Histórias de um navio repleto delas e de uma viagem no tempo para ler aqui e ver nos episódios 1 e 2 da Volta ao Mundo na RTP.

Texto de Nuno Mota Gomes
Fotografias de Gerardo Santos/Global Imagens

 


O comandante aperta a buzina do navio, várias vezes, sem piedade. Ouve-se, de certeza, nas sete colinas de Lisboa e arredores. Estamos a passar em frente ao Terreiro do Paço, com as velas já içadas e com um copo de sangria na mão. Na outra está a máquina fotográfica a registar aquele momento, sob um pôr do Sol que só pode ter sido encomendado. Deixamos a Ponte 25 de Abril para trás, as luzes da costa diminuem e a rede do telemóvel começa a falhar. É o primeiro sinal de que estamos mesmo a navegar rumo ao desconhecido. Ou quase. A noite cai, o mar levanta-se, o jantar é servido.

Os participantes da expedição Volta ao Mundo Açores 2017 começam ali a conhecer-se, a trocar algumas considerações, experiências anteriores e a razão de terem embarcado. São pessoas bem diferentes, de todas as idades, mas, no fundo, partilham da mesma vontade: viver uma verdadeira experiência náutica, num navio histórico.

O Santa Maria Manuela merece respeito. É inevitável não estar constantemente a pensar nas travessias que este e outros bacalhoeiros cumpriram. Quem embarcava nas campanhas da pesca do bacalhau não tinha uma vida fácil. Deixavam a casa, a família, o conforto.

Navegavam rumo à Terra Nova e à Gronelândia, ao frio e às tempestades. Levavam cerca de um mês para lá chegar. Depois, a rotina do dia-a-dia era sempre a mesma: trabalhar de manhã à noite. Cada pescador era posto na água num dóri, a pequena embarcação onde passavam o dia até carregá-lo ao máximo de peixe. Muitas vezes não se viam uns aos outros por largas horas, nem sequer o navio-mãe. Pescavam à linha, sob nevoeiro cerrado, correndo o risco de caírem à água gelada e desaparecerem para sempre. Era também o som do sino que os orientava quando a visibilidade não existia. Sabiam, assim, o quanto se afastavam e para onde deviam regressar.

No bacalhoeiro as condições eram mínimas e havia o trabalho da logística. O peixe chegava e passava por um tabuleiro comprido, para ser cortado, salgado e armazenado. A campanha só terminava quando o navio estivesse, literalmente, a deitar bacalhau por fora. Regressavam à outra casa, em terra firme, uns cinco meses mais tarde.

Nas campanhas da pesca do bacalhau seguiam cerca de setenta homens experientes e preparados para enfrentar os mares do Norte.

Nesta expedição sabíamos que não íamos para a pesca. E sabíamos que tínhamos o conforto, a segurança, a experiência da tripulação e o equipamento que nos facilita a vida. Dizem-nos onde estamos, para onde vamos, de onde vem o vento e com o que podemos contar para os dias seguintes. Ainda assim, mesmo com tecnologias, ficamos com a certeza de que é o mar quem manda – sempre.

A primeira noite foi, talvez, a mais difícil de digerir. Primeiro, porque a ondulação não ajudou e estranhava-se o balanço. Depois veio a sensação de enjoo. No primeiro pequeno-almoço quase todos os presentes pareciam mudos. Tentavam equilibrar-se a andar pelos corredores, apoiavam as mãos nas paredes e nas mesas. Procuravam o convés para apanhar ar, comiam maçãs porque a tripulação lhes dizia que ajudava a passar. Comiam e tentavam pensar que estavam bem. «Se visse só um bocadinho de terra era capaz de ir já», dizia o passageiro Fernando Belo, mal-disposto.

Felizmente, foi apenas uma manhã passageira menos boa, não só para este alentejano – que tem uma anedota sempre pronta para pôr toda a gente a rir – mas para todos. E assim foi, de forma divertida, que os dias passaram. Afinal de contas, por estarmos isolados do resto do mundo, tínhamos de conviver. Sim, porque não há contacto para casa, nem redes sociais – e ainda bem. É uma sensação estranha, parece que nos falta alguma coisa, mas depois torna-se um momento de contemplação.

Fernando é leitor assíduo da Volta ao Mundo. «Tenho todas as edições, desde novembro de 1994», diz cheio de orgulho. Conta que, como não pode viajar como gostaria, é na revista que dá voltas ao mundo: descobre cidades, aprende histórias sobre destinos remotos e vai buscar inspiração para, de vez em quando, também partir numa aventura. Como esta. Assim que Fernando soube da possibilidade, não teve dúvidas: tinha de se inscrever e fazer a travessia. Está a adorar. Vê-se no sorriso, na forma como olha para o horizonte e em como nos passa a máquina e pede para lhe tirarmos uma fotografia. Não tem experiência de andar no mar, mas sempre que pode põe as luvas e ajuda nas tarefas necessárias.

A bordo há sempre alguma coisa para fazer: cabos para arrumar, velas para orientar ou até ser o homem do leme. Ou a mulher. Há também tempo para ler, ver filmes, assim como discutir futebol – mesmo sem se saber os resultados dos dias anteriores. Rivalidades à parte – às vezes –, cria-se um ambiente saudável.

Em 2017, o Santa Maria Manuela completou o seu 80.º aniversário. Tem condições únicas para viagens oceânicas, eventos, festas e formações de mar.

Os dias no mar passam muito devagar, sem pressa. Assistimos facilmente ao nascer do Sol na popa, ao pôr do sol na proa, aos pontos de luz infinitos que à noite nos relembram a nossa pequenez. Esse desconhecido é outra conversa, mas ali, onde nos encontramos, a sensação é muito semelhante. Olhamos para as cartas náuticas e percebemos o tão pouco que havíamos navegado ao fim de dois ou três dias.

«É mesmo muito mar», diz Gerardo – fotógrafo incumbido deste trabalho. Estamos debruçados num dos bordos do navio e de olhos postos no cenário que é o mesmo há alguns dias. E acrescenta logo de seguida: «O mar nunca mais acaba.» Ficamos, assim, presos àquela imensidão. Naquele momento não dá para fugir nem voltar para trás. Continuamos longe do destino e não sabemos o dia certo em que chegamos. Temos uma previsão que muda, constantemente, consoante o rumo que se consegue fazer. Parece que estamos parados, no centro de tudo, porque o ponto mais longe está todo à mesma distância. São 360 graus de oceano. Um navio ou outro, de contentores, cruza-se tão distante que quase só o alcançamos com binóculos. É um sinal de que, afinal, não estamos sozinhos naquele mundo.

Gerardo tanto insistiu com a tripulação que conseguiu o que queria: subir a um dos mastros para fotografar e filmar lá de cima – «Bem, vocês têm mesmo de lá ir. A sério, é impressionante!» Desce tão entusiasmado que praticamente todos os participantes repetem a experiência. E não voltam menos impressionados. Pai e filho, um em cada mastro, sobem ao mesmo tempo, marido e mulher igualmente, um já não queria descer, outro quis levar a máquina fotográfica. Pode fazer alguma impressão subir a escada, mesmo com arnês, mas a recompensa é «impressionante» – tal e qual.

 


Ao fim de cinco dias avistamos de novo a civilização. Um pedaço de terra, ainda sem cor, tapado por algumas nuvens. Por momentos parecia que vivíamos há 500 anos e fazíamos parte de uma frota dos Descobrimentos, tal era a admiração e curiosidade. Não é a Índia nem o Brasil, confirmámos. É a ilha de São Miguel e não tardou muito para os mais ansiosos terem procurado sinal de telemóvel e começado a receber notificações. Acabou-se o isolamento, a ausência de notícias que preferíamos não saber – ou que não existissem no mundo real – para voltar tudo ao normal: fotografias para as redes sociais, telefonemas para casa, resultados dos jogos de futebol confirmados.

Apesar desta proximidade, a maior ilha do arquipélago ainda não é o destino. Falta-nos mais uma noite para chegar à ilha do Faial, no grupo central. Perdemos novamente o sinal. Toda a gente volta a conversar e a contar anedotas daquelas que já são raras de ouvir: do Joãozinho, do alentejano ou do português que ia com um francês e um inglês.

Até Frank Demeester, um dos participantes, que é belga, se senta à mesa para rir. Nunca percebermos se realmente entendia alguma coisa, mas, para ele, a língua portuguesa não é totalmente estranha. «Adoro Portugal. Já visitei várias vezes e a última vez que estive nos Açores foi há quase vinte anos.» É a segunda vez que viaja a bordo do Santa Maria Manuela, depois de uma travessia no canal da Mancha. Gostou tanto que quis repetir. Desta vez também veio pelo destino. Um regresso às ilhas com a companhia da filha, que vai ao seu encontro, de avião, uns dias mais tarde. Está ansioso.

 


Acordamos sem precisar de despertador. São as últimas horas até chegar e a vontade do que nos espera lá fora é superior ao sono. O Sol ainda não nasceu e anda quase toda a gente no convés, a admirar o que nos rodeia. Estamos a navegar no canal que separa as ilhas de São Jorge e do Pico. Há golfinhos que vêm ao nosso encontro, saltam de um lado e depois do outro. Aos poucos, a luz vai aumentando e dando cor às ilhas. As poucas nuvens estão a ir embora e, finalmente, destapam o ponto mais alto de Portugal. Os 2351 metros parecem estar à distância de um palmo e o dia promete ser de céu limpo. Não poderia ter corrido melhor.

Pomos os pés na cidade da Horta e agora é a terra que está a mexer – de certeza. Depois de um almoço em grupo no centro, continuamos a caminhar pela marginal que contorna a marina. Passamos pelo Peter Café Sport – onde havemos de voltar mais tarde para tomar um gin –, mas não perdemos o ritmo até chegarmos à praia de Porto Pim. Depois de vários dias a ver mar, sem poder mergulhar, toda a gente desesperava por fazê-lo. Um banho que soube pela vida. Ao final da tarde houve tempo para beber um, dois, três gins, deixar uma bandeira dos Açores no Peter com o nome de todos – como manda a tradição –, jantar pelas redondezas e à meia-noite brindar. Era dia de aniversário para a dupla ao serviço da Volta ao Mundo.

A primeira etapa da viagem foi cumprida em seis dias, de Lisboa à cidade da Horta, no Faial. Depois, o Santa Maria Manuela navegou até à ilha Terceira.

Na manhã seguinte, caminhamos pelo centro da Horta e conduzimos até ao vulcão dos Capelinhos – que fez agora 60 anos desde a sua erupção mais mediática. Nessa altura, a ilha ganhou mais uma porção de território e, hoje, décadas mais tarde, a paisagem continua completamente árida. É um ponto obrigatório, assim como visitar o museu interativo.

A viagem termina para alguns, que ficam no Faial. Outros embarcam ali para a etapa de regresso ao continente. E a maioria, que vinha de Lisboa, fez ainda mais uma noite rumo à ilha Terceira. Uma tarde de passeio cumprida entre o monte Brasil, a serra do Cume e algar do Carvão – um dos poucos vulcões no mundo que se pode visitar. Antes disso, na última noite, estar de volta a bordo já não era estranho. Sentimos que há uma parte de nós que ali fica. Nem que sejam os óculos de sol que caíram e desapareceram. Para sempre.


Volta ao Mundo na RTP

Esta expedição aos Açores deu direito a programa de televisão da Volta ao Mundo na RTP3. São dois episódios apresentados pelo jornalista Nuno Mota Gomes e filmados pelo incansável Gerardo Santos. Não faltam histórias de quem subiu a bordo, de quem faz do mar a sua vida e, claro, a passagem pelas ilhas.

Subir a bordo

Para viajar no Santa Maria Manuela não é preciso ter experiência de mar.
O navio está preparado para receber passageiros e proporcionar todas as condições necessárias: dormida, alimentação, workshops, conhecimentos náuticos, boas histórias e a garantia de uma experiência única. É um privilégio navegar neste navio histórico, ajudar nas tarefas de marinheiro, praticar navegação e conviver com a tripulação. Em 2017, o SMM já andou por Finlândia, Suécia, Lituânia, Polónia, França, Alemanha, Madeira, Açores, Lisboa e Porto. Fique atento ao site (santamariamanuela.pt) e inscreva-se numa das próximas viagens a realizar.

80 anos de História

O Santa Maria Manuela é um dos últimos exemplares da lendária Frota Branca Portuguesa – nome atribuído pelas comunidades da Terra Nova durante a II Guerra Mundial. Vasco Albuquerque d’Orey foi o armador da Empresa de Pesca de Viana, que encomendou o navio – batizado com o nome da mulher, Maria Manuela, mãe de 16 filhos. Da frota mítica resta apenas o Santa Maria Manuela, o Argus, o Creoula e o Gazela I.

1937: é construído em apenas 62 dias, juntamente com o navio gémeo Creoula.
1970: sofre alterações profundas, como a retirada de mastros.
2007: a empresa Pascoal inicia a recuperação do SMM.
2010: regressa ao mar completamente renovado, no dia que celebra o seu 73.º aniversário.
2016: é adquirido pela empresa Cash&Carry, do Grupo Jerónimo Martins.

Onde comer

Horta, Faial
Peter Café Sport
A história do sucesso é longa. Começou no ínicio do século XX, com uma loja de artesanato local, e ao longo dos anos o negócio foi crescendo – sobretudo pelo movimento de estrangeiros embarcados em navios e veleiros que encontravam na Horta um porto de abrigo. Passou de geração em geração, tornando-se uma referência a nível mundial como café. E como ponto de encontro de «marinheiros», onde a tradição manda que se beba um gin – bebida que lá chegou pelos ingleses. Mas também espaço para refeições, lá dentro, rodeado de bandeiras, ou numa esplanada virada para a marina e para o Pico. Vale a pena visitar o Museu de Scrimshaw, no primeiro andar.
Rua José Azevedo Peter 9, Horta
Tel.: 292 392 027
Preço: 15 EUROS
petercafesport.com

Horta, Faial
Oceanic Cafe

É um dos mais recentes projetos da ilha. O café e bar abriu neste verão, num edifício histórico, de 1822, onde já tinha funcionado uma adega. Foi renovado, sem perder o traço original, e tem uma exposição permanente dedicada à vida marinha. O bar procura servir produtos locais e é uma excelente sugestão para se beber um copo.
Rua Vasco da Gama 46, Horta
Tel.: 966 783 101
Horário: todos os dias, das 11h às 02h. Encerra à terça-feira.
Preço médio: 10 EUROS
azores-oceani.com/oceanic-cafe

Angra do Heroísmo, Terceira
Tasca das Tias

O restaurante é uma referência no centro de Angra. Está a funcionar desde 2014 e há petiscos e vinhos para provar e pedir por mais, num ambiente acolhedor. O espaço estende-se para o primeiro andar e também num pátio interior simpático. À mesa, obviamente, não faltam sugestões da terra e do mar.
Rua de São João 117, Angra do Heroísmo
Tel.: 295 628 062
Horário: todos os dias, das 12h às 00h
Preço médio: 15 euros
Facebook: Tasca das Tias


Agradecimentos

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