Ser Património da Humanidade desde há trinta anos é mais do que uma distinção. E valorizá‑lo não se faz apenas com manutenção, mas também criando memória. É, por isso, tempo de revisitar os locais de sempre, de lembrar o que foram, mas também de olhar para os novos espaços que estão a surgir. Porque o tempo não para. E Évora também não.

Texto de Marlene Rendeiro
Fotografias de Sara Matos/Global Imagens

Quando me dizem que gostavam de ver como seria Lisboa sem o terramoto, respondo sempre: «É vir a Évora», conta a guia Cira Camacho, no centro da Praça do Giraldo, o pulmão de Évora já dentro das muralhas. Em redor, as arcadas brancas, os edifícios antigos e baixos, deixam ver uma cidade que poderia ser hoje semelhante a Lisboa, em menor escala, caso a história se tivesse pintado de outros tons a 1 de novembro de 1755. E, mesmo em Évora, nem tudo o que parece antigo o é. «Este percurso, Évora Desaparecida, ajuda‑nos a desconfiar daquilo que vemos», continua Cira, com uma sacola de pano ao ombro, onde estão cartões com imagens antigas de vários pontos da cidade, retiradas de arquivos. Cada uma corresponde a uma paragem deste passeio, inaugurado pela empresa Compadres no ano passado.

E a primeira é precisamente na praça que homenageia Geraldo Geraldes, o homem que terá conquistado a cidade aos mouros. A guia revela os primeiros cartões, um dos quais mostra um edifício do século XX. «Hoje não existe, foi demolido, mas aqui ficavam os armazéns do Chiado, que na altura tinham loja em todas as capitais de distrito. Évora só voltou a ter centro comercial em 2017», explica, lembrando que a noção de património só surgiria décadas mais tarde. «A cidade era colorida no século XIX, mas o gosto tradicionalista e o Estado Novo levaram à destruição de fachadas modernas para as transformar em edifícios de traça antiga», recorda Cira, durante o percurso, que segue pelo interior da Cerca Velha.

Hora e meia de Évora Desaparecida chegam para conhecer histórias, recuar séculos e imaginar a atual Fundação Eugénio de Almeida como antigo Palácio da Inquisição e o mercado municipal como Paço Real. O momento mais importante é a chegada ao templo romano. «Dizer Templo de Diana é errado. Era a forma que as pessoas tinham de interpretar a história», vinca Cira, mostrando a próxima imagem. É o templo na altura em que funcionou como açougue.

Évora é muito mais do que o Templo romano e a Capela dos Ossos. Uma cidade onde não faltam boas desculpas.

 

Do antigo nasce novo

O antigo fórum, zona administrativa para os romanos e espaço eclesiástico durante os tempos da Inquisição, é, sobretudo hoje, polo cultural e mantém a sua importância na cidade. Além do templo, ali estão a Biblioteca de Évora, a Fundação Eugénio de Almeida, mas também a Pousada dos Loios, outrora um convento. Haveria dezenas em tempos, de todas as ordens religiosas. A maioria, desativados ou destruídos, alguns ainda habitados, e outros com diferentes vidas, como é o caso da antiga morada da Congregação dos Cónegos Seculares de São João Evangelista, gerida pelas Pousadas de Portugal.

Hoje dorme‑se nos Loios, mas também se come mais rápido ao almoço, desde que a nova carta foi lançada há um par de meses para facilitar a vida a quem não dispõe de muitas horas à mesa. O à Brás com lombo de bacalhau fresco, a pita de cabrito ou o hambúrguer de vitela mertolenga com cheddar e bacon são algumas das opções. Fecha‑se a refeição com uma tábua de sobremesas doces, disfarçadas de queijos, ideia da cozinheira autodidata Ana Ceriaco. O que aparenta ser um queijo fresco é na verdade uma pana cotta de baunilha, outro suposto queijo é, afinal, um doce cheesecake e até a broa é, na verdade, um bolo de canela.

A agilidade pede tréguas depois deste banquete romano na Pousada de Loios. Ainda bem que Miguel Mira, condutor e guia turístico da Top Emotions, está preparado para mostrar o resto da cidade em quatro rodas. Da frota fazem parte 28 automóveis clássicos, de uma antiga coleção pertencente ao seu avô. Pode escolher‑se entre um Heinkel Kabine, um Mercedes‑Benz 300 SL e um Ford V8 Roadster, mas é num Morris Minor que a viagem segue em versão descapotável até fora das muralhas.

A três quilómetros dali, Miguel mostra uma das melhores vistas da cidade. O Alto de São Bento, um miradouro onde terão vivido as primeiras tribos da região, tem ainda a companhia de moinhos desativados e do antigo Convento de São Bento de Cástris. Já a localização deste maciço granítico proporciona uma bela panorâmica do aqueduto de 18 quilómetros de comprimento e de Monsaraz, Reguengos e da serra de Ossa. A partir dali a viagem pode tomar qualquer rumo – tudo depende de quem segue no carro.

Miguel não só é disponível como conhece a cidade de olhos fechados. Ora aponta para a Pastelaria Violeta no prédio onde viveu Eça de Queirós – «aqui comem‑se as melhores queijadas» – ora revela os banhos romanos encontrados junto à câmara municipal, ou então chama a atenção para as várias sobreposições de pedra nos edifícios, reveladora das suas várias vidas.

Tamanho passeio pede igual descanso. Nem todos sabem onde fica o novo The Noble House, mas o nome Pensão Policarpo não é estranho a ninguém. Antes de se ter transformado no mais recente boutique‑hotel de Évora, o edifício do século XIV foi solar alentejano, propriedade dos condes da Lousã, e tornou‑se escola, antes de inaugurar como o primeiro hotel da cidade. Nos últimos cinquenta anos, deu lugar à pensão, acarinhada pelos eborenses e cuja imagem foi preservada pelo novo hotel.

Nos corredores do Noble veem‑se os puxadores das antigas portas da Policarpo, o chão de madeira centenário foi conservado e na cozinha valorizou‑se o teto abobadado com tijolo burro e a chaminé, antes escondida por um bar. A obra foi acompanhada por arqueólogos de forma a preservar o edifício com 24 quartos.

«Todas as divisões são diferentes e têm história própria», conta Cláudia Carvalho, diretora do mais recente hotel do grupo Unlock e o primeiro a ser criado de raiz. «Um dos quartos mais cobiçados é o Garden Suite, com terraço e uma parede que é muralha da cidade», adianta. Algumas divisões estão voltadas para o centro e para a planície alentejana, outras para a rua pedonal Conde da Serra. De um lado tem‑se a vista, do outro a alma da cidade.

 

Comer à grande e à alentejana

Os conventos, as igrejas em cada esquina… há tanto a visitar em Évora. Mas quem tiver estômago para o Alentejo pode facilmente passar um dia envolto na gastronomia. Os restaurantes de sempre, que oferecem o que é bom e tradicional, continuam nas mesmas moradas, mas há novos tachos e rostos para conhecer nos últimos anos. Como o do chef Gonçalo Queirós e da mulher, Eugénia, cujo restaurante Origens passou a integrar o Guia Michelin como Bib Gourmand («refeições cuidadas a preços moderados») em 2017. A sala é pequena e a cozinha aberta, o que permite ir observando o chef do Barreiro, que fez grande parte do seu percurso no Alentejo. Bica do Sapato, Tavares Rico, M’Ar De Ar Hotel Aqueduto, L’and Vineyards e o restaurante Picante, no Dubai, foram algumas das cozinhas por onde passou, antes de abrir o seu próprio espaço.

Cozinha de autor, gelados e pastéis de nata são algumas das novas especialidades a conhecer em Évora.

A ideia é partilhar os pratos que respeitam a sazonalidade dos produtos da região. «Vinhos só alentejanos», explica Eugénia, enquanto chega à mesa a açorda de cação. Os coentros em gelatina derretem assim que o caldo quente rega o prato. O bacalhau assado, com puré de beterraba, leva também gelatina de vinho tinto, produzido com as uvas de um vizinho. Naquela que é a sétima carta do restaurante, desde que abriram há um ano, está também o javali do montado, um prato em que a carne desfiada é marinada 24 horas em vinho tinto.

De nova cozinha alentejana também se faz o espírito da Enoteca Cartuxa, pertencente à Fundação Eugénio de Almeida. Abriu há um ano e o espaço funciona como garrafeira, mercearia e restaurante, com margem para se petiscar a preços simpáticos ou mesmo fazer uma refeição grande. A sala principal é convidativa e por detrás do balcão estão as referências dos vinhos Cartuxa. A incontornável açorda de alho está no menu, tal como as migas de espargos que acompanham lombinhos de porco em vinha d’alhos e as bochechas com pimentão, cogumelos e farofa.

 

Pastéis de nata no Alentejo?

O inverno não parece ter causado grande dano ao negócio que Inácia Junça abriu em maio de 2015, na Rua Alcárcova de Cima. Mesmo na estação mais recolhida chegam a sair quinhentos gulosos pastéis de nata todos os dias. «Nunca pensei que alguém me fosse dar dinheiro por alguma coisa que eu fizesse», diz, com um sorriso, a proprietária da Fábrica de Pastéis. Foi apenas há sete anos que se lançou numa brincadeira caseira.

Fechou a creche infantil que tinha na cidade e tratou de desempoeirar um velho livro de culinária oferecido por uma tia, a começar pelos pastéis de nata. Muitas tentativas depois, saíram os primeiros «perfeitinhos», seguidos por muitos outros que Inácia havia de levar para Espanha. Fizeram sucesso além‑fronteira, mas a vontade de estar perto dos filhos ditou o regresso ao Alentejo, de que não se arrepende. Contaram‑lhe mais tarde que um convento dedicado a Santa Catarina, não muito longe dali, teria feito em tempos uns pastéis de massa folhada semelhantes aos seus, com nata. «Acabei por afinar a receita», conta. A fama dos pastéis condiz também com a da charmosa cafetaria‑fábrica, incorporada na muralha da cidade.

Descendo à Arcárcova de Baixo (antigo fosso da muralha) encontra‑se também outra fábrica, que nasceu no último ano. Tudo começou com um excedente de fruta e um carrinho de gelados ambulante. O casal Helena e Luís Patrão pouco sabiam de gelados antes de começarem, mas o sucesso ditou que investissem em formação. Hoje, a Fábrica dos Gelados tem loja própria durante o ano inteiro e é nas traseiras que Helena se dedica a testar os diferentes sabores, com leite fresco. Até hoje, já experimentaram mais de 135. Das experiências mais populares nasceram os sabores de castanha com chocolate, sericaia com ameixa ou bolota com alfarroba.

E se os gelados derretem como souvenir, tal não acontece com os produtos da Tou c’os Azeites e os da The Bakery Lounge, dois espaços que chegaram a Évora nos últimos anos. O primeiro, mais recente, é um projeto de Renata Carvalho. As principais referências na sua loja são alentejanas e transmontanas, mas além do líquido dourado encontra‑se azeite para barrar, compotas e crocantes com o ingrediente, queijos em azeite e até sabonetes.

Umas ruas acima da Alcárcova está também o The Bakery, padaria‑cafetaria de aspeto nórdico. É um negócio familiar, que envolve irmãos e uma mãe a comandar a cozinha, de onde saem pães, bolos, bruschette, pratos do dia e as «meninas da casa»: empadas alentejanas. «A massa é estaladiça, a galinha é desfiada à mão, tudo caseiro», diz Rui Ramos. Como sabe bem o moderno com o sabor do antigo.

Fim de semana em Portugal
apoiado pela revista Evasões

Onde dormir

The Noble House
Quarto duplo a partir de 75 euros (pequeno-almoço incluído)
Rua Freiria de Baixo, 16-20
Tel.: 266247290
Web: unlockhotels.pt

 

O que visitar

Rotas Compadres
Marcações: compadres@spira.pt
Preço: a partir de 15 euros
Ponto de encontro: Praça do Giraldo ou Ervideria Wine Shop
Web: rotascompadres.pt

Top Emotions
Passeios guiados em carro clássico a partir de 40 euros
Tel.: 918135669

 

Onde comer

Restaurante da Pousada Convento de Évora
Das 13h00 às 15h00 e das 19h30 às 22h00.
Não encerra. Preço médio: 35 euros
Largo do Conde de Vila Flor
Tel.: 266730070
Web: pousadasdeportugal.com

Origens
Rua de Burgos, 10
Tel.: 964220790
Das 12h às 15h00 e das 19h00 às 22h30.
Encerra ao domingo e à segunda.
Preço médio: 30 euros

Enoteca Cartuxa
Das 10h00 às 22h00. Domingo, até às 15h00. Não encerra.
Preço médio: 25 euros. Vinho a copo a partir de 2 euros
Rua Vasco da Gama, 15
Tel.: 266748348
Web: cartuxa.pt

Fábrica dos Gelados
Preço: gelados a partir 1,95 euros
Rua Alcárcova de Baixo, 29
Tel.: 266705681

Fábrica dos Pastéis
Das 10h00 às 21h00. Encerra segunda.
Preço: Pastel de nata a 1 euro
Rua Alcárcova de cima, 10
Tel.: 266098424
Web: facebook.com/fabricadospasteis

 

Comprar

Ervideira Wine Shop
Negócio familiar de vinhos desde 1880, cuja loja no centro de Évora abriu em 2014. Neste espaço é possível comprar e provar os vinhos Ervideira
Das 11h00 às 19h00. Não encerra.
Provas a partir de 2,50 euros (4 vinhos)
Rua 5 de outubro, 56
Tel.: 266700402
Web: ervideira.pt

Tou C’os Azeites
Das 11h00 às 19h00. Segunda, abre às 15h00. Encerra ao domingo.
Rua Alcárcova de Baixo, 51

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