami Vice

Depois do almoço no Bubba Gump Shrimp Co., um restaurante no mercado de Bayside completamente decorado com merchandising do filme Forest Gump, que é repetido até à exaustão nas televisões do estabelecimento, vamos até ao porto de Bayside. Às 14h00 embarcamos numa lancha batizada de Thriller Miami que, tal como um Ferrari na água, nos proporciona uma experiência digna da icónica série de televisão norte- -americana dos anos 1980, Miami Vice.

A alta velocidade pelas águas de Miami, e com uma banda sonora digna de um filme de ação, vamos passando ao lado de mansões das várias estrelas que têm casa na cidade – Jennifer Lopez, Ricky Martin e Shakira, por exemplo. De uma perspetiva única em pleno oceano Atlântico vemos ainda as praias de Miami Beach repletas de banhistas e chapéus de sol coloridos e os edifícios do estilo arquitetónico art déco, no extremo sul de South Beach, enquanto sobre a cabeça nos passam helicópteros que exibem faixas com mulheres em biquíni e de arma na mão, convidando-nos a ir dar uns tiros e afinar a pontaria. Esta viagem teve a duração de 45 minutos e custa 38 dólares (32,60 euros), mas há também a opção de 75 minutos de passeio (48 dólares, o equivalente a 41,18 euros). Crianças com menos de 3 anos ou adultos com problemas de pescoço, obilidade reduzida ou grávidas não podem viajar no Thriller Miami.

Wynwood: o paraíso para os artistas

Há dez anos, o bairro de Wynwood, em Miami, estava completamente abandonado. Em 2009, o artista visionário Tony Goldman decidiu dar-lhe vida através da arte. Fez dos armazéns sem janelas verdadeiras telas gigantes. Deixou que diferentes artistas, de várias partes do mundo, as pintassem ao seu gosto e abriu galerias de arte, museus, ateliês e teatros.

Na companhia de Ryan Ferrell, um artista local que, juntamente com o amigo Pedro AMOS, criou a empresa Miami’s Best Graffiti Guide e faz visitas guiadas a Wynwood, percorremos o local. Para onde quer que olhemos vemos paredes grafitadas com os mais diversos tipos de desenhos e cores. Numa delas, um grupo de jovens raparigas faz fila para poder tirar uma fotografia com aquela parede como fundo.

«É uma pintura de David Choe. Todo o bairro de Wynwood é um paraíso para bloggers e influencers, mas aquela parede é a mais popular e fotogénica. O próprio artista já é tão conhecido que tem mais de duzentos mil seguidores no Instagram», conta-nos Ryan quando passamos pelo mural Nothing Lasts Forever, de Choe. Uma verdadeira explosão de cores e formas.

A maioria dos edifícios históricos da cidade são hotéis.Para melhor servirem
os milhares de turistas, hoje têm, perto da receção, lojas ou restaurantes.

Mas nem só de artistas estrangeiros se faz Wynwood. Antes de entrarmos na primeira galeria de arte do local sentimo-nos em casa ao vermos uma obra do português Alexandre Farto, mais conhecido por Vhils. É a primeira de três com a assinatura do artista nacional que podemos ver nas paredes deste bairro onde se respira arte e mostra o rosto de um homem. «Vhils valoriza a ideia de transformar cidadãos comuns em ícones e muitas das suas imagens são baseadas em fotografias de pessoas que ele vê em revistas ou fotografa com a sua própria câmara. Ele veio a Miami pela primeira vez em 2011», conta o guia da Miami’s Best Graffiti Guide, fã confesso de Vhils.

O preço de um passeio conduzido pelos membros da Miami’s Best Graffiti Guide varia entre os 12 dólares (10,29 euros) e os 89 dólares (76,35 euros), conforme o número de pessoas. Quanto mais pessoas participarem na visita guiada, mais barata fica.

The Miami Design District: design e compras de mãos dadas

O bairro de Buena Vista, em Miami, foi durante décadas conhecido pela decadência urbana. As lojas de luxo de marcas como Tom Ford, Chanel e Dior, que hoje vemos abertas em edifícios que são verdadeiras obras-primas de design e arquitetura, só começaram a surgir no final da década de 1990. «Tal como em Wynwood, onde tudo é feito a pensar na arte, aqui tudo é focado no design. As lojas têm peças de roupa exclusivas muito caras. Este local trouxe a Miami artistas e compradores de topo», explica-nos Suzie Sponder.

Mesmo que não tenha dinheiro para fazer compras, vale a pena passear pelo The Miami Design District e apreciar a beleza dos edifícios que albergam lojas, restaurantes, bares, galerias de arte e empresas que prestam serviços criativos.

Também se come pastéis de nata em Miami

Nesta cidade norte-americana há pelo menos cinco restaurantes portugueses: o Old Lisbon Restaurant – três com o mesmo nome, do mesmo proprietário –, o Jardim de Portugal e Oporto Cafe Restaurant. Todos eles localizados em Coral Way, uma zona a cerca de vinte minutos de carro de Miami Beach, com muitas árvores à beira da estrada e habitações modestas.

Passa pouco das 11h00 e os restaurantes ainda estão todos fechados. Com esperança de, ainda assim, encontrar algum português, vamos até ao Old Lisbon e espreitamos pela janela. Lá ao fundo vemos um homem de avental e boné atrás do balcão. Pedimos, através de gestos, para que nos abra a porta. Em inglês, apresentamo-nos. Dizemos que estamos à procura de portugueses em Miami. «Não precisam de procurar mais. Já encontraram», responde-nos Abel Martins, o cozinheiro deste Old Lisbon Restaurant que já saiu de Portugal há treze anos. «Sou de Braga, de perto de Vieira do Minho. Trabalhava num hotel em Lisboa, vim para Miami com contrato para trabalhar nos navios, depois estive em Nova Iorque e regressei aqui. A cidade tem-se desenvolvido muito nos últimos anos. Quando vim para cá isto era muito mais calmo. Agora estão cá muitos turistas, principalmente cubanos e brasileiros. Todos querem vir para Miami por causa do clima», desabafa.

O cozinheiro mostra-nos o restaurante e apresenta-nos a restante equipa. Ao todo, o Old Lisbon dá emprego a dezasseis pessoas. Cinco são portugueses. No menu temos a típica comida portuguesa. As entradas são compostas por bolinhos de bacalhau, chouriço assado e presunto com queijo. Entre os pratos principais há bitoque, carne de porco à alentejana e doce da avó para sobremesa, mas aqui o bacalhau é rei. Os pratos que maior sucesso fazem entre os clientes, sejam portugueses ou estrangeiros, são o bacalhau à lagareiro, o bacalhau assado e o arroz de marisco. Para sobremesa ou para acompanhar o café ao pequeno-almoço e ao lanche ninguém dispensa um pastel de nata. «O patrão manda vir de Portugal, há muito poucos pasteleiros portugueses por cá. Não são como os pastéis de Belém, mas também são muito bons», afirma o cozinheiro.

Club Med Sandpiper Bay: muito desporto para toda a família

Do centro de Miami Beach ao Club Med Sandpiper Bay são cerca de duas horas de carro. Durante a viagem vemos pessoas agarradas ao telemóvel enquanto conduzem a mais de oitenta quilómetros por hora na autoestrada e anúncios que apelam ao arranjo dos aparelhos de ar condicionado lá de casa, principalmente nos casos «em que se tem uma mulher demasiado quente».

À medida que nos aproximamos do Club Med afastamo-nos da azáfama da cidade. Longe do mar e perto do rio, este resort está localizado numa zona habitacional bem calma da Florida. Na chegada temos à nossa espera Cristina Montealegre, a responsável por este Club Med. Há trinta anos que trabalha para esta organização. Já o faz desde os 25. A rotatividade a que são obrigados os trabalhadores deste tipo de resorts faz que tenha trabalhado na República Dominicana, nas Bahamas, na Costa do Marfim, no Senegal, em Punta Cana e na Turquia antes de vir para Sandpiper Bay.

«É bom trabalhar num ambiente tão bonito, em que as pessoas vêm de férias. Mas tem as suas dificuldades, claro. Exige dedicação quase 24 horas por dia. E os tempos mudaram. Na minha altura, quando comecei a trabalhar no Club Med, não havia dias de descanso e mesmo assim éramos felizes por fazer parte disto», recorda Cristina Montealegre.

Neste tipo de resorts costumam trabalhar pessoas de todas as partes do mundo, mas em Sandpiper Bay a diversidade cultural não é tão grande. «É uma vila diferente dos outros Club Med porque não é fácil arranjar permissão para trabalhar nos EUA. A maioria são americanos», esclarece a responsável.

Quem aqui trabalha é tratado por «gentil organizador» e quem vem passar férias é um «gentil membro». Para uma família de dois adultos e uma criança, sete noites no Club Med Sandpiper Bay custam cerca de 3200 euros. Não é para todos os bolsos, mas estão garantidas umas férias de sonho.

Aqui, o desporto é palavra de ordem. Durante o ano são muitos os jovens norte-americanos que estão cá durante vários meses para frequentarem as escolas de trapézio com atividades circenses, as escolas de vela, ténis, fitness, golfe ou vólei de praia. Mas há muito mais desportos incluídos no preço destas férias. Entre eles estão o basquetebol, futebol, ténis de mesa, voleibol, polo aquático, musculação, cardiotraining, kayaking e stand up paddle. Os únicos desportos que tem de pagar à parte, caso queira experimentar, são o moto de água, esqui aquático, wakeboard, golfe, surf, aulas de natação, tubing e flyboard.

Todas estas atividades dividem-se entre a piscina e o rio do Club Med – onde na areia, antes de entrar, vai poder ler um aviso que alerta para a hipótese de encontrar jacarés ou golfinhos. Mas pode ir confiante e sem medo. Depois de várias horas dentro de água não avistámos nenhum réptil.

Caso não se interesse por desporto e queira apenas relaxar durante as férias, pode deixar as crianças na piscina vigiada por um nadador-salvador e ir para a dos adultos, localizada à beira do rio e com um bar onde pode consumir qualquer bebida gratuitamente, seja alcoólica ou não. Esta zona é interdita a menores de 18 anos.

À noite costumam ser organizadas festas temáticas no bar principal do Club Med, onde crianças e adultos seguem o dress code e se divertem a ouvir música e a participar em jogos de grupo.

«É um produto único. Há várias empresas que tentaram igualar e copiar o Club Med, mas nenhum outro tem a diversidade cultural do staff e são poucos aqueles em que os pais podem deixar os bebés com poucos meses em boas mãos enquanto desfrutam das férias. É por isto que as pessoas continuam fiéis ao Club Med», acrescenta Cristina Montealegre.


Guia de Miami

Moeda: dólare. O euro está um pouco acima do dólar. Um euro equivale a 85 cêntimos do dólar.
Fuso horário: GMT – 5 horas.
Idioma: inglês, mas em Miami o castelhano é uma forte segunda língua, devido a numerosa comunidade latina.
Documentos: passaporte com validade mínima de seis meses. Os cidadãos portugueses não precisam de visto, mas é necessário pedir autorização através do Sistema de Autorização Automática de Viagem – esta em www.esta.us

Como ir
A TAP (flytap.com) voa diretamente de Lisboa Miami desde 697 euros.

Dormir
CONFIDANTE MIAMI BEACH
Um hotel de quarto estrelas em Collins Ave com acesso direto a uma das praias. Fica a cerca de meia a hora a pé, ou 15 minutos de carro de Ocean Drive. Os quartos estão equipados com portas USB para ligar dispositivos móveis. Tem 363 quartos, muitos deles virados para o mar, duas piscinas, spa e ginásio. Aceita animais.
4041 COLLINS AVE, MIAMI BEACH, FL
TEL.: +1 305 534 9600
QUARTO DUPLO A PARTIR DE 170 EUROS POR NOITE
THECONFIDANTEMIAMIBEACH.HYATT.COM

CLUB MED SANDPIPER BAY
O local perfeito para passar umas férias desportivas em família. Os quartos
são simples mas confortáveis. Se puder, escolha um com vista para o rio.
Vai acordar com um nascer do Sol incrível.
4500 SE PINE VALLEY ST, PORT ST LUCIE, FL
TEL.: +121 330 9696
CLUBMED.PT

THE MARTKETPLACE
É o principal restaurante do Club Med. Nos pequenos-almoços, almoços e jantares serve pratos típicos de vários países americanos, europeus e asiáticos, para poder agradar a todos. Há também opções mais saudáveis para os mais preocupados com a dieta. Ao jantar ou ao almoço não desperdice a oportunidade de experimentar um delicioso jacaré frito. Neste
Club Med é habitual almoçar-se pouco depois das 12h00 e jantar-se às 20h00. Este restaurante é para todos aqueles que preferem fazer as refeições principais fora de horas. Serve comida típica da Florida.

INFINITY BAR
O bar perto do jacuzzi e da piscina dos adultos – é proibida a entrada a
menores de 18 anos. São servidas refrescantes bebidas gratuitamente.

SLICE BAR
Está aberto durante todo o dia, até à 1h00. É aqui que se realizam as festas temáticas do Club Med dedicadas a toda a família, com música e jogos
interativos. Servem almoços tardios e bebidas gratuitas durante todo o horário de funcionamento.

COMER
A diversidade cultural de Miami reflete-se nos menus dos restaurantes. Além dos locais com a típica comida americana, onde os hambúrgueres e fritos são reis, há também muitos restaurantes cubanos, japoneses, italianos
e franceses.

TALDE MIAMI BEACH
Um bar e restaurante no interior do hotel Confidante Miami Beach. No menu estão pratos que fundem a cozinha asiática com a americana, numa combinação de inesperados sabores.
4041 COLLINS AVE, MIAMI BEACH, FL
TEL.: +1 786 605 4094
TALDEMIAMIBEACH.COM

BUBBA GUMP SHRIMP CO.
Todos os restaurantes da cadeia são inspirados em Forrest Gump. Na decoração, tudo remete para o filme e há televisores a passar o filme de 1994 que tem Tom Hanks como protagonista. Os pratos de peixe e marisco são a especialidade da casa, mas também há os previsíveis hambúrgueres. Os copos iluminados podem ser trazidos como recordação.
401 BISCAYNE BLVD., MIAMI, FL
TEL.: +1 305 379 8866
BUBBAGUMP.COM

VILLA AZUR RESTAURANT & LOUNGE
Enquanto janta há animadores a cuspir fogo neste restaurante que combina cozinha francesa e italiana. Só abre para jantar e depois transforma-se num clube noturno. É provável que mesmo antes de chegar a sobremesa já esteja a fazer parte de um comboio humano com centenas de desconhecidos.
309 23RD ST, MIAMI BEACH, FL
TEL.:+1 305 763 8688
VILLAAZURMIAMI.COM


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