Do Paço Real ao Jardim Botânico

O Rio de Janeiro foi capital do Império Português entre 1808 e 1821 e por isso tem uma igreja onde um rei foi coroado, dois palácios que foram casa dos Bragança e um jardim botânico cuja primeira palmeira foi plantada pelo próprio D. João, ainda príncipe regente. Siga o nosso roteiro joanino!

Texto de Leonídio Paulo Ferreira
Fotografia de Leonardo Negrão / Global Imagens

É sábado e as portas da Igreja de Nossa Senhora do Carmo parecem fechadas. Dois homens sentados na escadaria confirmam que sim, que a antiga Sé do Rio de Janeiro não está aberta, mas que posso «dar uma olhada». Pois bem, a olhada foi demorada, mas os guardas que me franquearam a porta perdoaram, sobretudo depois de saberem que eu era português, jornalista e fã de D. João VI. Lá dentro, é sobretudo o contraste entre os brancos e os dourados que surpreende, até porque de fora, de um tom entre o cinza e o acastanhado, a igreja não se destaca por aí além, menos ainda comparada com a arquitetura futurista da nova catedral carioca, inaugurada em 1979 perto da Lapa.

A beleza do espaço interior da igreja corresponde bem à importância do que estas paredes testemunharam há dois séculos: a aclamação de D. João VI como rei em 1816, o casamento do futuro D. Pedro I do Brasil (IV de Portugal) com a princesa austríaca Leopoldina em 1817 e o batizado de Maria da Glória, a nossa rainha D. Maria II, em 1819. Claro, pode ainda acrescentar se – já depois de o Brasil ter proclamado a independência em 1822 – a coroação do imperador, o batismo do seu filho Pedro, a coroação desse segundo imperador, assim como o seu casamento e mais uns quantos batismos até chegar a república em 1889 e acabar com a mais duradoura monarquia latino americana.

Mas voltemos atrás no tempo. Descoberta pelos portugueses em 1502 no primeiro dia do ano, a baía de Guanabara foi por equívoco geográfico chamada de Rio de Janeiro e o nome ficou até hoje. Como Portugal tardou a instalar por aqui colonos, em meados do século XVI os franceses tentaram ficar com a região a que chamavam França Antártica mas depressa acabaram expulsos por uma aliança entre os portugueses e os índios temiminós. Explicam os historiadores dos Descobrimentos, como o português João Paulo Oliveira e Costa, que casarmos com as indígenas ajudou muito a que os seus irmãos e primos combatessem ao nosso lado. Afinal, não eram só aliados de ocasião, como os índios do lado francês, mas sim parte da família.

D.João VI continua a ser visto como o homem que lançou as bases do Brasil moderno.

Fundada oficialmente em 1565 como São Sebastião do Rio de Janeiro, a cidade tornou se capital do vice reino do Brasil em 1763, uma decisão do marquês de Pombal que não caiu bem em São Salvador, habituada a ser o centro das atenções. Mas o momento decisivo para a transformação do Rio aconteceu em 1808: o príncipe regente D. João, acompanhado de dez a quinze mil cortesãos, desembarcava nos trópicos vindo da Europa e fazia da cidade a capital do império português.

A atual Praça XV não dista muito do local onde D. João desembarcou. A família real tinha zarpado sob proteção da marinha britânica em novembro de 1807, já com as tropas napoleónicas prestes a entrar em Lisboa. E com o príncipe regente viajaram D. Maria I, a rainha que tinha enlouquecido, D. Carlota Joaquina, a traiçoeira espanholacasada com D. João, e os filhos, entre os quais Pedro e Miguel, ambos ainda crianças, amigos de brincadeira sem adivinharem que a história faria deles inimigos numa guerra civil que marcou a história de Portugal. Todos regressariam um dia à Europa, exceto D. Maria I, que morreria nessas Américas que eram suas mas que lhe fugiam ao entendimento.

Nunca antes um monarca europeu cruzara o Atlântico e aquilo que os Bragança encontraram naquele início do século XIX foi uma cidade belíssima pela natureza, como hoje continua, com os morros imponentes cheios de verde no topo e praias de areia dourada, mas sem os luxos de Lisboa e pejada de gente de outras cores, fossem índios ou negros (entre libertos e escravos). Para se instalar, D. João escolheu o palácio dos vice-reis, que se tornou o Paço Real. Hoje o edifício branco, de evidente traça colonial e uma beleza modesta, tem salas de exposição, cafés e até uma livraria, mas dá a sensação de que passa despercebido para os milhares de cariocas que por ele passam todos os dias quando caminham entre o cais dos barcos (estação das barcas, diz se no Rio) que os trouxeram de Niterói e o Centro, bairro que é o coração da cidade, como o próprio nome anuncia.

É curta a distância entre a Igreja de Nossa Senhora do Carmo e o antigo Paço Real. Aliás, foi essa proximidade que fez que D. João, um monarca muito piedoso, escolhesse para capela real a igreja construída pelos carmelitas a partir de uma ermida do século XVI (podia ter optado pela igreja do Mosteiro de São Bento, mas era no topo de uma colina e mais longe). E com um pouco de esforço pode imaginar se a família real portuguesa a fazer o percurso de menos de uma centena de metros para assistir à missa musicada por composições de Marcos Portugal, que em 1811 se fixou no Rio vindo de Lisboa. Mas sem qualquer necessidade de imaginação, os brasileiros puderam ver essa azáfama dos Bragança no Rio, na novela das seis da Globo, Mundo Novo, que terminou em setembro, na qual o herói é Pedro, o miúdo nascido em Queluz, que deu a independência ao Brasil e, apesar de casado com Leopoldina, teve inúmeras amantes, a mais famosa delas Domitila.

Também na Livraria Saraiva da Rua Sete de Setembro, que liga a Praça XV à Praça Tiradentes (precoce independentista brasileiro), a saga dos Bragança no Rio é tema omnipresente nas estantes. «D. João foi deles quem deixou melhor memória», garante me uma jovem funcionária. Na mesma tarde, em conversa com o historiador Ronaldo Vainfas, a mesma ideia me chega. «É D. João que lança as bases do Brasil moderno, que permitem que D. Pedro mantenha o país unido. Eu não tenho dúvida de que o Brasil se teria partido em vários Brasis como a América espanhola se partiu não fosse o facto de a liderança do processo aqui ter sido da própria Casa de Bragança. E a atribuir o mérito a alguém eu atribuiria, sim, a D. João VI, antes o príncipe regente depois o rei», diz o autor de Dicionário do Brasil Joanino.

Quinta da Boavista passou a Paço Real em 1816. Hoje é ali o zoo do Rio de Janeiro.

O Paço Real, mesmo melhorado, não estava, contudo, à altura das exigências de um monarca do velho mundo e D. João aproveitou bem o desejo de um grande comerciante de lhe cair nas graças oferecendo uma quinta nos arredores do Rio de Janeiro. Elias António Lopes, nascido no Porto e com fortuna feita no tráfico de escravos vindos de África, tinha construído um belo casarão na chácara de São Cristóvão e chamado à zona envolvente Quinta de São Cristóvão ou Quinta da Boa Vista, como hoje é conhecida. A partir de 1816, D. João instala se de vez na mansão, reconstruída entretanto para ganhar formas apalaçadas, e faz dela o novo Paço Real, ou Palácio de São Cristóvão, esquecendo ficar um pouco fora do resto da cidade e exigir um longo caminho de coche.

Em 2017, a partir do Centro, é, porém, fácil chegar de metro, pela linha 2, à antiga residência dos Bragança, bastando sair na estação São Cristóvão e depois atravessar uma passagem área sobre uma via rápida, não mais de dez minutos a caminhar até se chegar a um grande espaço verde, a Quinta da Boa Vista, onde até o Jardim Zoológico do Rio de Janeiro está instalado. Com árvores que oferecem sombra e alguns lagos, a ambiente é menos abafado do que noutros pontos do Rio e por isso muitas famílias passeiam por aqui para felicidade dos ocasionais vendedores de picolés e água de coco. Aproveito para beber um copo bem fresquinho por três reais (menos de um euro).

Subindo se uma pequena colina chega se ao antigo palácio imperial, de fachada neoclássica e cor amarela esbatida. Antes, cruzamo-nos com uma estátua de D. Pedro II, que criança e órfão de mãe ficou no Brasil e viu o pai partir para Portugal para defender o direito ao trono da irmã Maria da Glória, a carioca que foi nossa rainha. Depois, uma segunda estátua, desta vez de Leopoldina com os filhos aos pés (tanto D. Maria II como D. Pedro II ali nasceram). Morreu jovem esta princesa austríaca, filha do imperador Francisco I e cunhada de Napoleão. Mas deixou boa memória no Brasil, e em Viena ainda hoje lhe agradecem os minerais americanos que colecionou com esmero de cientista amadora e enviou da sua pátria adotiva para a terra que a vira nascer.

A proclamação da independência do Brasil aconteceu a 7 de setembro de 1822.

Cristo Redentor

O antigo palácio imperial foi residência dos Bragança brasileiros até à implantação da república em 1889 e é hoje um museu nacional, com exposições diversas, como a dos meteoritos encontrados em território brasileiro. O maior deles, exibido à entrada, dá pelo nome de Bendegó, que é o local do sertão da Bahia onde foi descoberto no século XVIII. Depois de várias tentativas de mover as cinco toneladas, só chegou ao Rio (capital até 1960, data de fundação de Brasília) no tempo do imperador D. Pedro II, homem de ciência como a mãe, quando o comboio já tinha sido inventado e facilitado muito a tarefa.

Subo ao primeiro andar, nesta viagem pelo Rio de D. João VI, e deparo me com a Sala do Trono, onde se manteve a sumptuosidade que no século XIX imagino teria todo o palácio. São várias as peças de mobiliário que pertenceram ao rei português e também à rainha Carlota Joaquina, que nunca gostou dos trópicos apesar de ter chegado a ambicionar ser soberana da América espanhola quando soube que o seu irmão Fernando VII, da casa de Borbón, estava preso em França e tinha sido substituído no trono de Espanha por um irmão de Napoleão.

Entre a subida ao Pão de Açúcar, a ida ao Cristo Redentor ou a experiência de praia em Copacabana ou Ipanema, mesmo o turista pouco interessado na história dos Bragança no Rio de Janeiro não deixará de visitar, sem saber, um dos maiores legados de D. João à cidade, o Jardim Botânico. Chego lá vindo do Leblon. É uma longa caminhada a pé, mas agradável. Ao fundo, ergue se a serra da Tijuca, floresta tropical, e um pouco para a direita está a lagoa Rodrigo de Freitas. Criado oficialmente em 1811 e chamado de Real Horto, o Jardim Botânico já tinha plantas diversas, de várias regiões do império português, mas em 1812 chegou uma planta cheia de simbolismo, a Camelia sinensis, vinda de Macau – é a planta do chá, base da bebida quente que os portugueses introduziram no Ocidente e que depois do casamento de Catarina de Bragança no século XVII com um rei inglês se globalizou.

O jardim botânico do Rio de Janeiro tem 6500 espécies de flora e uma área de 54 hectares.

Percorro agradado o Jardim Botânico, legado desse rei português que me parece os brasileiros sentirem como seu também. E chego à alameda das palmeiras imperiais, as Roystonea oleracea: a primeira delas, trazida clandestinamente da ilha Maurícia por um oficial da Armada Real, foi plantada por D. João em 1809. Ficou conhecida como Palma Mater por ser a antepassada de todas as palmeiras imperiais do Brasil e sobreviveu até 1972, quando foi destruída por um raio. No seu lugar, está a Palma Filia, nascida de uma semente daquela que foi posta na terra brasileira pelo futuro rei há 208 anos.

Foram 13 anos de vida feliz, a de D. João no Brasil. Voltou em 1821 por causa da Revolução Liberal em Portugal. Deixou muitas marcas no Brasil, que em 1815 deixou de ser colónia para passar a parte igual do Reino Unido de Portugal e do Brasil, como o primeiro banco e a primeira universidade. Também todos estes monumentos no Rio e outros que desapareceram, como o Teatro Real. Mas sobretudo, os seus anos cariocas consolidaram a unidade do país que se libertou depois sob a alçada do seu filho mais velho, Pedro, em 1822. D. João VI, como último legado a esta terra brasileira que tanto amou, reconheceu a sua emancipação logo em 1825, um ano antes de morrer.


Brasil

Rio de Janeiro

Documento: passaporte válido pelo menos seis meses
Moeda: real (BRL). 1 EURO – 3,73 BRL
Fuso Horário: GMT – 4 horas
Idioma: Português

Ir
A TAP (flytap.pt) voa diariamente de Lisboa para o Rio a partir de 1096 euros por pessoa, ida e volta. Na cidade, o metro (metrô) é moderno, seguro e eficaz. Conjugado com uns passeios a pé e um ocasional táxi é uma solução prática. Vale a pena comprar o cartão recarregável.

Dormir

VILA GALÉ RIO DE JANEIRO
Inaugurado há cerca de três anos no histórico Bairro da Lapa, o hotel é muitas vezes escolhido por artistas e músicos cariocas. Ocupa um antigo palacete do século XIX, que já tinha sido hotel e escola. Tem 292 quartos, os mais modernos na nova torre enquanto as suítes tiram partido do charme do palácio. A decoração é inspirada no Samba, Bossa Nova e na cultura luso-brasileira. Tem dois restaurantes, o Versátil e o Inevitável, de inspiração mediterrânica. E dois bares – um deles dedicado a Vinicius de Moraes. Há ainda o spa Satsanga. Quarto duplo a partir de 65 euros.
RUA RIACHUELO, 124, LAPA, RIO DE JANEIRO

Comprar

As livrarias do Rio são uma tentação. E os Bragança são tema de inúmeras biografias. Claro que é também difícil resistir aos CD de música popular brasileira.

Comer
CONFEITARIA COLOMBO
Não faltam desde restaurantes de luxo até modestos botecos no Rio, mas provar os bolinhos de bacalhau na Confeitaria Colombo é obrigatório. Sabe mesmo a Portugal. Não falhar a água de coco fresquinha na rua.

Visitar
IGREJA DE NOSSA SENHORA DO MONTE DO CARMO E PAÇO REAL
(ambos no Centro)

QUINTA DA BOA VISTA
(São Cristóvão)

JARDIM BOTÂNICO
(entre Gávea e Lagoa)

REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA
Orgulho da comunidade portuguesa construído já depois da independência
(Centro), e Mosteiro de São Bento (Centro), legado da colonização portuguesa.


Veja também:
Vila Galé Rio de Janeiro: um hotel luso-brasileiro
Rio de Janeiro ao ritmo de Tom Jobim