Belém vive dias solitários (Foto: AFP/Hazem Bader)

Este ano não há turistas em Belém, na Palestina, para o Natal. Os vendedores de relíquias desesperam e o clero prepara-se para celebrações fora do comum: sem fiéis, mas com mais orações para tranquilizar nestes tempos difíceis.

Em dezembro de 2019, a pequena cidade palestiniana, a menos de uma dezena de quilómetros de Jerusalém, por trás de um muro de betão grafitado que Israel construiu no local, recebeu dezenas de milhares de turistas. Na basílica da Natividade, quase era preciso abrir caminho à cotovelada para contemplar, apenas por alguns minutos, a gruta onde, segundo a tradição, Cristo nasceu há mais de 2 mil anos.

Este ano, só a luz do sol inunda a basílica e, na gruta da Natividade, a imagem mais frequente é a de quatro monges recitando orações em arménio.

“O amor de Deus preenche este lugar sagrado para nos dizer: não tenhais medo, estou convosco, tudo isto vai passar e eu ficarei. E, graças a Deus, o Natal continua e dá sentido a tudo. Isto traz esperança, paz e incentiva a doação”, disse Rami Asakrieh, padre da paróquia de Belém na Cisjordânia ocupada, citado pela agência AFP.

Devido à pandemia da covid-19, não haverá missa para o público na noite do dia 24, nem cortejo dos líderes palestinianos, incluindo o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas. A missa de Natal reunirá apenas o clero e será transmitida pela televisão para todo o mundo.

No aniversário do nascimento de Jesus, a economia local está morta. Quem senão os turistas compra rosários de madeira, postais, velas e relíquias ou reserva noites de hotel e vai a restaurantes?

“Não vendemos nada há nove meses e nos últimos dias vendi um total de 170 shekels (43 euros)”, desespera Georges Babul, adiantando que está há 60 anos no negócio e nunca passou por uma situação como esta, nem durante os levantamentos palestinianos na Cisjordânia, território ocupado pelo exército israelita desde 1967.

Os comerciantes também não podem contar este ano com as centenas de cristãos da Faixa de Gaza, território palestiniano sob bloqueio israelita, que têm de atravessar solo de Israel para se deslocar a Belém.

“Não tivemos autorização este ano devido à pandemia”, explica o padre Yussef Assaad, do mosteiro latino em Gaza. Tal como as mesquitas, no enclave controlado pelo movimento islâmico Hamas, a igreja latina está fechada ao público, mas as missas são transmitidas pela internet.

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