A World Life Experience é um programa pensado e coordenado a partir de Portugal. Pretende proporcionar aos participantes o convívio com diferentes culturas enquanto desenvolvem trabalho social com organizações não-governamentais. Tudo isto ao longo de um ano. E com despesas asseguradas e um (convidativo) ordenado. Sem pôr de parte, além disso, os momentos de lazer. No grupo da 1ª edição, há três meses em viagem, está um português. Que agora nos conta tudo.

À hora combinada tentamos falar por Skype, mas a ligação Lisboa-Bósnia não aguentava dois segundos. Uma, duas, três chamadas falhadas. Dez minutos a tentar começar uma conversa, «hello?»; «estão a ouvir-me?»; «estão a ver-me?». «Vamos procurar um lugar com melhor internet e voltamos a ligar», dizem, ainda sem termos visto uma única imagem. Não passam sequer cinco minutos para recebermos nova vídeo-chamada. Agora sim. Dizemos-lhes que «prometemos ser breve», mas acabamos a falar durante meia hora.

Miguel Brito é quem assume ser porta-voz. Concordamos que é mais fácil falarmos na mesma língua. Tem 26 anos e é o único português a participar na 1ª edição do programa. Mostra imagens gerais do grupo todo reunido, acenam para a câmara. Estão sorridentes, só podem estar a gostar da aventura onde se meteram.

Para além de Miguel a representar Portugal, há três espanhóis, dois brasileiros, uma caboverdiana, uma russa, um ucraniano, uma argentina e uma venezuelana. «Somos bastante diferentes, mas damo-nos todos bem», diz. Este é o primeiro grupo de sempre. São as cobaias do programa que é apresentado como o «melhor emprego do mundo». E sobre o qual circulam notícias falsas e, naturalmente, chovem críticas sobre a sua existência. Miguel é claro sobre isso: «no ano passado foi bastante pior, porque o projeto nunca tinha acontecido e todos tivemos na dúvida se vínhamos ou não».

Tudo começou em Sintra, em janeiro, onde passaram alguns dias a conhecerem-se, com atividades de team-builing e a discutir o projeto. A primeira intervenção não tardou e nem precisaram de ir longe: plantar árvores em Pedrogão Grande. Seguiram para Granada (Espanha), onde lidaram com refugiados, pessoas sem-abrigo, mulheres vítimas de violência doméstica. Em Barcelona participaram apenas num workshop de artes e a aventura levou-os para Amesterdão (Holanda), também para trabalhar com refugiados. Voaram para a Croácia, onde participaram na recuperação de um centro de juventude numa «cidade pequena». Daquelas com um nome estranho. Miguel soletrou: «N-o-v-i M-a-r-o-f». Visitaram Zabreg, a capital, como parte do prometido lazer. «Depois fomos até à República Checa, Hungria, Roménia e agora estamos na Bósnia. Dormimos num hostel e passamos o dia num centro de juventude a lidar com crianças», conta o português, natural de Lisboa.

Miguel Brito diz-nos que a rotina do dia-a-dia é bastante diferente em cada cidade, sobretudo porque depende da organização com quem trabalham. Mas têm sempre alguém no terreno a orientar. Vão recebê-los ao aeroporto ou têm indicações dos transportes públicos que devem apanhar e para onde devem ir. Têm todas as despesas asseguradas: alimentação, alojamento, transporte. E, para a organização assegurar que cumprem o programa até ao fim, estão a receber mensalmente metade do ordenado (1.250 euros), «a tempo e horas». No final, é-lhe pago o montante total em falta.

«Em cada lugar onde estamos só fazemos cinco dias de trabalho voluntário. Quando estamos num centro para jovens sentimos que fazemos a diferença. Mas, por exemplo, quando plantámos árvores em Portugal, temos noção de que não salvámos o mundo», responde Miguel, questionado sobre a importância das intervenções. Acrescentando: «nós vamos publicando no Instagram e no Facebook o que fazemos e divulgamos sempre os projetos com quem trabalhamos. E temos, também, impacto com essa divulgação». Há depois a parte dos patrocínios e alguns são demasiado claros para o grupo, porque usam os produtos. Seja uma marca de sapatos ou o mesmo telemóvel oferecido a cada um. Depois, em cada cidade que visitam têm tours grátis ou dormem em hostels em troca de posts nas redes sociais do projeto.

A pergunta cliché surge só no fim: o que te levou a candidatares? Miguel admite que gosta de viajar, mas só passear não o conquistava. E interessou-se por este projeto que envolve a vertente social. «Por exemplo, estamos numa cidade da Bósnia onde nenhum turista vem». E volta a soletrar: B-r-č-k-o. Assim que terminou o Mestrado em Engenharia Aeroespacial lançou-se numa grande viagem, desde setembro até ao Natal. E nunca imaginou que fosse um dos escolhidos. Pôs fim a uma aventura para começar outra. «Viajei três meses antes de ir viajar durante um ano», diz em tom de riso.

Na Europa o trabalho está praticamente concluído: a última paragem é na Macedónia. Segue-se a Tailândia, o Vietname e a Malásia. Em junho têm três semanas para voltar a casa, antes de retomar tudo no México. «Vamos percorrer praticamente toda a América Central e a do Sul, para terminar no Rio de Janeiro em novembro».

Recomendações para novos candidatos? Miguel insiste para ninguém desistir a meio. «Alguns de nós não fomos selecionados à primeira, mas acabámos por conseguir graças à desistência de outros. E nenhum de nós aqui é blogger ou viajante profissional». A conversa alarga para o grupo presente na sala e todos concordam que não é preciso ter nenhum «currículo especial». Basta falar inglês, ajuda ter alguma experiência em voluntariado, mas não é preciso ser «incrível».

Antes de desligarmos, uma rapariga espanhola quer dizer umas palavras. «My name is America. I’m 26, from Madrid». Prefere falar em inglês para toda a gente perceber. E conta como tem sido um programa inspirador, mesmo que às vezes possam sentir que o impacto não é muito visível. Justifica que «é uma forma de chamar a atenção da sociedade; como pequenas ações para nós, podem contribuir muito para a vida de outros. Este projeto é um “call to action”. E, sim, está mesmo a acontecer».

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Texto de Nuno Mota Gomes

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