Há vinho, mercados, mesquitas, universidades, curtumes, cafés e a eterna sensação de que Marrocos e Portugal não são assim tão diferentes.

Texto de Ana Tomás
Fotografias de Paulo Spranger/GI

Vinho do Sul

In vino veritas. O adágio romano que diz que no vinho se encontra a verdade encaixa numa das mais recentes atrações turísticas de Marrocos, que é ao mesmo tempo uma recuperação da história do país: a produção de vinho. É na região do Médio Atlas, no Norte interior de Marrocos e a poucos quilómetros da cidade de Meknès, que encontramos um dos destacados, e raros, exemplos dessa herança, o Château Roslane, criado em 2004. Com mais de 700 hectares, a quinta, propriedade do grupo Les Celliers de Meknès, surge como um oásis no meio do vale seco e frio, que nos faz esquecer que estamos em continente africano.

Os tons outonais das videiras, numa paisagem pontilhada de oliveiras e sobreiros, confundem‑nos a visão. Não fosse o recorte das montanhas áridas do Atlas no horizonte, as palmeiras e a arquitetura árabe no interior da quinta a devolver‑nos a noção geográfica real e julgaríamos estar algures no interior do Alentejo. E esta não é a única semelhança. São várias as sensações de familiaridade que se sentem em Marrocos, apesar das diferenças culturais.

O Château Roslane foi a primeira adega a receber a classificação de exploração vinícola (château) em Marrocos e, provavelmente, em todo o Norte de África. Está incluído na primeira zona de denominação de origem criada no país, em 1998, Les Coteaux de l’Atlas, responsável por 60 por cento da produção marroquina atual, mas conhecida já nos tempos do império romano. Aliás, nas proximidades é possível visitar as ruínas da antiga cidade romana de Volubilis.

Cabernet, merlot, syrah e chardonnay estão entre as castas produzidas por esta marca premiada internacionalmente. No futuro, há planos para tentar produzir Touriga Nacional, diz‑nos Yassir Akorri, diretor da restauração e chef do Château Roslane. É também ele que nos explica que, nesta exploração, o vinho é apenas um ponto de partida para alimentar outros sentidos. Procurando aliar história com modernidade e sofisticação, o Château Roslane alberga um boutique‑hotel – em fase de acabamento – que inclui piscina, jardins e um spa, onde se pretende juntar tratamentos tradicionais marroquinos com o que de mais recente se pratica na Europa, em matéria de beleza e bem‑estar, aproveitando ao mesmo tempo as propriedades que a vinha oferece. «A ideia é que seja uma experiência em torno do vinho», refere Yassir Akorri, que, além das provas de degustação, quer também apostar na alta-cozinha, convidando chefs de origem marroquina, com experiência internacional, para residências no restaurante que serve o hotel.

A partir deste ano, Meknès passará a acolher uma das duas mesquitas que podem ser visitadas por turistas e não muçulmanos. Está previsto que as obras de restauro terminem em Maio.

Num país predominantemente muçulmano, onde o consumo de álcool não é compatível com a prática religiosa, sendo moral e socialmente censurável, o projeto do Château Roslane é um desafio no contexto local. Yassir Akorri acredita que pode ajudar a desmontar a associação redutora entre vinho e embriaguez, não só dando‑o a conhecer como produto gastronómico, mas promovendo a reconciliação dos marroquinos com uma parte longínqua da sua história.

Nas vinhas do Château Roslane trabalham famílias inteiras. A região do Médio Atlas é habitada sobretudo por marroquinos de origem berbere, cuja língua e cultura têm sido promovidas pelo atual rei de Marrocos, Mohammed VI. A grande maioria dedica‑se à agricultura, à pastorícia e ao artesanato, em particular à tapeçaria e à cerâmica. É comum serem os próprios a deslocar‑se das aldeias para venderem o que produzem, nos mercados das cidades.

Quase todos os produtos que encontramos fazem parte da nossa dieta alimentar, a diferença é que são apresentados e vendidos de outra forma. É comum verem‑se burros a circular pelas medinas, carregados de abastecimentos que, em vez de embrulhados em paletes de plástico, são oferecidos a granel, arrumados dentro de sacas ou empilhados em pequenos montes sobre bancadas simples e muitas vezes improvisadas.

A produção de vinho em Marrocos tem um cariz histórico. Hoje, tenta recuperar-se essa tradição.

Ao contrário do que acontece nos supermercados e mercados tradicionais portugueses, as cores são mais viçosas e os cheiros mais intensos. Os dióspiros são avermelhados e carnudos e as tangerinas, pequenas e doces, trazem ainda a rama e as folhas verdes como se tivessem acabado de ser colhidas das árvores. Veem‑se massas para todos os gostos e pratos, e, entre o típico cuscuz, encontram‑se variantes para uma canja ou para um macarrão italiano. Há sacos de feijão, grão e azeitonas de várias qualidades, frutos secos e passados, das amêndoas às tradicionais tâmaras, e dezenas de especiarias para todo o tipo de temperos, paladares e sensibilidades.

Ao lado, faz‑se pão em fornos artesanais forrados a mosaicos decorativos, os homens barbeiam‑se no exíguo corredor que serve de barbearia, enquanto num modesto café outros tomam chá e conversam. Mais à frente matam‑se galinhas à vista de todos e separam‑se os membros para vender a carne em pedaços. Mudando de ruela, vende‑se calçado e vestuário, ténis de marcas desportivas e equipamentos de clubes como o Real Madrid e T‑shirts com a cara de Cristiano Ronaldo. Em Marrocos aprecia‑se o futebol como em Portugal e o facto de as seleções dos dois países se irem defrontar na fase de grupos do Campeonato do Mundo de 2018 é motivo para os vendedores entabularem conversa, quando se apercebem da nossa nacionalidade.

 

Fez: espírito e fé

É pela curiosidade e a hospitalidade, mas também pelos cenários, as cores e os cheiros, que cruzam tempos diferentes no mesmo lugar, que nunca nos sentimos inteiramente estranhos. Em Marrocos, estamos com um pé fora e outro em casa. Seja na medina de Sefrou, velha cidade conhecida pelo festival anual de cerejas, seja na de Fez, a 28 quilómetros.

É nesta, a segunda maior cidade de Marrocos, com mais de um milhão de habitantes, que se encontra a mais antiga medina do país, classificada Património Mundial pela UNESCO em 1981. Este centro histórico muralhado, onde, entre outras coisas, funcionam os mercados, possui, segundo o guia que nos acompanha, mais de nove mil ruelas. Autênticos labirintos onde é fácil perder o norte e difícil dar com a saída. Não os convém percorrer sem alguém conhecedor por perto.

Fundada no século IX, Fez é a mais antiga das quatro cidades imperiais de Marrocos.
Começou a ganhar importância na região do Norte de África com a chegada dos muçulmanos expulsos da Andaluzia e, mais tarde, dos judeus vindos da Tunísia. Foi sob o seu impulso que a cidade se tornou uma referência cultural e comercial. No século XIII, o bairro judeu passou para fora das muralhas. Fez cresceu e modernizou‑se a partir daí, mais tarde com a influência francesa, patente em pormenores arquitetónicos e, sobretudo, nos cafés com terraços e grandes esplanadas – frequentados quase exclusivamente por homens. À medida que nos aproximamos dos seus limites, as ruas assumem um aspeto mais contemporâneo, com jovens mulheres, com e sem lenço, e homens, com e sem jilaba, a partilhar o mesmo espaço, ainda que em mesas diferentes. É também nesse trajeto que se distribuem as diversas faculdades e universidades.

Fez é uma das quatro cidades imperiais, a par de Meknès, Rabat e Marraquexe. Berberes, Árabes, Judeus e Europeus passaram por cá.

Na parte velha de Fez situa‑se a universidade mais antiga do mundo em atividade, segundo o livro de recordes Guinness, a Universidade Al Qaraouiyine, fundada em 859, como escola de estudos islâmicos, por Fatima al‑Fihri. Também é na medina que encontramos os vestígios daquele que é considerado o primeiro hospital a tratar doenças do foro psiquiátrico e onde, dizem, já se usava a música e o canto como técnicas terapêuticas. Construído em 1286, o Maristan Sidi Frej terá inspirado o primeiro hospital psiquiátrico do mundo ocidental, fundado em 1410 em Valência, Espanha. A visão apura‑se para não perdermos a orientação dos caminhos a seguir.

O espaço é imensamente maior do que o da medina de Sefrou, a quantidade de gente que circula e se abastece nas diferentes bancas cresce na mesma proporção e as ruas são mais estreitas. Em algumas ruelas são inevitáveis os encontrões e é preciso estar atento para evitar obstáculos. Nalgumas ruas, o sol aparece com dificuldade e, em alguns casos, rendilhada através das estruturas de madeira que cobrem a parte já requalificada e modernizada. As ruas da parte velha organizam‑se em souks, mercados dedicados a cada tipo de atividade e comércio, artes e ofícios, pelo que não é difícil ver uma viela inteira ladeada por tapetes artesanais. O cheiro a rosas e sabonete leva‑nos para a zona dos produtos de higiene e cosmética biológicos e da botânica. Um bálsamo comparado com o cheiro forte das peles curtidas, que são usadas para fazer casacos, sandálias, chinelos e malas de couro, ou seja, os artigos a que, justamente, chamamos de marroquinaria.

Os curtumes artesanais de Fez são os mais conhecidos de Marrocos. São pequenos tanques de pedra onde o couro é lavado e tingido com recurso a técnicas naturais. Cheirar um ramo de hortelã é condição essencial para suportar o odor nauseabundo.

O duro impacto causado pelo cheiro e pelas cores das tintas, nos produtos em exposição, é suavizado pelas belezas inesperadas e pormenores surpreendentes que as vielas labirínticas vão revelando a cada curva. Há palácios exóticos e luxuosos que acolhem hotéis e restaurantes, há largos onde crianças jogam à bola e outros que exibem portas solenes, em arco, trabalhadas minuciosamente com recortes e materiais diversos. É possível observar, nas ruas dos ofícios manuais, esse processo de decoração, mesmo que em exemplares menos grandiosos. Com as oficinas abertas, os artesãos esculpem e pintam a madeira, quase sempre de cedro.

A área dedicada aos curtumes, em Fez, existe desde o século XII. Visitá-la é uma experiência recomendada para quem souber suportar o mau cheiro. À entrada, são distribuídas folhas de hortelã para mascarar o olfato.

Atrás de algumas das portas mais imponentes escondem‑se os pátios das mesquitas, interditas a curiosos não muçulmanos. A mesquita mais próxima, e uma das duas do país que podem ser visitadas por turistas e não crentes, fica em Meknès e deverá estar aberta ao público a partir de maio deste ano, depois de concluídas as obras de restauro.

Desde a sua fundação, Fez foi a capital de Marrocos em diferentes momentos ao longo dos séculos e ainda hoje, pela importância que conservam as suas mesquitas, continua a ser uma referência cultural e espiritual e local de peregrinação no Norte de África. Há mais de 150 mesquitas na medina, rodeadas quase sempre por fontes e destacadas da paisagem pelos minaretes. Antes de se sair das muralhas para uma vista panorâmica da medina, ao pôr do Sol, e junto ao antigo relógio de água de Fez, fica uma espécie de retiro cultural contemporâneo, o Café Clock, onde, de novo, os tempos se cruzam no mesmo lugar. Os edifícios que o albergam têm 200 anos, o estabelecimento tem 10, e Abdelilah, um dos seus empregados, tem 26 e trabalha nele há um.

Entre sorrisos e desculpando‑se por um inglês que julga ser mau, numa terra onde a língua estrangeira que todos falam é o francês, cabe‑lhe ser cicerone e explicar o que é, afinal, o Café Clock. Propriedade de um inglês, existe no mesmo formato em Marraquexe. Em Fez é o ponto de encontro de intelectuais e de jovens, o típico café cultural, com diferentes salas destinadas a leituras, conversas ou espetáculos. Aqui pode ouvir‑se jazz, mas também o tradicional alaúde. Por outro lado, mantém‑se viva a tradição oral, com o contar de histórias, em árabe e em francês, para que não se perca a ligação entre gerações. Os terraços coloridos têm vista privilegiada para o minarete da mesquita e remetem os sons do corrupio da medina ao volume do burburinho, convidando a relaxar ao sabor de um chá de menta. Se o silêncio se amparar no cansaço, há sempre o cântico do chamamento para a oração para nos tirar do entorpecimento, despertar os sentidos e devolver‑nos ao lugar.


Guia Marrocos

Moeda: DIRHAM (MAD). Um euro equivale a 11,35 MAD. Em termos práticos, uma viagem nos táxis citadinos (bem regateada) nunca ultrapassará cinco euros e uma água de 33 ml pode custar cerca de cinquenta cêntimos, num restaurante.
Fuso Horário: GMT (igual a Portugal Continental).
Idioma: a língua oficial é o árabe, embora o país use o francês como segunda língua. Em algumas zonas é ainda falado o amazigh, nome dado às línguas berberes. Castelhano também é falado informalmente.

Ir

Desde novembro que a TAP tem voos diretos para FEZ, a partir de 111 euros. Durante os meses de verão são vários os operadores que organizam voos charter para os resorts da costa mediterrânica marroquina, já com hotel incluído. Para descobrir as localidades da costa atlântica, poderá aproveitar estes pacotes de viagem e alugar um carro ou requisitar os serviços dos táxis ou guias locais.

Ficar

Fez
– Hotel Palais Medina & Spa
A poucos minutos a pé da medina de Fez, este moderno hotel de cinco estrelas oferece uma vista privilegiada sobre as montanhas e a parte antiga da cidade. Ao mesmo tempo está a escassos metros da zona nova de Fez. Possui spa, piscina, bar e restaurantes de buffet e de comida tradicional marroquina.
Quarto duplo desde 100 euros por noite.
BOULEVARD ALLAL EL FASSI,FEZ
TEL.:+212 53890-0900
WWW. PALAIS-MEDINA-FES–SPA.HOTEL-RN.COM

Fez
– Marriott Hotel Jnan Palace
A 16 minutos de carro da medina, este hotel, que substituiu o antigo Jnane Palace, situa-se na zona nova da cidade. Destaca-se pelas suites, sobretudo as familiares, e possui piscina, um centro de fitness e opções de restauração variadas. Suite familiar com dois andares, desde 121 euros por noite.
AVENUE AHMED CHAOUKI,8,FEZ
TEL.:+212 535947250

Meknès
– Riad Ritaj
Situado no coração da medida de Meknès, este luxuoso riad junta conforto com tradição e requinte. A minuciosa decoração dos pátios e dos quartos transporta o visitante para a atmosfera dos palácios árabes, proporcionando uma continuação da experiência de viagem.
Quarto duplo básico a partir de 45 euros por noite.
SIDI AMAR BOUAOUDA. 13, MEKNÈS
TEL.:+212 535 53 4808
WWW.RIADRITAJ.COM

Comer

Fez
– Palai Mnebhi
Em plena medina, este restaurante tipicamente marroquino é um manjar para os olhos e para o paladar. As fontes e os mosaicos do pátio fornecem o cenário para o banquete real: um rodízio de saladas, frango e tagines.
SOUIKT BEN SAFI, 15, FES
TEL.:+212 535633893

Fez
– L’ambre – Riad Fez
Fica no hotel de luxo Riad Fez e é a oportunidade de experimentar uma versão gourmet da gastronomia tradicional marroquina, apresentada com o toque de modernidade e sofisticação.
DERB BEN SLIMANE ZERBTANA, 5, FEZ
+212 535 947 610
WWW.RIADFES.COM


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