O elogio da nostalgia

A capital do Uruguai tem o brilho do passado e a exuberância dos novos hábitos. Vivê-la é descobrir a cada canto uma ligação entre a Europa e a América, com perfume de tango e de saudade.

Texto, Fotografias e Vídeo de Rafael Estefania

Gosto das cidades decadentes. A decadência tem o poder de evocar o passado e fazer regressar a um tempo que passou e do qual ficaram apenas marcas gravadas nos edifícios degradados, partidos, mas de alma intacta. É nessas cicatrizes que está a autenticidade que é tão difícil de encontrar nas cidades que foram renovadas, reinventadas, com a manicure perfeita. Montevideu é uma dessas cidades decadentes, e como a decadência alimenta a nostalgia, a nostalgia é o sentimento que impregna e que define a cidade.

Caminho pelas ruas degradadas da cidade velha, alternado o olhar para cima, para não perder as fachadas históricas, e para o chão, para não tropeçar nos paralelepípedos levantados e nos buracos do pavimento.

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O Carnaval de Montevideu faz parte das experiências a não perder na cidade. Esta é uma terra de diversão, de noite e de praia. A cidade é constantemente visitada pelos habitantes da vizinha Buenos Aires.

Na cidade velha sucedem-se os edifícios do século XIX e as impressionantes fachadas art déco (Montevideu é uma das cidades da América Latina com melhores exemplos deste estilo), e apesar do estado de abandono da maioria deles, não deixamos de ser apanhados pelo feitiço. Este é o centro que os montevideanos foram abandonando paulatinamente para se instalarem nas quintas junto à Rambla, coluna vertebral e orgulho dos habitantes de Montevideu. Os 22 quilómetros deste passeio marítimo, ou melhor, fluvial, porque apesar de parecer este mar não é um mar, mas sim o estuário do rio da Prata, são a face mais limpa da cidade, com casas ajardinadas e uma vista que se perde na areia das praias de Ramírez, Pocitos e Buceo.

Hoje, são cada vez mais os jovens empreendedores e com sentido estético e histórico que iniciaram o caminho de regresso à cidade velha, reconstruindo-a com carinho e recuperando um legado histórico ignorado durante décadas, dando-lhe um sopro de vida com os seus negócios. Gente como o chef chocolatier Lucas Fuente com a sua coquete chocolateria artesanal, com um ar francês e os bombons de autor Volverás a Mi; Lucía Soria, chef e jurada do programa MasterChef e dona do restaurante Jacinto; ou a equipa por trás do hotel Alma Histórica na romântica Praça de Zabala, uma mansão do século XIX recuperada, com quartos dedicados a grandes homens e mulheres da arte, das letras e da música do Uruguai. No meu quarto, dedicado a El Varón del Tango, Julio Sosa, descanço acompanhado de malas que fizeram mil viagens e um gramofone que evoca outro tempo, em que a cadência de um tango e som de risos e copos a brindar enchiam de vida casas como esta.

Numa manhã primaveril apenas se veem turistas na rua. Passeio sem pressa e sem um destino certo, no meu caminho, para lado nenhum, nunca chego porque paro num vendedor de fruta, numa mãe e na filha, num senhor a beber mate num banco de jardim. Falamos do tempo, da cidade, de futebol… conversas que se tornam especiais não pelas conversas em si, mas pelo simples facto de acontecerem. Fico a pensar que Montevideu é para o turismo como a slow food é para a cozinha: um lugar onde o tempo se saboreia, sem pressa, onde o momento é mais importante do que o plano, onde não é preciso ver, é preciso estar. Talvez por isso são tantos os argentinos e brasileiros que aqui vêm passear, sem terem de estar sempre a olhar para todos os lados, e param para conversar com estranhos, sem medo, atraídos por esta rara tranquilidade no meio da voracidade latino-americana.

Nesta capital, com apenas um milhão e meio de habitantes (metade do país está aqui concentrado) caminha-se devagar e fala-se com voz suave e verbo pausado, menos quando se fala de futebol, tango ou literatura. Aí, sim, fazem-se ouvir, e o que têm a dizer faz eco e ultrapassa fronteiras.

De conversas e literatura sabe muito o Café Brasilero, refúgio intelectual dos escritores Mario Bennedetti e Eduardo Galeano e hoje um reduto da cultura de café de outras épocas. Nesta mesma mesa, junto à janela, onde Galeano bebia café enquanto tomava notas no seu caderno, sento-me hoje e em sua memória peço um café galeano (café, amareto, natas, doce de leite, polvilhado com cacau).

À porta do bar Álvarez, os cocktails são o sinal de partida para um fim de tarde animado. Entre copos e pratos também se faz a vida de Montevideu.

É hora de almoço e, em vez do Google Maps, deixo que seja o meu olfato a orientar-me. Guiado pelo cheiro a carvão e carne assada, chego ao Mercado do Porto, coração da cidade e, ao contrário do que se podia pensar, templo sagrado da carne. A estrutura de metal e madeira do mercado construído em 1868 alberga dezenas de restaurantes com grandes grelhas à vista que, como se fossem altares, servem de montra de bifes, entradas, chouriços, morcelas e assados, junto a pimentos verdes e vermelhos, como uma pincelada vegetal no meio deste festim carnívoro. Para acompanhar o banquete nada melhor do que o clássico medio y medio. Um cocktail criolo de vinho branco e espumante. O relógio centenário que preside ao mercado dá as badaladas para lembrar que aqui é sempre hora de comer.

 

Amor do tango

O tango é a música da nostalgia e, sem dúvida, a banda sonora de Montevideu. São raras as histórias alegres que nos contam, e mesmo assim o seu som embriaga-nos e agarra-nos, porque também na celebração da tristeza e da desilusão podemos encontrar prazer. Foi em Montevideu, na Confitería la Giralda, que se ouviram pela primeira vez os acordes do hino de todos os tangos, a célebre La Cumparsita do maestro Gerardo Mato Rodríguez. Neste local, destruído para construir o Palácio Salvo, escreveram-se as primeiras linhas de uma música que se tornaria universal. Para celebrar um século de La Cumparsita, o Museu do Tango abriu as portas, em dezembro de 2016, no piso inferior do palácio, exatamente no mesmo lugar da confeitaria original.

Mas a verdadeira essência do tango está nos boliches e não nos museus. Em Montevideu, todas as noites são de milonga. Não espere grandes espetáculos de tango com lantejoulas e meias de renda como em Buenos Aires, mas sim milongas familiares sem pretensões, para as quais todos estão convidados, como a milonga de rua na Plaza Liber Seregni, a milonga Jovem Tango no Mercado de la Abundancia ou no Che Madame. Tango nas veias num país que não só deu ao mundo o hino do tango mas também o seu intérprete mais famoso, Carlos Gardel, que para mal dos argentinos nasceu na cidade uruguaia de Tacuarembó.

 

Loucos por bola

Aqui, do alto do Estádio Centenário, imagino setenta mil gargantas unidas num grito a levantar a Taça do Mundo em 1930 derrotando os vizinhos argentinos na final. Nenhum outro cenário tão propício nem vitória mais doce. O que nos magoa, por causa das instalações degradadas, comparadas com as dos modernos estádios de futebol, é compensado pela história que aqui se escreveu. Em poucos países o futebol está tão intrinsecamente ligado à vida. Não há uruguaio, homem ou mulher, velho ou jovem, que não partilhe esta paixão que faz que, quando se trata de futebol, o famoso temperamento calmo e dialogante dos uruguaios vá pelos ares, uma versão latina de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, trazendo ao de cima a besta e, em nome da garra charrúa, o objetivo da vitória, justifique as agressões.

Só com esse espírito indomável se pode entender o facto de a seleção deste pequeno país ter quatro estrelas de campeões do mundo nas camisolas (as mesmas que a Alemanha e a Itália). As paixões na cidade são divididas entre o Peñarol e o Nacional, mas numa cidade tão futebolística surgem equipas em cada bairro e em certas ocasiões até partilham o mesmo campo.

Ainda é possível ver jogos de rua em qualquer parte da cidade, com camisolas a marcar as balizas e pessoas de todas as idades correndo atrás da bola como se as suas vidas dependessem disso.

Eduardo Galeano é um dos mais ilustres escritores sul-americanos. Nasceu e morreu em Montevideu.

Tambores de Carnaval

Além do futebol, o Carnaval é outro momento único em que os montevideanos dão rédea solta ao seu lado mais passional. E gostam tanto que, uma vez que começam a rufar os tambores, não param durante 40 dias, fazendo do Carnaval do Uruguai o mais longo do mundo. As ruas dos bairros de Palermo e Barrio Sur convertem-se num viveiro, por onde desfilam os grupos de Carnaval ao som dos tambores do candomblé. O prato forte é o Desfile de las Llamadas, em memória dos tempos coloniais em que os escravos negros, recordando a sua terra, se juntavam nas ruas a tocar tambor. As personagens da época, o curandeiro, a mãe velha, o varredor e os lubolos (brancos que se pintavam de preto para poder participar nesta celebração) continuam presentes nos grupos atuais.

O Carnaval tem sabor de bairro. A maior parte do percurso do desfile não é vedado, permitindo que todos se misturem com os grupos carnavalescos e se juntem à música e à dança. As janelas das casas convertem-se em bares improvisados onde se pode comprar empanadas (empadas) e cerveja. A diferença para o Carnaval do Rio é que aqui não se é mero espetador, aqui faz-se parte dele. E aqui também não existe a ditadura dos corpos esculturais. Nesta «república de corpos» só há um requisito: sentir o candomblé.

Entre Valdemar Cuchilla Silva, um diretor veterano com mais de sessenta anos de Carnaval e Macarena, uma vedete de 22 anos que dança há cinco anos, há uma distância de duas gerações e um sentimento em comum: o Carnaval é o fogo que os mantém vivos.

 

Domingo na feira

Não há melhor programa de domingo em Montevideu do que perdermo-os pelas ruas do bairro de Cordón à procura de tesouros na feira de Tristán Narvaja. Nas calçadas sucedem-se as bancas de vendas em segunda mão ladeadas por casas baixas e centenárias e arbustos típicos dos bairros de Montevideu. De um vinil antigo a uma mascote, tudo está à venda nesta feira da ladra. Ao longe, ouve-se o som de um bandeneón (uma espécie de concertina usada no tango). Um jovem toca sem reparar nas pessoas que passam em seu redor. O som do instrumento parece tê-lo transportado para muito longe daqui. Deixo uma moeda e ele abre os olhos, apenas para me dedicar um olhar cúmplice, e volta a fechá-los e a mergulhar no seu mundo. Perto dele, um homem inspeciona um grande churrasco à venda na parte de trás de uma carrinha Chevrolet dos anos 1950. As caves abrem-se para os passeios, conduzindo a lojas de antiguidades onde não há nem um centímetro quadrado livre de objetos. Junto a estas lojas surgem livrarias caóticas com cheiro a papel antigo e cafés onde se servem croissants, café e meias de leite em tom de caramelo.

 

Entardecer na Rambla

Os fins de tarde na capital mais a sul do continente americano são um espetáculo que reúne todos os dias milhares de montevideanos à volta da Rambla. É a hora mágica que convida a um passeio, ao exercício ou à simples contemplação, quase sempre acompanhada de um termo e uma bombilla de mate (recipiente para beber infusão de ervas tradicional). Da Cidade Velha até Carrasco são 22 quilómetros de passeio marítimo que são o pulmão da cidade, o seu pátio de recreio e a sua saída para o mar, que não o é mas parece.

Na colina ao lado do bar Hemingway, dezenas de jovens juntam-se todas as tardes de verão para ver o Sol fundir-se nas águas do rio da Prata. Por baixo deste promontório, sobre as pedras, pai e filho lançam a cana de pesca à água e esperam pacientemente que o peixe morda. «O meu pai ensinou-me a pescar aqui mesmo e quero que o meu filho aprenda também», diz Miguel. Há algo muito reconfortante nesta cena, na constatação da escala humana em que está feita esta cidade, uma urbe que adapta o seu pulso aos seus habitantes. Depois de um bom bocado, o balde de Miguel continua vazio. «Não há pressa amigo, não há pressa. Se não mordem hoje, mordem amanhã», diz Miguel, com um sorriso mesmo quando o Sol se esconde e a luz da tarde desenha ao longe a silhueta da cidade.


Palácio Salvo

Na Praça da Independência, concorrendo com a estátua do libertador, José Gervasio Artigas, a cavalo como monumento mais fotografado de Montevideu, ergue-se o colosso de cimento, o Palácio Salvo. A roupa estendida em algumas das suas varandas é sinal de um presente menos ilustre daquele que foi uma ode à modernidade e o edifício mais alto da América Latina em 1928. Hoje é uma aldeia vertical com mais de 400 apartamentos onde convivem três gerações que testemunharam a opulência, a boémia e a decadência desta eclética joia arquitetónica, uma mistura de art déco, gótico e neoclássico que simbolizou o máximo da prosperidade do Uruguai no início do século passado. As vozes de Josephine Baker e Jorge Negrete ecoam no glamoroso teatro que havia na cave e, antes de ter sido construído este palácio, era o lugar onde nasceu o mais célebre dos tangos, La Cumparsita. Contam que um fantasma de chapéu e capa aparece de vez em quando. Talvez seja o espírito do tango que trespassa pela escadaria.


Guia de Montevideu

Moeda: Peso uruguaio UYU – 1 euro equivale a 34,23 UYU
Fuso horário : GMT- 3
Idioma: castelhano

Ir
Os melhores meses para visitar Montevideu são de dezembro a março, quando é verão.
A IBERIA (iberia.com) voa para Montevideu, via Madrid, desde 820 euros.

Dormir
Alma Historica Boutique Hotel
O melhor hotel de Montevideu. Tem apenas 15 quartos, todos diferentes e que prestam homenagem a uruguaios ilustres. Transporta-nos ao esplendor de Montevideu no século passado.
Plaza Zabala, Solís.
Quarto duplo desde 157 euros
almahistoricahotel.com

Hotel Palacio
Um hotel de charme com apenas 18 quartos. Chão de madeira, móveis antigos e vista pitoresca para os telhados da cidade velha, num ambiente
familiar.
Bartolomé Mitre, 1364. Esq. Peatonal Sarandí.
Quarto duplo desde 40 euros.
hotelpalacio.com.uy

Radisson Montevideo Victoria
Quartos modernos e com espetacular vista da cidade, em plena Praça da Independência.
Plaza Independencia, 759.
Quarto duplo desde 124 euros.
radisson.com/montevideohotel-uy-11100/urumont

Comer
Mercado del Puerto
Paragem obrigatória para todos os que visitam Montevideu (a menos que seja vegetariano). Um festim carnívero em cada churrasco.
mercadodelpuerto.com

Jacinto
Cozinha de autor com influências mediterrâneas num edifício antigo que foi
restaurado, em plena Cidade Velha. A proprietária é chef e jurada do programa MasterChef Uruguay.
C. Sarandi y Alzaibar
jacinto.com.uy

Tona
Reivindicando a cozinha uruguaia, o chef Hugo Sosa combina o tradicional e o novo num restaurante único no Uruguai. O seu livro Nuestras Recetas foi premiado como o Melhor Livro de Gastronomia da América Latina.
C. Franzini 955, esq. C. Carlos Berg
facebook.com/Tona

La Fonda
Massa fresca, feita ao momento, comida caseira e generosos cocktails servidos na esplanada com muito boa onda.
C. Pérez Castellano, 1422. Esq. 25 de Mayo.
lafonda.com.uy

Lucca Bistro Cafe
Um bistrô em plena Cidade Velha. Comida honesta num lugar que combina o design industrial com a estética vintage.
C. Sarandí, 368.
facebook.com/luccabistroycafe

Café Brasilero
Uma instituição na cidade. Uma viagem no tempo que trará ao de cima o poeta dentro de cada um, enquanto se aproveita um dos melhores cafés de Montevideu.
facebook.com/cafebrasilerouy

Volverás a Mi
Bombons de autor numa boutique do chocolate. E não é só para comer,
aqui também se pode fazer um workshop para aprender a fazer.
Calle Pérez Castellano, 1461
facebook.com/volverasamichocolates

Experiências a não perder
• Banquete de carne no Mercado del Puerto.
• Viver o desfile de Las llamadas no Barrio Sur com um grupo carnavalesco.
• Visitar o Palacio Salvo para ver Montevideu como um pássaro.
• Noite milonguera no Mercado de la Abundancia.
• Ir ao Estádio Centenário em dia de jogo.
• Procurar tesouros na Feira Tristán Narvaez ao domingo.


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