O caminho de Jericó até Taybeh é um dos mais belos que alguma vez percorri. Começa a galgar-se a estrada 258 metros abaixo do nível do mar (Jericó é a cidade mais baixa do globo) e sobe-se um caminho de contracurvas até se chegar a 850 metros de altitude, atravessando uma paisagem seca e lunar, ocupada por pequenas aldeolas com meia dúzia de casas e rebanhos de cabras que têm mais sorte se vasculharem o lixo do que se procurarem algum tufo de erva.

O trilho de alcatrão é inclinado e, às vezes, atrás de uma curva ou por detrás de um monte de terra, aparece um miúdo a acenar. As terras a poente do rio Jordão são território beduíno, então estes miúdos têm a pele mais escura do que os restantes palestinianos. Povo historicamente nómada e discriminado, bandidos do Levante que costumavam ganhar a vida a assaltar as caravanas do deserto e hoje vivem do gado.

«São o fundo da escala social», conta-me Ahmed, o motorista jordano que me trouxe por este caminho, garantindo-me que hoje eu ia ver um dos mais belos pedaços do planeta. «Se viessem adultos acelerava, de certeza que queriam assaltar-nos. Mas com os miúdos não há problema», e dizendo isto abrandou a marcha e estacionou mesmo ao pé de um dos pequenos pastores que tinham assomado no alcatrão.

Um atentado, pensei imediatamente, e, por instinto jornalístico, saquei do telemóvel para fazer fotografias. Ahmed baixou-me o braço: «Guarda isso, é perigoso.»

O garoto parecia-me não ter mais de 7 anos, mas Ahmed falou com ele, tinha 12. «Comem pouco, os beduínos são muito pobres e não crescem.» O rapaz ria-se e expressava-se numa algaraviada que eu não entendia. Percebi ainda assim que falava dos dias em que os soldados entravam na aldeia, porque pegou no cajado e usou-o para imitar uma metralhadora. Só não consegui entender se se referia a tropas israelitas ou palestinianas – os beduínos são renegados por ambos.

Quando saímos dali dei por mim a pensar no miúdo que fez do cajado metralhadora. Perguntei aos meus botões se aquele não seria um sinal da violência banal com que se vive diariamente na Palestina – e de como ela se tornou tão constante e incontornável que toda a gente a assume como dado adquirido, parte dos dias tranquilos. Então, nesse preciso momento, Ahmed travou a fundo.

Estávamos ainda a uma dezena de quilómetros do checkpoint que marca a fronteira com Israel. Dois camiões da polícia israelita bloqueavam a estrada – e às duas ambulâncias que já ali estavam juntava-se uma terceira, que se anunciava ruidosa nas nossas traseiras. Um atentado, pensei imediatamente, e, por instinto jornalístico, saquei do telemóvel para fazer fotografias. Ahmed baixou-me o braço: «Guarda isso, é perigoso.»

Um polícia que fazia guarda na estrada aproximou-se dos carros. Trazia a tiracolo uma metralhadora, e esta não era um cajado como o que o miúdo beduíno tinha usado há uma dúzia de minutos. Estávamos mesmo ao lado de um colunato judeu, e eu sabia que os atentados ali não eram coisa desconhecida. Ainda para mais, Netanyahu tinha sido reeleito há dois dias, prometendo anexar novos territórios da Cisjordânia a Israel.

Convencido de que estava na primeira fila do início de uma nova Intifada, abri o vidro da carrinha e perguntei ao polícia o que se passava. Ele olhou-me com arrogância, cuspiu para o chão e respondeu simplesmente: «No big deal.» Mas devo ter feito uma cara de tamanha incredulidade que ele acabou por me destruir a inquietação: «É só uma corrida de bicicletas, mais meia hora e voltamos a abrir a estrada.» Assim foi, e o resto do percurso cumpriu-se tranquilo e sem incidentes. Até pode ser verdade a tal banalização da violência na Palestina, mas naquele preciso momento eu aprendi uma lição que não esperava: a dos seus dias tranquilos.

Ricardo J. Rodrigues, jornalista do Diário de Notícias


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