O turismo do município mais pequeno de Portugal está ligado às máquinas. No bom sentido. As fábricas abrem as suas portas aos visitantes que querem conhecer a história de uma cidade que cresceu com o avanço da industrialização e que se tem sabido adaptar aos novos tempos.

Quando em 1996 a Empresa Industrial de Chapelaria de São João da Madeira encerrou as suas portas, há muito caíra em desuso o hábito de usar chapéu. A cidade que teve, nas primeiras décadas do século XX, mais de 200 oficinas de chapeleiros em funcionamento, é a mesma que há três anos implementou pela primeira vez em Portugal circuitos de turismo industrial para falar do passado, e também de presente e futuro.

Na torre da antiga fábrica da Oliva funciona desde 2012 o centro de acolhimento do turismo industrial, projeto que centralizou as empresas que acederam abrir portas a visitantes. Entre elas, encontram-se a Viarco (lápis), a Fepsa (feltros), a Helsar e Evereste (calçado), a Heliotextil (têxteis) e a Cortadoria Nacional do Pêlo. Além da «indústria viva», as fábricas em laboração, o roteiro inclui o Museu da Chapelaria, que foi criado na antiga Fábrica Nova da Empresa Industrial de Chapelaria, e ainda dois centros de design e tecnologia.

Para organizar uma visita guiada, basta contactar o Welcome Center, e começar mesmo ali, na Torre da Oliva. Ao lado, fica a Fábrica Nova, que, encerrada em meados de 1990, é desde 2005 o Museu da Chapelaria. «É muito fácil transformar a arqueologia industrial em algo apelativo, porque as máquinas são bonitas, principalmente quando alinhadas e iluminadas de determinada maneira», diz Suzana Menezes, diretora do museu, passando pela maquinaria centenária que Oliveira Jr. mandou vir da Alemanha, nos inícios do século XX. Com elas, montou a Fábrica Nova, a maior, na altura, da Península Ibérica.

No Museu da Chapelaria, além de chapéus (que os há, e muitos) admira-se a maquinaria de início do século XX. A Fábrica da Viarco e os quartos temáticos do Hotel Ever fazem também parte do circuito.

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Mas ali as máquinas não estão alinhadas com uma luz sedutora. Não se procura romantizar outros tempos nem estetizar o trabalho. «Queremos mostrar o que as máquinas escondem, falar dos trabalhadores, os “unhas negras” que ficavam doentes por causa dos químicos, que ficavam sem braços ou dedos por acidentes de trabalho e que não tinham direitos», acrescenta. Fala-se também aqui da «revolta dos chapeleiros », que quiseram destruir as máquinas acabadas de chegar da Alemanha, episódio imortalizado no livro Unhas Negras, de João da Silva Correia. E para não haver dúvidas quanto à dimensão humana, no andar de cima, dona Deolinda, ex-operária da Fábrica Nova, espera os visitantes enquanto faz acabamentos em chapéus. E conta que foi aos 10 anos que lá começou a trabalhar, ainda o dedal não lhe servia, fazendo os pequenos laços para coser no interior do chapéu.

«As mulheres eram mais baratas e nunca chegavam a mestres», acrescenta Suzana Menezes. Na sala seguinte, está exposta parte do acervo do museu, composto pelas coleções de chapéus de Manuel Pinho e de Daniel Serra Vaz. Com exemplares destas montou-se «A volta ao mundo em muitos chapéus». A propósito do décimo aniversário do museu, celebrado este ano, foram inaugurados núcleos dedicados ao comendador António José de Oliveira Júnior e a outro ilustre industrial da cidade, Vieira Araújo.

Este último é a personalidade de que se fala na paragem seguinte deste circuito – a Viarco. Manoel Vieira Araújo que começou, como muitos outros empresários da época, no negócio dos chapéus, tornou-se famoso como fabricante dos lápis Viarco, que passaram pelas mãos de muitas gerações de portugueses.

É o bisneto José Vieira que hoje toma conta da fábrica, única de lápis em Portugal, que passou por uma enorme crise com a concorrência dos mercados estrangeiros. «Tudo que perdemos em produto, ganhámos em criatividade», conta. A fábrica, uma «janela para o que foi a revolução industrial», está, contudo, bem no seu tempo. Aos trabalhadores que já lá estão há quatro décadas juntam- -se novos operários e também artistas, que ali fazem residências. E por essa razão se pode ver exposições de arte contemporânea na fábrica em laboração. Desta ligação com os artistas já nasceram novos produtos, como a linha Artgraf.

A Helsar produz sapatos de senhora de gama alta para o mercado internacional. Apesar de toda a maquinaria, é uma fábrica bastante artesanal, onde os sapatos são vistos um a um antes de serem embalados.

Não tão antiga como a Viarco, mas que dá continuidade à tradição industrial sanjoanense, é a Fepsa, fundada em 1969 – e outra das empresas do circuito de turismo industrial. Nas salas húmidas, com máquinas barulhentas e algum bulício, percebe-se o processo de transformação de pele de coelho em feltro que mais tarde dará chapéus. «Aqui não se fazem propriamente chapéus, só moldes. Isto porque os acabamentos ficam a cargo dos clientes», explica Alexandra Alves, guia do Turismo Industrial. Os clientes são todo o mundo. O feltro saído da Fepsa tanto cobre a cabeça de um polícia britânico como de um judeu ortodoxo ou de modelos Yves Saint Laurent.

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Da Fepsa, prossegue-se a visita pela Helsar, que também fabrica sapatos de senhora de gama alta para o mercado internacional. E que, com a Evereste (que faz calçado para homem), representa a conceituada indústria de calçado da cidade neste circuito. Em funcionamento há 36 anos, a fábrica é, pode dizer-se, e apesar de toda a alta maquinaria, bastante artesanal. Os sapatos são vistos um a um antes de serem embalados. É exatamente o contrário do que se passa na Heliotêxtil, pelo menos na parte visitável desta fábrica de etiquetas e passamanarias. Daqui saem etiquetas para roupas, lanyards, transferes para os equipamentos dos clubes de futebol da primeira Liga, elásticos e outros produtos.

O percurso pela indústria sanjoanense pode terminar em sítios mais arejados. Sugere-se uma visita à Oliva Creative Factory, perto da torre, um polo de indústrias criativas, para conhecer o seu núcleo de arte contemporânea e algumas das empresas que o espaço já viu nascer, algumas delas transformadas em lojas-ateliê como a And I Wonder, onde se fazem sapatos de cerimónia personalizados, ou a Catraia Ponto Final, onde convivem os projetos de recuperação de mobiliário antigo com desperdícios e de roupa nova feita com tecidos velhos. É novamente o passado e o presente a marcar o ritmo do futuro.

Visitar

Turismo Industrial
Welcome Center, Torre da Oliva
Rua Oliveira Júnior, 591
Tel.: 256200204/916515822
Web: turismoindustrial.cm-sjm.pt

Texto de Luísa Marinho - Fotografia de André Gouveia/Global Imagens