Carolina Matos sempre trabalhou em investigação científica e no estudo da malária. Quando ficou sem bolsa, não desistiu de encontrar a vacina para a doença, mas foi por outros caminhos: pôs a mochila às costas e viajou até encontrar lugar para continuar a estudar.

Texto de Bárbara Cruz

Quando lhe perguntavam o que queria ser quando crescesse, Carolina Matos, hoje com 35 anos, nunca tinha resposta certa. «Passou‑me pela cabeça ser bailarina ou até talhante», confessa. No entanto, sempre gostara da natureza, de ler «os livrinhos com curiosidades sobre biologia», de ver os programas sobre vida selvagem na televisão. Quando chegou à altura de escolher o curso superior, decidiu‑se pela biologia, inspirada pela paixão que demonstrava nas aulas o último professor que tivera da disciplina. Mais tarde, veio o interesse pelo estudo da malária.

Já tinha estado em Angola, país natal dos pais, e ouvia sempre o aviso: «Cuidado com a malária.» No final do curso, que tirou na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, fez um estágio em investigação científica e ficou rendida. «Um pouco como viajar, investigar é ir à descoberta», sublinha. «O próximo passo era fazer um doutoramento, Sabia que havia alguns grupos em Portugal a estudar a malária. Contactei alguns e acabei por ficar num deles a estudar a fase da infeção do fígado.»

A par da formação académica e percurso profissional, Carolina ‑ uma lisboeta que se mudou para o Norte, mais precisamente para Vila Nova de Gaia ‑ nunca deixara de viajar. Primeiro com a família, sempre em períodos de férias, depois de forma mais autónoma. «Considero a minha primeira grande viagem aquela em que consegui juntar dinheiro para pagar. Fui a Florianópolis, no Brasil. Queria muito visitar uns tios que vivem lá. E sabia que era lindíssimo. Não me desapontei.»

Durante o doutoramento, que fez na Universidade Nova de Lisboa, tirou cursos especializados e foi a congressos em países que nunca pensou conseguir visitar, nomeadamente a Austrália ou a África do Sul. Concluídos os trabalhos, não hesitava: deixava os luxos de parte e punha a mochila às costas para conhecer mais um pouco.

Admite que não decidiu deixar tudo para viajar, «simplesmente aconteceu. Mas olho para trás e ainda bem que o fiz».

Carolina Matos é apaixonada pela natureza e por viajar. O estudo da malária juntou as duas paixões e foi motivo de muitas viagens.

Mas, no ano passado, tudo mudou. Tornou‑se viajante por «força das circunstâncias», confessa. As viagens, que tinham sido sempre um plano B, passaram a plano A quando ficou sem bolsa e a dar voltas à cabeça sobre o que queria fazer a seguir. «Achei que seria boa ideia sair de casa, pegar no dinheiro que tinha de parte e ir, conhecer pessoas novas com outras perspetivas e com outros estilos de vida, em vez de ficar em casa a bater com a cabeça nas paredes.»

Admite que não decidiu deixar tudo para viajar, «simplesmente aconteceu. Mas olho para trás e ainda bem que o fiz». Foi quase sempre sozinha e garante que gostou assim. «Conhecemos mais pessoas, fazemos o que queremos, quando queremos. Se estamos bem num sítio ficamos, se estamos mal vamos embora. Estamos muito mais atentos ao que nos rodeia.»

Andou por África, América, Ásia. Passou três meses na Tanzânia, que recorda como um «país incrível», e no Peru passou por uma das peripécias que «foram más mas se tornaram maravilhosas». Estava numa vila pequena e perdeu a carteira, com cartões e dinheiro. Expulsaram‑na do hostel onde estava a dormir porque não acreditaram que pagava no final. «Como era fim de semana, a única loja com Western Union estava fechada e porque não tinha dinheiro não podia pagar o transporte para a próxima vila, que ainda era longe. Fui até ao mercado local, onde tinha feito uma amiga que servia almoços e onde tinha ido almoçar nos últimos três dias. Contei‑lhe o que me tinha acontecido e ela abriu‑me as portas de casa.» Acabou por ajudar a peruana no negócio e foi recebida «como uma filha». «Quando finalmente recebi o meu dinheiro fizemos uma grande almoçarada. Hei de lá voltar para a visitar», assegura.

Regressou a Portugal durante dois meses porque decidiu entretanto que queria continuar a fazer investigação e escreveu, em conjunto com um investigador na Alemanha, um projeto para apresentar a duas agências de financiamento europeias. «Tem que ver com o desenvolvimento de uma vacina para a malária que, apesar de muitos esforços, ainda não existe», revela. Mas como as respostas tardam em chegar, voltou a pôr a mochila às costas, já com planos para ultrapassar o orçamento limitado de que dispunha. «Como o meu orçamento para viajar é muito baixinho, pensei que se ficasse apenas num sítio sairia mais barato. Em viagem gasta‑se sempre mais. Achei também que seria bom tentar fazer novos contactos, caso a resposta às bolsas seja negativa. E aprender coisas novas.»

Começou a enviar e-mails para institutos asiáticos que pertencem à Universidade de Oxford, em Inglaterra. «Para minha boa surpresa, aceitaram‑me no Laos, onde já me encontrava. E vão ajudar com as despesas. Está a ser muito bom porque a equipa é fantástica e fazem uma investigação um pouco mais aplicada e diferente daquela a que estava acostumada», conta. «Aprendemos a lidar com dificuldades que em países desenvolvidos não existem e isso dá‑nos outro traquejo. Por exemplo, aprendemos a planear muito melhor a nossa investigação, porque os reagentes não estão ao virar da esquina.»

Não planeia ficar no Laos para sempre, até porque quer continuar a desbravar mundo, sem esquecer os planos da vacina para a malária. «Mas se for aqui que valorizam o meu trabalho, é aqui que vou ficar», garante. Entretanto, aceitou também tornar‑se guia de viagens na África e assegura que a pausa para viajar tem dado frutos: «Reaprendi a gostar de coisas
que tinham ficado esquecidas. Se o futuro não passar pela investigação, pelo menos reaprendi a ter outros interesses que estavam na gaveta», conclui.

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