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Quando lhe perguntam o que faz na vida, tem várias respostas. Depende de quem pergunta e se o reconhece ou não, mas depende também do que lhe paga as contas na altura. Já foi administrador da RTP. Já foi apresentador do Eixo do Mal. Continua a ser empresário, mas o que prefere hoje em dia é «artista de variedades» como escreveu numa crónica do Diário de Notícias há pouco tempo. Autor de dezenas de argumentos e várias peças de teatro, já coordenou centenas de horas de ficção na televisão portuguesa e por ele já passaram algumas das melhores piadas que repetimos até à exaustão. Herman Enciclopédia, Contrainformação, Paraíso Filmes ou Os Contemporâneos são algumas das pérolas que levam o nome dele. Mas também o Inimigo Público e claro o Canal Q e as Produções Fictícias, que fundou há vinte anos, quando decidiu deixar de ser professor de português. Além de tudo isto, Nuno Artur Silva é também um viajante.

Entrevista de Cláudia Arsénio e Paulo Farinha

Já teve ideias para alguma piada ou sketch pelo que viu numa viagem?
De certeza que sim. Aliás, eu gosto muito da ideia de quando estou a viajar não estar a pensar em nada, o que significa que qualquer coisa pode aparecer. Eu diria até que, mais do que coisas de humor, o que aparecem são ideias para outras coisas. Para histórias, sobretudo.

E depois consegue desenvolvê-las, quando se senta em frente a um computador?
Normalmente são anotadas no que estiver à mão. Quase sempre no bloco de notas. Eu sou daqueles que anda sempre com o lápis e o bloco de notas.

Diz que prefere viajar para cidades. Quando lá chega, gosta de planear percursos ou prefere a perder-se?
Sem dúvida que prefiro perder-me. Eu não sou um viajante naquele sentido dos apaixonados pela viagem. Eu sou apaixonado pela ideia de viagem. Eu gosto da ideia de viajar, mas depois tenho uma espécie de comodismo, creio eu. Não gosto de planear nada. Gosto só de saber para onde é que vou, na generalidade, e depois, se possível ficar no sítio tempo suficiente para me perder. Aliás, acho que a melhor maneira de conhecer uma cidade é perdermo-nos nela e isso eu gosto de fazer.

Quanto tempo, habitualmente, gosta de dedicar a um sítio? Tendo esse tempo disponível, claro.
Há um a. c. e um d. c. Antes de crianças e depois de crianças. Antes de ter crianças, e sempre que era possível fazer férias, eu gostava de estar pelo menos uma semana no mesmo sítio. Pelo menos. E depois deixar-me ir, um pouco ao sabor do acaso. Acho que o acaso é o melhor guia. Idealmente uma a duas semanas, acho que é o tempo bom para se estar numa cidade que não se conhece. E depois aí sim, partir para outra.

Uma das cidades preferidas nas suas viagens foi Havana. Correspondeu às expectativas?
Eu fiz duas viagens a Cuba e tive sentimentos contraditórios. Cuba representa para mim aquilo que no mundo tinha tudo para correr bem e acabou por correr mal. Não por culpa das pessoas que lá vivem, mas, por culpa das circunstâncias políticas. A culpa do Estado a que chegou Cuba é de facto, ainda, das duas potências. E o tempo da Guerra Fria. E nunca mais saímos disso, do facto de aquilo, apesar de toda a abertura, ainda ser uma ditadura. Por outro lado, quando finalmente havia condições para abrir, voltar a ter o bloqueio dos Estados Unidos. E agora também a situação na Venezuela. Acho que é uma extrema injustiça para os cubanos. Eu sempre senti, quando lá estive, essa dupla sensação: que país extraordinário, que pessoas tão delicadas, tão doces e com uma maneira de falar o espanhol que me agrada particularmente, com música… Tudo o que aquilo poderia ser e o que aquilo não foi, quer por circunstâncias de ter que se ter defendido do exterior com um regime autoritário, quer pela próprio bloqueio permanente à ilha que faz com que não chegue lá nada do mínimo indispensável. Portanto, sempre me pareceu um case study, em que convergem ali de uma série de sentimentos contraditórios. E tudo aquilo é muito visual: os carros dos anos 50, a mistura de colonialismo espanhol com comunismo soviético, a pressão americana de Miami ali mesmo, com o bafo em cima. E tudo aquilo, e com aquela música, acho muito interessante mas não posso dizer que seja um país feliz.

Foi uma viagem que fez antes das crianças ou depois?
Fiz antes das crianças.

E depois de ter sido pai, mudou a sua forma de viajar, de pensar no próximo destino…?
Neste momento, sim. As viagens estão sempre condicionadas a ter de levar as crianças, portanto os destinos não são propriamente aqueles que eu gostaria mais individualmente.

Sei que Nova Iorque é outro dos seus destinos de eleição. Já levou as crianças a Nova Iorque?
(risos) Ainda não. Já fui várias vezes a Nova Iorque. Na América, as duas cidades que me agradam mais, à partida, são Nova Iorque e São Francisco. Estive em São Francisco há pouco tempo e já tinha estado em Nova Iorque. È aquela cidade que já se conhece mil vezes dos filmes e das séries e das canções. Ir a Nova Iorque é uma estranha sensação de reconhecimento. É uma sensação de deja-vu. Sentimo-nos dentro de filmes que já vimos e imagens que já reconhecemos. E depois Nova Iorque tem aquela movida permanente, o que é extraordinário e isso agrada-me imenso. Aquela ideia de haver sempre coisas a acontecer. Há muita coisa em permanência e vibra ali um grande coração plural da civilização contemporânea.

Em Nova Iorque, uma das coisas que está sempre a acontecer em permanência são as gravações de programas de televisão conhecidos, como o Tonight Show, o Daily Show e por aí fora. Já foi assistir a alguns?
Quando estive na RTP tive ocasião de visitar inúmeros estúdios onde se fazem sérias e estive em vários visionamentos dessas grandes companhias, em Los Angeles, mas acabei por nunca ver nenhum programa a ser feito. Nem Conan O’Brien nem Jay Leno, nenhum desses… Mas pronto, a mística dos lugares, as peregrinações que se fazem a sítios que nós reconhecemos do audiovisual, isso é verdade. Há uma certa graça, é um bocadinho a Disneylândia para adultos.

E gosta de comprar recordações.
Não. Prefiro ficar com objetos aleatórios, Às vezes podem ser clichés turísticos, sim, que se guarda só porque sim, mas eu gosto mais de recolher coisas inesperadas que são sinais… Coisas de um restaurante, um guardanapo anotado, qualquer coisa assim. São mais parte do roteiro pessoal do que propriamente do roteiro turístico.

Já foi a algum sítio porque foi lá gravada uma comédia em particular?
Não, eu não sou assim tão obcecado. O destino literário é importante. Quando fui a Atenas e às ilhas gregas, por exemplo, aí sim, senti que estava a visitar sítios que eram fundadores da nossa cultura, da nossa civilização. Lembrei-me imenso dos poemas da Sophia de Mello Breyner Andresen, aqueles terraços brancos, aquela idealização da cultura helénica, da cultura grega. Isso eu gostei muito quando fiz essa viagem. Mas o que me fascina muito são as pessoas mais do que tudo. A coisa melhor para mim é estar sentado num café ver quem passa. Em Marraquexe, por exemplo, a praça Jemaa El Fna tem aquele café lá em cima – onde houve um atentado há uns anos [café Argana]. Estar ali e ver a fantástica diversidade humana, isso eu gosto muito. Claro que ali é mais exótico para nós, europeus, mas gosto muito dos cafés nórdicos – e gosto muito das sociedades escandinavas e do ritmo deles e da qualidade dos cafés deles.

Já visitou algum desses países?
A Dinamarca conheço bem, por questões pessoais e familiares. Casei com uma dinamarquesa e vou regularmente a Dinamarca. É um dos meus países.

É um país feliz, como costumam dizer os rankings.
É muito difícil medir a felicidade, mas genericamente é um país feliz e eu acho que há uma certa cultura de sair. Muito mais às vezes de que nós, latinos, que temos um clima mil vezes melhor que o deles. Eles estão sempre fora a fazer desporto, a andar de bicicleta. Nos parques, nos jardins, mesmo quando o tempo é adverso. A andar em bicicleta em fatos Armani para irem a reuniões no escritório. Gosto muito disso e dessa ideia de cultura de cafés que eles têm. Acabam de trabalhar cedo, depois encontram-se nos cafés a ou em sítios com jardim. Os dinamarqueses são conhecidos como os italianos do norte, os latinos do norte. Se calhar é um pouco verdade.

Gosta de pessoas e gosta de ver pessoas. Que ideia tem das pessoas na Polinésia, um dos seus destinos de sonho?
Quando me perguntaram sítios onde gostava de ir e ainda não fui, pensei numa lista extensa. Se tivesse que escolher um país seria o Japão. Tenho fascínio por aquela cultura, que mistura meditação e eletrónica parafernália. Por outro lado, a Polinésia Francesa, aquelas ilhas do Pacífico, com os recife de coral e aquela cor do mar. Lembra-me o Gaugin, que se exilou lá, e depois mais tarde o Jacques Brel. Se eu pudesse, o que eu escolheria fazer não era fixar-me numa ilha, mas antes ter um barco e passear por ali, nos nossos antípodas e naquela tranquilidade marítima, com aquele céu absolutamente inacreditável – que eu imagino, porque eu nunca lá estive. Mas gostaria muito, seria uma viagem de sonho, de veleiro entre as ilhas da Polinésia Francesa.

Oiça aqui a entrevista, emitida pela rádio TSF.


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