O jornalista Paulo Salvador trouxe-nos palavras e fotografias para contar uma viagem especial. Viajou até África em busca de gorilas e chimpanzés.

Encontrou os primatas e carregou na bagagem histórias para contar. De gente, de animais e de sobrevivência.

Ponto de vista

Um riacho de águas frescas e cristalinas desce a montanha. Serpenteia por entre o verde rasteiro de musgos e fetos, as folhas das bananeiras, a verticalidade das árvores de teca, a elegância das acácias e as longas lianas que pendem sobre o solo. Um cenário idílico, pintado com todas as tonalidades de verde conhecidas pelo olho humano.
Um grupo de crianças brinca numa das margens. Galgam as águas, ao meu encontro, num equilíbrio instável sobre pedras que se esticam à superfície.

Trazem na mão pequenas folhas, gastas e sujas. São desenhos com cores desbotadas. Exibem-nas com orgulho na esperança de um interesse estrangeiro. Rasgam-me sorrisos de um branco absoluto, e olhares tão luminosos quanto os reflexos do sol na corrente. Mostram-me as obras. São desenhos do animal que ali atrai milhares de pessoas, vindas de todo o mundo. Representações das criaturas das montanhas, os gorilas da Floresta Impenetrável de Bwindi. Uma das muitas surpresas do Uganda. Um país de sorrisos, simpatia e uma autenticidade rara.

A floresta de Kibale tem a maior concentração de primatas da África Oriental. Ali vivem 13 tipos de primatas e uma comunidade de perto de 1500 chimpanzés.

Trinta e seis anos após o fim do regime de terror do general Idi Amin Dada, o Uganda de hoje é um país em acelerado crescimento populacional e apostado em entrar no circuito mundial do turismo de vida selvagem. Numa era em que a defesa da vida animal se tornou uma questão não só política como também económica, a possibilidade de oferecer ao turismo uma das espécies mais ameaçadas do planeta é uma vantagem que nenhum país deve menosprezar, sobretudo se esse país tem metade de toda a população de gorilas do mundo.

Quando se aterra em Entebbe, aeroporto que serve a capital do país, Kampala, sente- -se de imediato algo que se vai tornando cada vez mais raro, e por isso precioso, para quem viaja: a sensação de segurança. Seja nas ruas das cidades, nos parques, ou nas aldeias por onde se passa a caminho das zonas turísticas, sentimo-nos seguros. Fechar o carro deixa de ser uma preocupação. Este é um valor essencial para qualquer turista.
Uma outra caraterística surpreendente, num continente que vive grandes dificuldades de infraestruturas básicas, é a higiene. Até nos locais mais remotos a limpeza é um valor constante e que impressiona qualquer viajante atento. Sobretudo comparando com outros países africanos e até alguns europeus.

O Mihingo Lodge, no Parque Nacional do Lago Mburo, é um local único, construído por um casal europeu que se apaixonou pelo Uganda.

Hoje, o Uganda promove a sua imagem sustentada na enorme biodiversidade. O turismo representa 10 por cento do produto interno bruto. É a principal fonte de exportação de divisas. A estratégia passa por apresentar preços 30 por cento abaixo dos valores de referência. A Lonely Planet em 2011, e a National Geographic Traveler em 2012, atribuíram distinções de qualidade ao Uganda enquanto destino turístico. Um estudo de 2013, sobre as motivações e os gastos dos turistas no país, atesta que cada dólar gasto pelos visitantes gera ganhos de 2,5 dólares para a riqueza da nação.

Neste Centro de África, há muito de tudo. Muitos animais, muito verde, muitas crianças e uma das maiores taxas de fertilidade do mundo (6,7%). O Uganda tem 35 milhões de habitantes. O dobro do que tinha em 1990. É uma das populações mais jovens do planeta (48,7% têm menos de 15 anos).
O crescimento económico tem rondado 5 por cento ao ano. Toda a estratégia nacional está orientada para atrair mais turismo.
As mais de mil espécies, algumas delas autóctones, fazem do país simbolizado pelo grou-coroado-austral o mais importante ponto de observação de aves de toda a África. As montanhas Rwenzory, as míticas montanhas da Lua descritas por Ptolomeu há mais de 2200 anos, foram declaradas património da Humanidade pela UNESCO em 1994 e atraem caminhantes e montanhistas, ansiosos por escalarem um dos picos mais altos de todo o continente, com 5109 metros. De norte a sul, há trinta parques florestais, dez nacionais, sete reservas e investimentos em produtos de qualidade.

O maior parque nacional é o das Cataratas de Murchinson, no Noroeste. Imponente e luxuriante. Centenas de hipopótamos, crocodilos, antílopes e elefantes vagueiam junto ao delta do rio Nilo. A norte, junto ao Sudão, o vale de Kidepo e as savanas com leões, chitas, elefantes e leopardos. A sul, integrado no Parque Nacional Queen Elizabeth, é possível fazer um safari de barco nas tranquilas águas do canal Kazinga, que une os lagos Edward e George.

Ainda no perímetro do parque, na zona de Ishasha, os famosos leões-das-árvores. Devido à altura da vegetação, os felinos adaptaram-se ao habitat trepando às arvores, para melhor verem as presas. Um pouco mais a noroeste, junto às imponentes montanhas Rwenzori, a floresta de Kibale, com a maior diversidade e concentração de primatas da África Oriental. Ali vivem mais de 350 espécies de aves e 13 tipos de primatas, em que se inclui uma grande comunidade de chimpanzés. São perto de 1500 indivíduos. Espalham-se por uma floresta tropical de cortar a respiração. Para os ver, as caminhadas duram em média duas horas, mas por vezes, como foi o meu caso, demorou seis penosas horas, num ambiente de grande desgaste físico, apenas compensado pelos momentos em que estamos junto dos nossos ascendentes. Tal como com os gorilas, estar junto a uma família de chimpanzés remete-nos invariavelmente para reflexões sobre a nossa origem. O que de nós há naqueles olhos, naqueles gestos, naquela selvagem familiaridade.

Mas o que realmente mais distingue o Uganda e o projeta no mundo são os gorilas-da-montanha. Aqui vive quase metade de toda a população mundial, 408 animais. Os restantes dividem-se entre o Ruanda, com mais de 450, e uma população residual na República Democrática do Congo. Uma riqueza nacional que está a ser explorada e protegida pelo próprio fluxo turístico.

Gerir todo este potencial tem sido uma tarefa não isenta de dificuldades para a Autoridade Nacional de Vida Selvagem do Uganda (UWA). O tracking dos gorilas é a principal fonte de receitas do turismo ugandês. Bwindi é por isso uma história de sucesso. É um dos parques nacionais mais protegidos, onde a caça furtiva tem vindo a diminuir à medida que as populações sentem as vantagens de receber turistas. Um gorila vivo gera mais dinheiro para o país, e para as comunidades, do que os troféus de outros tempos. A estimativa é a de que, por cada um destes primatas de pelo negro e olhar âmbar, o país ganha um milhão de euros de receita anual.

Na pequena aldeia junto a uma das entradas para a floresta tropical a noite cai, fresca – estamos a 1500 metros de altitude. A Lua mostra-se tarde, atrás da encosta íngreme que se ergue à minha frente. Adormeço a pensar no dia seguinte, na ida aos gorilas. Manhã cedo somos transportados do lodge para o centro de acolhimento do Parque Nacional de Bwindi, na chamada Floresta Impenetrável.

Os caminhantes são divididos em grupos com o máximo de oito pessoas. Cada turista paga 650 dólares (cerca de 585 euros) para ir ao encontro dos gorilas e com eles estar não mais do que uma hora. A distribuição tem em conta a aparente condição física dos participantes. Estas caminhadas são muito exigentes. Podem ultrapassar as oito horas de marcha, numa densa floresta de montanha, húmida, íngreme e lamacenta.
São 08h30. Uns equipados até aos dentes, outros imprudentemente descuidados. Juntamo-nos à volta da guia que nos foi atribuída. Sinto que alguns dos meus companheiros de aventura não estão verdadeiramente preparados ou conscientes do que é caminhar neste tipo de vegetação tropical.

Todas as madrugadas, um grupo de batedores da UWA (Uganda Wildlife Authority) parte para a montanha, para os locais onde no dia anterior estavam as famílias de gorilas. Estes primatas são muito territoriais e movimentam-se num raio de três quilómetros ao redor do local de alimentação. Ainda assim, a cada dia é preciso verificar onde se encontram.
Em Bwindi existem 35 famílias, das quais apenas 14 estão acostumadas à presença humana, são chamados os «habituados», sem que isso lhes retire o seu caráter totalmente selvagem. Apenas quer dizer que normalmente não são agressivos, pois ao longo de anos têm sido confrontados com a presença de guias e guardas. Os restantes gorilas, isolados, vivem em zonas muito remotas e quase inacessíveis. Apenas os cientistas podem visitá-los.
A nossa guia fala de forma pausada e sempre com um sorriso. Chama-se Ny Niyibizi Goreth, é uma jovem ugandesa. Trabalha no parque há seis anos e confessa nunca ter visto um português, muito menos jornalista. Sinto-me privilegiado.

Aspeto cuidado, farda militar e um cuidado penteado de tranças finas, com terminações douradas, dão-lhe um ar inesperadamente afro chic.
Exibe um poster com fotos e nomes de todos os gorilas da família que vamos procurar. É a família Rushegura, composta por 13 indivíduos. Goreth explica-nos as regras de conduta na selva e a distância a manter dos gorilas: sete metros. Um princípio ao qual só o primata pode desobedecer e, nesse caso, os humanos ou ficam quietos ou se desviam. Sobretudo nada de correrias. Até porque é quase impossível dada a densidade da vegetação.
Feitas todas as recomendações, partimos para a dita floresta impenetrável. Para ajudar a carregar sacos, mochilas e comidas, os visitantes podem contratar carregadores, por 15 dólares (aproximadamente 13,5 euros). Dinheiro muito bem aplicado se por acaso a caminhada se prolongar ao longo de horas.
Ao grupo juntam-se também um batedor, que abre caminho com uma espécie de foice para cortar mato, e um guarda armado. Um elemento dissuasor para um eventual encontro com os búfalos e elefantes que partilham a montanha com os gorilas. Sendo animais potencialmente perigosos, só um disparo para o ar poderá evitar situações bastante perigosas. Claro que também acalma os nervos aos visitantes menos confortáveis com a ideia de estar num meio inóspito como este, no meio de animais selvagens.

Durante meia hora, a fêmea da família Rushegura sentou-se junto a uma tenda, o que nos deixou prisioneiros da sua paz e tranquilidade.

Partimos em caravana, coração ao saltos, quais exploradores em busca do grande King Kong. Luvas para nos podermos agarrar a qualquer superfície sem recear insetos ou espinhos, meias subidas para desencorajar as formigas-safari e botas para ultrapassar lamas, pedras e galhos. Uma parede verde ergue-se à nossa frente. Um muro de lianas, raízes, espinheiras, fetos, líquenes e musgos. De quando em vez uma árvore, escondida por entre folhas gigantes e troncos esguios e escorregadios. Avançamos a passo, lentamente, ao ritmo dos cortes que rasgam o emaranhado que nos cerca. Seguimos as palavras e os passos de Niyibizi, a guia do cabelo de pontas douradas. Walkie talkie em punho, ela vai recebendo constantes dicas de batedores e de outros guias que se possam cruzar com a «nossa» família Rushegura.

Foi a primatologista norte-americana Dian Fossey quem nos ensinou a olhar para os gorilas e que alertou o mundo para a necessidade da proteção destes primatas. Se nos anos 1960 e 70 os gorilas estavam ameaçados de extinção, hoje estão quase a atingir o ponto de sobrevivência sustentada. Nestas montanhas a população não para de crescer.

Estava eu embrenhado nestes pensamentos, quando o líder da caravana para de cortar mato. Começa a falar com a guia. Percebo que algo está a acontecer. Goreth faz-me sinal para avançar, aponta para o verde: «Estão ali!»
Surgidos do nada, ali estavam, a poucos metros, sem qualquer sinal de incómodo pela invasão humana. Na floresta, os gorilas são sombras. Um olho menos treinado não os vê de imediato. São negros como as sombras. São parte do verde que os esconde.
No solo, por entre ramagens e folhas, um macho adulto trinca delicadamente pequenos caules, cujo interior esconde uma deliciosa seiva doce. Olha para o pisteiro. Este emite um som parecido com um ronronar, que presumo seja uma sinal tranquilizador e de reconhecimento entre espécies. No cimo de uma árvore que ameaça cair, dez metros acima do solo, um gorila jovem tenta fazer uma cama para se deitar. Ouve- -se apenas os galhos, que se partem às mãos poderosas e negras, o suave rasgar das folhas, o mastigar dos rebentos. Olhos esbugalhados, coração acelerado, inebriados pela paz que nos rodeia e pelo equilíbrio entre homens e gorilas, ali ficamos, em silêncio. O tempo parece que congela. Subitamente, emerge do verde o patriarca da família, o macho dominante. Um exemplar impressionante, de costas largas e dorso prateado. Caminha tranquilamente, como se ali não houvesse ninguém. Não se desvia. À passagem roça na perna de um dos meus companheiros de viagem. Surpreendentemente, nenhum destes animais mostra qualquer stress com a nossa presença. Agem com uma tranquilidade desarmante. Apenas quando os pisteiros cortam mato demasiado próximo, eles fazem sentir a sua autoridade. Ensaiam uma carga, emitem um pequeno rugido – que nos assusta – e tudo volta ao lugar.

Seguimos caminho, para tentar descobrir o resto da família Rushegura, que é conhecida por se aventurar para locais muito próximos da ocupação humana. Dez minutos mais tarde, novo sinal da Goreth. Desta vez damos de caras com um gorila que se diverte junto de uma tenda do lodge de montanha. Os ocupantes estão no exterior, junto a uma mesa, imóveis. Desfrutam da cena inesperada. O gorila está a três metros. Talvez tenha sentido o cheiro de comida. Só nós nos mexemos, para ver melhor a cena. Vêm-me à memória as imagens de Dian Fossey e dos seus gorilas na bruma. Durante quase meia hora, o bom gigante parece exibir os seus dotes dramáticos para as nossas câmaras. Deita-se de barriga para o ar, roça-se no tecido da tenda, lança breves olhares para a assistência, fecha os olhos, cruza os braços com ar melancólico. O olhar é perturbadoramente familiar. O tempo, que pensávamos parado, voa num piscar de olhos. A hora a que temos direito acaba. É tempo de regressar ao campo-base.

Antes desta viagem, interrogava-me o que sentiria quando estivesse junto destes animais imponentes, com a força de dez
homens, que alimentam fantasias e mitos. Depois desta aventura, sei que os milhares de anos de evolução que nos separam são também os que nos unem. Por isso deixam este desejo. Este querer voltar. Esta urgência de um novo, tranquilo e inesquecível encontro com os gentis gigantes.

Goreth despede-se com mais um sorriso, e um recado: «Vão, regressem aos vossos países, mas mostrem e falem do que aqui viram, é importante para nós, e para eles», aponta para a floresta.
Junto ao riacho, os meninos do rio ainda correm e brincam com as folhas que guardam os seus gorilas rabiscados. Mas num piscar de olhos também eles desaparecem na luxúria verdejante das encostas impenetráveis da floresta de Bwindi.

Este mês connosco
Paulo Salvador nasceu no Lubango, Angola, em 1965. Passou grande parte da infância em Luanda (chegou a Portugal em setembro de 1975) e África continua a correr-lhe nas veias. É um dos rostos mais conhecidos do jornalismo televisivo português. Neste trabalho que agora é publicado na Volta ao Mundo, Paulo Salvador mostra-nos também o seu olhar fotográfico num dos cenários mais impressionantes e exigentes do planeta. Ficamos à espera do próximo destino deste viajante.

Texto e Fotografias de Paulo Salvador