Simone Costa prescindiu do emprego certo depois da faculdade e preferiu a incerteza das viagens em nome do conhecimento: há 14 anos que anda pelo mundo a visitar comunidades educativas alternativas, a lutar na lama, a andar descalça e a escalar coqueiros.

Texto de Bárbara Cruz

Simone Costa, de 37 anos, está «intermitentemente» fora de Portugal desde 2003. Regressa sempre, mas por pouco tempo. Visita a família em Bragança, terra natal, ou no Porto, mas grande parte do ano passa-a fora: cerca de cinco meses vive na Áustria, onde é educadora num jardim-de-infância no conhecido resort de esqui de Lech am Arlberg. No tempo que sobra viaja por todo o mundo, em lazer, para fazer formações ou continuar o projeto que é em grande parte responsável pela vida que leva: o Globetrotter, que consiste em visitar e documentar escolas e jardins-de-infância por todo o mundo, com conceitos educativos diferentes e fora da norma, que privilegiam formas de aprender no exterior. Mas já lá iremos.

Simone descreve-se como uma «viajante que investiga», pois as viagens e a «vontade de explorar» foram o combustível que lhe alimentou o percurso atípico, admite. Vive numa espécie de «gap year contínuo» que começou ainda na faculdade. Licenciou-se em Psicologia do Desporto na Universidade do Minho, mas durante a formação passou por Itália, Espanha, Alemanha, França, Palestina ou Reino Unido, ao abrigo de vários intercâmbios e projetos de mobilidade internacional. Ainda antes de se lançar mundo fora já sonhava com viagens: em criança, chegou a traçar no mapa o percurso do Porto a Nova Iorque, para onde iria de barco singrar como atriz ou cantora. Um «sonho tão realista a ponto de envolver os amigos de infância», que acreditavam nestas «viagens idealizadas», conta numa entrevista por e-mail, a partir de Londres, onde se encontra a concluir uma formação em Escola da Floresta.

O interesse na pedagogia surge no decorrer das «primeiras viagens independentes»: fez voluntariado numa escola em Waldorf, na Alemanha, e impressionou-se com o foco da aprendizagem no processo artístico. Depois, visitou alguns jardins-de-infância na floresta e viu crianças pequenas «a aprender livremente, ao ar livre, sem estruturas físicas muito elaboradas» e independentemente das condições meteorológicas. É nesta altura que lhe surge a ideia para o projeto Globetrotter: «Ao regressar da Alemanha senti muita dificuldade em explicar a colegas, amigos e familiares a beleza e a simplicidade das escolas Waldorf», recorda. Decidiu começar a mostrar as fotografias que tirara e «as imagens tinham efeito imediato». Porque não documentar tudo o que vira, e que ainda havia para ver, para inspirar a mudança da comunidade educativa?

Candidatou-se ao financiamento de uma das ações do então Programa Juventude em Ação – hoje Erasmus+ – que pretendia incentivar nos jovens práticas empreendedoras, e conseguiu 5000 euros para viajar pela Europa à procura de escolas diferentes. Para garantir que o projeto era aceite, e como se tratava de um programa de âmbito europeu, concebeu-o como um InterRail, inspirada pelas experiências dos irmãos mais velhos.

O grande sonho seria um jardim-de-infância desenhado organicamente com formas muito parecidas com árvores.

A família não achou muita graça, sobretudo quando soube que Simone, que já terminara a faculdade, tinha a possibilidade de trabalhar naquela altura como psicóloga do desporto no atletismo do Sporting Clube de Braga. «Os meus pais sentiram-se um pouco confusos», explica. «Mas o facto de não me acomodar, de querer saber e fazer melhor, é algo que faz parte da estrutura interna da nossa família.»

Desenhou então o percurso do projeto com base nas linhas ferroviárias e começou a viagem a 14 de março, na Noruega, seguindo por mais 13 países: Suécia, Finlândia, Dinamarca, Alemanha, Luxemburgo, Suíça, Áustria, Hungria, Eslováquia, França, Espanha, Itália e Portugal. Em todos visitou escolas, foi integrada nas atividades, analisou os brinquedos, conversou com os professores, brincou com as crianças. Depois de um muito elogiado catálogo com toda a informação sobre os projetos visitados, foi incentivada a publicar um livro, que saiu em setembro de 2015, com o título Globetrotter: Escolas e Comunidades Educativas no Mundo. Habituada a fazer road books artesanais mas quase profissionais depois de cada viagem, a publicação do livro para partilha de experiências e conhecimentos foi quase um desfecho natural para Simone. E até contou com a própria educadora de infância na apresentação.

Mas a viagem não terminou por ali. Decidiu continuar a explorar por conta própria e, até aos dias de hoje, já visitou 37 projetos educativos em 17 países. Entre as experiências mais marcantes, não se esquece da Green School, em Bali, na Indonésia, «considerada a escola mais verde do planeta» e que se define pelos conceitos de wall-less-ness (sem paredes) e shoeless environment (sem sapatos). «Imaginem andar descalços na sala de aula e em quase todos os espaços, ou uma arte marcial conhecida como Mepantigan, uma espécie de luta na lama, fazer parte do currículo não obrigatório desde o jardim-de-infância, ou escalar coqueiros com mais de sete metros de altura», descreve. Mas aponta que mesmo no seio da Europa as diferenças são evidentes, como as sestas no exterior das escolas nórdicas – mesmo com temperaturas negativas – ou os parques para caminhar descalço dos jardins-de-infância do centro da Europa.

Em breve, admite, quer fundar em Portugal uma escola com «arquitetura orgânica, a usar de preferência materiais sustentáveis». «O grande sonho seria um jardim-de-infância Globetrotters desenhado organicamente com formas suspensas muito parecidas com árvores usando cortiça, quer no revestimento quer no mobiliário, e brinquedos», confessa. Quer estabelecer parcerias com algumas das escolas por onde passou e abrir caminho em terras lusas. «Mas sempre com as viagens do eterno conhecimento e espírito explorador que tanto nos unem como povo em pano de fundo», sublinha.

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