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Nasceu em Moçambique em 1970 e aos cinco anos viajou para Portugal com os pais, fixando-se no distrito de Leiria. Aos 11 apresentou-se em palco pela primeira vez com um espetáculo de magia composto de apenas um número – era o que sabia na altura. Depois vieram os festivais, os concursos, a engenharia agrícola, a televisão, os prémios e a notoriedade. A um ano de completar 50, é o mais internacional dos ilusionistas portugueses, um dos mais premiados no mundo. E não para quieto, viajando por todos os continentes e deixando milhares de pessoas com a boca aberta de espanto.

Por Cláudia Arsénio e Ricardo Santos

Boa tarde, Luís de Matos. Ainda tem um mapa-mundi no escritório em que marca todos os locais onde já deu espetáculos?
LM – Olá, boa tarde. Absolutamente, absolutamente. Sempre tive um mapa-mundi em todos os meus escritórios e finalmente tenho um em que o mapa corresponde a uma das paredes, porque como tive o privilégio de poder desenhar o próprio estúdio em que trabalhamos e a zona de todo o equipamento, resolvi desenhá-lo à medida do mapa que eu sabia que ia ficar bem ali. Sim, é uma parede inteira.

Já acrescentou muitas cidades este ano?
LM – Este ano não acrescentei 23, que foi aquelas que visitei até agora, mas terei acrescentado 19, porque já tinha estado em algumas delas, mas sim, em permanente atualização.

Faz uma contabilidade dos locais onde já esteve? Tem uma lista, uma folha Excel, se calhar…
LM – Sim, tenho muito a mania das folhas Excel. Faço quase tudo na vida em Excel, mas não tenho atualizado a folha. Fá-lo-ei um destes dias,só que não tive oportunidade até agora. Como o mapa permite essa atualização bastante mais gráfica, visual e entusiasmante, tenho me ficado só pelo mapa.

Mas também viaja em lazer. Quando o faz é um viajante organizado ou gosta de ir com uma postura mais descontraída, à descoberta?
LM – Tenho sempre uma postura descontraída e sempre à descoberta, mesmo quando estou a trabalhar em coisas sérias, porque essa é a maneira de, enfim, mantermos o estímulo, a curiosidade e a excitação que é, para já, acordar, que é uma coisa extraordinária e perceber que estamos vivos. Cada dia que se acorda é uma oportunidade imensa que temos para crescer, para aprender e para fazer a diferença. Eu sinto isso, sinto isso há muitos anos e continuo a sentir e entusiasmo-me bastante, mas sim viajo em lazer não tantas vezes quanto gostaria. Se calhar também porque associo imenso o viajar a trabalho e portanto acaba por já não haver aquela novidade, o «Uau, já só faltam 22 dias para fazermos aquela viagem de avião». Não, esse fascínio desvaneceu-se um bocadinho, mas sim, viajar em lazer é sempre bom porque a atitude obviamente é diferente, ligeiramente, pelo menos.

Depois de ter estado em todos os continentes, e em muitos países do mundo, a viagem que lhe falta é o quê? Ir à Lua?
LM – Sim, adorava ir à Lua. Adorava mesmo, mesmo ir à Lua. Para já, por várias coisas. Primeiro, porque pertenceria a um grupo mais ou menos restrito e, portanto, há poucas pessoas que possam contar essa história. E adorava porque sou uma pessoa muito curiosa e tenho uma enorme curiosidade também a esse nível. Isso por um lado. Por outro também acho que muitas vezes faz-nos bem ter uma perspetiva longínqua das nossas realidades e se isto é válido no nosso dia-a-dia, nas coisas mais vulgares, onde às vezes elas se resolvem e têm um aspeto diferente, basta que nos afastemos ligeiramente para ver um bocadinho em perspetiva. Acho que esta noção de poder espreitar pela janela e ver o planeta Terra é algo que gostava muito de um dia poder fazer.

Mas neste planeta ainda há lugares mágicos?
LM – Há! Todos são mágicos, depende de quem é que lá está. Por isso mesmo, depende não só de quem lá está, mas depende de todos e cada um de nós. Depende da forma como olhamos o que está à nossa volta, como humildemente aprendemos com o que está à nossa volta, com que questionamos o que está à nossa volta e, obviamente, também a forma como podemos interagir, influenciar, mudar e contribuir para que o dia de amanhã seja um bocadinho melhor do que o dia de hoje, com certeza.

Uma das viagens que destaca foi à Nova Zelândia. O que é que torna a Nova Zelândia tão mágica?
LM – Estive na Nova Zelândia várias vezes, fiz espetáculos em Auckland, mas houve uma altura em que tinha que fazer um espetáculo em Auckland e, passado uma semana, uma outra série de espetáculos na Gold Coast, na Austrália. E em vez de vir para casa e voltar, propus ao promotor que nos levava ficar por lá. Ele ficou muito contente, porque evitava ter que transportar a equipa para o outro lado do mundo e, de novo, para aquelas paragens, e resolveu premiar esse aligeirar dos seus gastos, como é evidente. «E então, onde queres ficar? Queres ir depois de Auckland já para a Austrália ou ficar na Nova Zelândia?» E eu disse: «Para já, nos últimos três anos estive cinco vezes na Austrália e vi o principal». Nova Zelândia não tinha conhecido muito e disse-lhe para escolher. Isto de alguma forma entusiasmou-o e acabaria por ter proporcionado a mim e à minha equipa quatro dias absolutamente inesquecíveis em Queenstown, que eu acho que é verdadeiramente o paraíso, além de que há uma zona de Queenstown que se chama mesmo Paraíso. Acho que é um paraíso porque temos todas as estações do ano, temos uma cidade extraordinária onde existe apenas um semáforo, onde não há polícia, onde há desde a tasca até à loja Apple, onde há de tudo, de facto, e onde há uma qualidade de vida inacreditável. Escusado será dizer que, em termos de beleza natural, foi o que serviu de cenário aos filmes do Peter Jackson, Senhor dos Anéis, e portanto foi maravilhoso. Na altura fiz uma espécie de contabilidade: se estiver aqui 20 dias e se todos os dias fizer três coisas diferentes, ao longo de 20 dias nunca vou repetir. E as três coisas diferentes são bem diferentes. Pode ser aterrar de helicóptero no cimo da montanha com neve ou pode ser descer em carrinhos de rolamentos uma encosta a passar por um rio e seguir para outro lado. São, de facto, atividades muito diferentes. É uma população que faz com que se veja imensos carrinhos de bebés e imensos casais de terceira idade a ampararem-se um ao outro a passear. Não tem nada de mal, aquele bocadinho de mundo. E tem um aeroporto internacional, portanto é perfeito, é extraordinário.

Outro dos destinos que escolhe, ou que gosta de referir quando lhe pedem os locais que lhe deixaram marcas mais fortes, é a República Dominicana, Samaná. Por alguma razão em especial além daquela praia fabulosa?
LM – Samaná, com certeza- Há uma ilha, que é Cayo Levantado, que é mesmo isso. É uma ilha e não há muito mais à volta. Mas não é preciso haver muito mais. Não é seguramente um dos destinos que aparecem nas vitrines das agências de viagens. Normalmente quando se fala de República Dominicana, fala-se de outras paragens. É muito invulgar, acho que não conheci ninguém até hoje que estivesse estado em Samaná, naquele mesmo local, mas não me canso de dizer que é, de facto, absolutamente paradisíaco e que, para desligar, aquele é o sítio que de facto recomendo.

Há um comercial muito famoso de um rum que foi gravado nessa ilha, justamente pela beleza natural.
LM – É inacreditável, inacreditável. Toda a gente deveria ir pelo menos uma vez na vida a Samaná.

Com tantas viagens, isso implica também muitos aeroportos, muitas alfândegas. Com o equipamento da magia, alguma vez teve algum episódio caricato?
LM – Tenho quase sempre porque, mesmo que seja só na minha mochila, que é um bocadinho Sport Billy, tenho lá de tudo, tudo o que é preciso, algumas ferramentas em plástico, que é para não apitarem, mas há um aspeto curioso que é difícil de ultrapassar: os baralhos de cartas. As pessoas não sabem, mas cada carta de jogar é composta por três camadas de papel: aquela onde está impressa a face da carta; a camada em que está impresso o dorso da carta; e há uma camada central muito fina que é de carbono e é absolutamente opaca. O que quer dizer que, cada vez que eu tenho baralhos de carta na mochila (e tenho mais do que um habitualmente), eles não sabem o que fazer. Aquilo parece simplesmente um paralelepípedo altamente suspeito feito de qualquer coisa que eles não conseguem identificar, porque provavelmente é uma caixa de carbono que esconde no seu interior alguma coisa maquiavélica, mas depois passa sempre… ah, um baralho de cartas.

Então se o virmos numa fila para detetor de metais, é melhor mudar porque já sabemos que vai demorar um bocadinho.
LM – É provável que sim, se bem que eu acho que quando fazemos várias viagens acabamos por mecanizar, às vezes até nos começa a irritar as pessoas que perguntam «tem líquidos?» A gente já sabe tudo, já sabe que é para tirar isto, para pôr assim e assado, mas pronto, como estão a fazer o seu trabalho, nós fazemos a nossa parte também. Agradecemos e cumprimos as regras, como é evidente. Há um único sítio onde claramente é bastante incomodativo, não sei porquê, mas é assim. Nos EUA nós somos sempre tratados como terroristas e a forma como se pergunta é sempre altamente inquisitória e suspeita, mas pronto é só responder, não tem mal nenhum. Daí a um bocadinho já passamos e estamos no free shop e na porta de embarque.

E é um destino para onde viaja muito?
LM – Sim. Ultimamente menos, acho que a última vez que estive lá foi há dois anos, mas sim, é onde tenho muitos amigos e onde gosto de ir regularmente.

Uma das melhores viagens continua a ser o regresso?
LM – Claro que sim. Acho que é tão bom partir quanto regressar, porque as duas coisas dão significados mútuos a cada uma delas. Se não se partir não se sente o prazer de regressar, se não regressarmos não sentimos a aventura de partir. No meu caso, é altamente entusiasmante porque vou combinando essas emoções com a minha própria atividade. Se eu recuar a janeiro deste ano, claro que quando embarquei – estreámos a nossa digressão europeia na Bulgária, em Sófia, e regressámos em junho, foram 23 cidades non-stop e correu muito bem, foi extraordinária – tinha até ao final do ano para preparar o regresso com o espetáculo novo ao Tivoli, ir a Coimbra a Faro e isto dá ainda um significado mais extraordinário ao regresso. Além de que obviamente é ver a família, ver o cão e dar valor – acho que é muito importante. Se não tivermos comparação, não damos valor a certas coisas. Estar ligeiramente afastado algum tempo faz com que também sintamos um prazer imenso em rever as coisas que, na verdade, são nossas.

Oiça aqui a entrevista, emitida pela rádio TSF.


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