Um lado de águas cristalinas, montanhas de cumes nevados, um precioso centro histórico a fervilhar de vida, seria de achas de que parece demasiado perfeita para realidade. Mas tomámos-lhe o pulso. E confirmámos: Annecy respira.

Um peixe, nada mais nada menos. Annecy tem um imponente castelo medieval, um centro histórico tão perfeito e florido que mais parece coisa de conto de fadas, um lago cristalino com ótimas praias, montanhas cobertas de neve como pano de fundo. Tudo aqui parece cenário de filme. Porém, na hora de eleger um símbolo para o seu brasão, a capital do département de Haute-Savoie escolheu um singelo peixe. Há quem diga que é uma féra (corégono branco), quem defenda que é um omble chevalier (Salvelinus alpinus, à falta de designação em português) e a versão oficial aponta para a truta salmonada. Pouco importa.

O certo é que o lago que dá nome à cidade – ou será o inverso? – é tão puro, tão puro, que se diz não ter rival em toda a Europa. E as suas águas, de um azul-turquesa que de imediato associamos a paragens mais exóticas, abundam de vida. O peixe delas extraído é presença assídua tanto nas bancas das peixarias como nos cardápios dos restaurantes locais. Espreite-se, por exemplo, a carta do Après La Plage, um espaço pequeno e acolhedor com vista para a igreja tardo-gótica de Saint-Maurice, onde o chef Cyrille Clothes, sem excessos (culinários ou a nível de preço), põe em prática a sua cozinha inventiva à base de produtos biológicos e do terroir. Lá está o filete de féra, trabalhado com grande respeito e servido em crocante de avelã.

Podia ser na Tailândia, ou nas Maldivas, mas não é: estas águas cristalinas nascem nos cumes alpinos. E o lago Annecy, diz-se por aí, é o mais puro de toda a Europa.

Falávamos de águas cristalinas. À boca do lago, junto da ponte de La Halle, nasce o Thiou, afluente do Fier (que, setenta quilómetros adiante se funde no Ródano) e artéria aorta da velha Annecy, desdobrado em dois canais que alguém um dia achou motivo suficiente para forjar o rótulo de «Veneza dos Alpes». Uma alcunha que, reconheça-se, em nada lisonjeia a cidade alpina. E quem já tiver estado na «rainha do Adriático» entende bem o porquê: é que, diante dos canais do Thiou, em especial num dia soalheiro como este, o que mais apetece é dar um mergulho, chapinhar nestas águas vítreas. Mas não vale a pena ter ideias – é proibido e há várias placas a lembrá-lo, para que ninguém possa alegar ignorância.

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Em matéria de rótulos emprestados, Annecy não se fica por aqui. O seu currículo inclui (pelo menos) um outro, o de «Roma da Saboia», à boleia de ter sido assento do bispado de Francisco de Sales – figura de proa da Contra–Reforma – e, por inerência, bastião do catolicismo nos séculos XVI e XVII. Ou seja, porto seguro para a instalação de várias ordens religiosas, que trouxeram consigo desenvolvimento, riqueza e importância acrescida para a cidade. Bem como o despontar do interesse turístico por este recanto dos Alpes – na altura mais motivado pela fé do que pelos encantos da paisagem –, muito embora os números estivessem ainda bastante longe dos 2,5 milhões de visitantes que Annecy atualmente recebe por ano.

Ruas estreitas, paredes tortas, pontes e canais: mais do que centro histórico, a cidade velha assemelha-se a cenário de conto de fadas.

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Deambulando por estas ruas num tranquilo dia de época baixa, custa até a compreender como é que, durante a temporada de pico, se consegue meter tanta gente numa terra aparentemente tão pequena. Sublinhe-se o «aparentemente»: é que Annecy é daqueles sítios que enganam. Pela postura descontraída e informal da população; pela doçura dos canais, cujos cais, à hora de almoço, se tornam cantina improvisada para adolescentes saídos da escola; pelo ritmo compassado de aldeia, onde ainda subsistem alguns ofícios tradicionais, bem como lojas que são verdadeiras embaixadas dos produtos regionais, apelando tanto ao turista viajado como à pensionista que avia as compras do dia.

Facilmente somos levados a pensar que se trata de um meio pequeno. E ficamos de queixo caído ao descobrir que neste conto de fadas vivem mais de cinquenta mil almas, número que triplica se incluirmos toda a aglomeração urbana. Por entre curiosidades estatísticas, aqui fica uma preciosidade à qual é impossível fazer vista grossa: em proporção, cada habitante tem dezasseis metros quadrados de espaços verdes à sua disposição. E isso, não tenhamos dúvidas, é qualidade de vida. Não admira que os ancileviens tenham um ar tão feliz.

A cidade preserva um ritmo compassado de aldeia. Subsistem alguns ofícios tradicionais, bem como lojas que são verdadeiras embaixadas dos produtos regionais, apelando tanto ao turista viajado como à pensionista que avia as compras do dia.

Chegamos a Annecy vindos de sudeste, do lado de Albertville. Porventura, a melhor porta de acesso para quem prefere deixar-se enlear pelo enredo e saborear cada momento, sem pressas, sem querer saltar logo para o final da história. Ao longo da D1508, a estrada que contorna todo o flanco ocidental do lago, desenrolam-se quilómetros de cenários perfeitos, feitos de veleiros alinhados em pequenas marinas, toscos cais palafíticos e montanhas que se erguem na outra margem, refletidas neste enorme espelho de água. Uma perfeição tal que, em 1869, motivou um enfastiado Paul Cézanne a pintá-la de tons soturnos, para fugir àquilo que via como algo saído de um exercício de desenho para jovens donzelas.

Livres das inquietações de artista atormentado, inspiramos a magnífica panorâmica a plenos pulmões. Paralela à estrada, corre uma ciclovia, cheia de patinadores, atletas de fim de semana e ciclistas. E as margens relvadas da praia de Marquisats enchem-se de gente bonita e feliz da vida, como num anúncio de refrigerante dos anos 1980. Jogam futebol, fazem piqueniques, divertem-se, aproveitam o sol. A diversão continua umas centenas de metros adiante, nos Jardins de l’Europe e no amplo relvado do Champ de Mars, do lado oposto da sugestiva Pont des Amours – basta olhar o ancoradouro do canal de Vassé para vir à tona o bom velho cliché romântico.

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Deambulando por estas ruas num dia de época baixa, custa a compreender como é que, por ano, se consegue meter 2,5 milhões de visitantes numa terra aparentemente tão pequena. Sublinhe-se o «aparentemente».

Logo ali, a partir dos cais da Promenade Jacquet, há passeios de barco a motor, gaivotas para alugar (circum-navegar o ilhéu de Cygnes a pedal é desporto de eleição) e cruzeiros que partem à descoberta do lago. Mas também é aqui que se começa a tomar o pulso à velha Annecy, seguindo o traçado das artérias de água cristalina que lhe dão vida. Não vamos revelar o final da história, mas aqui fica uma dica: conto de fadas que se preze termina com um «… e viveram felizes para sempre».

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Ir

Annecy tem aeroporto, mas apenas com ligações a Paris-Orly. O aeroporto internacional mais próximo é o de Genebra, a menos de uma hora de automóvel. A TAP (flytap.com) tem ligações à partida de Lisboa e Porto desde 214 euros e 235 euros, respetivamente. Chegar a Annecy de comboio (sncf.com) custa 17 euros por percurso e leva cerca de duas horas. De autocarro (frossard.eu), a viagem leva o mesmo tempo mas custa apenas 10,50 euros.

Dormir

Maison d’Hôtes À Côté 
Linhas sóbrias, predominância do branco, peças de design com assinatura. Rémi, arquiteto, e Violaine, decoradora, apostaram tudo neste projeto a quatro mãos feito de dois quartos apenas, «para que não se perca o espírito de casa». Um com vista para o campo, o outro de olhos na cidade. Ambos igualmente acolhedores e com curiosas soluções arquitetónicas. Quarto duplo a partir de 150 euros por noite (mínimo duas noites).
11, Rue Carnot
Tel.: (+33) 0 450658550
maison-acote.com

Fazer

Annecy ao ar livre 
No verão, há praias – Albigny, L’Imperial e Marquisats são as mais próximas do centro da cidade. No resto do ano, há gaivotas (que por aqui se chamam pédalos), para explorar o lago a pedal. Um pédalo para dois custa 12 euros por 30 minutos.
Champs de Mars
Tel.: (+33) 0 698655055
location-bateaux-annecy.com


Guia francês:

Petit Futé Annecy
Guia francês:
Let’s Go France
lac-annecy.com

Agradecimentos:
TAP
CLUB MED

Texto de João Mestre - Fotografias de Adelino Meireles/Global Imagens