Na Suíça à descoberta do queijo, chocolate e extraterrestres

Às portas dos Alpes suíços, no Cantão de Friburgo, ergue-se Gruyères, povoação medieval a 830 metros de altitude. As montanhas nevadas rodeiam um vale cujas pastagens são responsáveis pela qualidade do leite de vaca que deu origem a dois produtos, imagens de marca do país: queijo e chocolate. A Suíça condensada numa só paisagem.

Texto de Paula Oliveira Silva - Fotografias Direitos Reservados 14 Oct 2016

Um grou, uma simples ave, esteve na origem de Gruyères. Reza a lenda que, numa longínqua noite, Gruerius, capitão dos vândalos, terá visto um grou no céu vermelho e por causa de tal visão terá decidido fundar um povoado nesse mesmo local. Gruyères não é só um lugar de fábulas, é também um sítio com história. O documento mais antigo referente a esta localidade remonta ao final do século XI, época em que o primeiro conde tomou como emblema da sua casa real precisamente o grou. Digno de visita, o castelo atual foi o lar da longa linhagem dos condes de Gruyères. Dezoito nobres se sucederam de 1080 até 1554, data que marca o fim desta história nobiliárquica com a falência do último dos condes.

Outras histórias e lendas descobrem-se quando se visita o Forte (cerca de nove euros por pessoa). À entrada estão disponíveis folhetos em português com uma explicação sucinta das cerca de vinte salas e outros espaços que compõem o castelo. A Sala dos Condes apresenta aos visitantes tapeçarias flamengas que representam cenas do Antigo Testamento. Já a Sala Barroca tem como atração os vitrais heráldicos e a Sala dos Cavaleiros é uma das mais sumptuosas, com uma decoração que remonta a 1852. Nos corredores encontramos porcelanas da Europa e da Ásia Oriental com cerca de trezentos anos e, para nosso espanto, um objeto que se tornou lendário, a «mão cortada». Não faltam estórias à sua volta mas a hipótese que agrada mais aos historiadores indica tratar-se da mão de uma múmia egípcia. Como é que ela ali foi parar, isso são outros quinhentos. Não dê por terminada a visita sem passar pelo jardim cuja configuração à francesa remonta apenas ao século XX.

Conhecido o castelo, embrenhamo-nos na povoação. O burgo tem praticamente uma única rua que se atravessa a pé porque os carros têm de ficar para lá das muralhas. Os turistas experimentam a temperatura da água da fonte, observam admirados as antigas medidas para o trigo feitas em pedra e, crentes ou nem por isso, entram na igreja dedicada a São Teodoro.

Museu do Tibete e homenagens a seres de outros planetas fazem parte desta pacata localidade nas montanhas suíças.

As lojas têm as portas fechadas, o que aqui não quer dizer nem encerrado nem falta de hospitalidade. É mesmo o frio que a isso obriga. Para se sentir bem-vindo, acomode-se à mesa de um dos restaurantes e experimente os típicos merengues da região, acompanhados de frutos vermelhos e natas frescas servidas em minicubas de madeira. Um trio crocante, frutado e cremoso para nos deixar em paz com o mundo.

 

Em Gruyères o improvável acontece e por isso o vetusto castelo convive com esculturas budistas e alienígenas oscarizados. Referimo-nos ao Museu do Tibete (cerca de nove euros por pessoa) e ao vizinho Museu H.R. Giger (11,50 euros).

Começamos pelo último, que expõe o trabalho do artista plástico suíço com o mesmo nome (Hans Ruedi Giger), autor do livro de 1976 Necronomicon. A obra chamou a atenção de Ridley Scott na altura em que andava à procura de uma criatura monstruosa para o filme Alien, O OitavoPassageiro. A película acabaria por ganhar o Óscar para Melhores Efeitos Visuais em 1980. Dezoito anos depois abriu portas estemuseu inquietante que convida os visitantes a mergulhar no mundo do fantástico através de um acervo de cerca de 250 obras como pinturas, cenários do filme e o Óscar, claro, e esculturas que o seu autor chamou de «biomecânicas». Olhos bem abertos e cabeças levantadas porque no teto pode estar uma criatura de outro mundo. Não se esqueça de passar pelo bar, situado em frente do museu, para ver a última criação de Giger, o artista que nasceu em 1940 em Coire, no Leste suíço, e morreu em 2014 em Zurique.

De um lado, a natureza alpina. Do outro, o misticismo de uma religião milenar. E o apelo extraterrestre.

Depois de enfrentar os monstros, porque não entrar no Museu do Tibete? Situado na renovada Capela de São José, santos católicos dos vitrais partilham o espaço com esculturas, pinturas e objetos de rituais budistas oriundos do Tibete, Nepal, Caxemira, Norte da Índia e Birmânia. Esta sugestão corresponde a uma paixão de 30 anos de um homem, Alain Bordier, pela filosofia e arte dos Himalaias. Inaugurado em 2009, este espaço museológico oferece uma coleção de arte sacra budista de cerca de quinhentas peças do século ix ao xix, todas elas ofertas de religiosos. Cobre, latão, ferro, madeira, osso, pedra e prata são alguns dos materiais utilizados.

 

Há um ditado que diz que nove em cada dez pessoas gostam de chocolate e a décima mente. Mas de onde vem o gosto dos helvéticos por esta delícia à base de cacau? Para contar a história, socorremo-nos de uma outra, a de François-Louis Cailler (1796-1852). No início do século XIX, este suíço empreendeu uma viagem por Itália e em Turim fez-se aprendiz de chocolateiro. Quando regressou ao seu país, fundou uma pequena empresa (1819) e começou a desenvolver receitas de chocolate com recurso a processos mecânicos de forma a torná-lo mais barato. Começava também aqui a história e a fama do chocolate na Suíça.

Para além de chocolateiro, François-Louis Cailler foi ainda um marketeer porque ao invés de vender o seu chocolate a peso como era costume na altura, fê-lo em embalagens. A primeira fábrica situava-se em Corsier-sur-Vevey, cantão de Vaud, mas já o século xix caminhava a passos largos para o fim quando o seu neto, Alexandre Cailler, encontrou em Broc, cantão de Friburgo, o local ideal para o fabrico em grande escala. O sítio tem paisagem idílica de montanha e é uma combinação vencedora de água e leite. Foi assim que, em 1898, a nova fábrica começou a produção dos chocolates Cailler. É precisamente essa fábrica, a Maison Cailler (entrada por 11 euros), a mais antiga que ainda labora neste país e o sítio turístico mais visitado da Suíça francófona (dados de 2014), que sugerimos que conheça. O resto da história podemos resumi-la aqui. A marca acabou por juntar-se em 1911 aos concorrentes da altura, Daniel Peter, seu genro, o inventor do chocolate de leite (à base de leite condensado e não de leite em pó) e Kohler, o «pai» do chocolate de avelã. Já na década de 1920 fundiram-se com a Nestlé. Mesmo com esta união, o passado foi preservado e os chocolates continuam a ser fabricados com o mesmo nome.

Na Maison Callier estão preparados workshops com mestres chocolateiros. E provas, claro.

Reserve cerca de hora e meia (se não houver filas) para esta visita que consiste em oito salas onde ficará a saber os detalhes da fabricação e os mitos à volta desta iguaria que começou por ser uma bebida sagrada para os aztecas. Quando o espanhol Cortéz levou o produto desconhecido para a Europa, a igreja não tardou a declará-lo «líquido maldito».

Passado todo o contexto histórico, outro ponto alto da visita é a linha de produção que permite observar, em tempo real, a fabricação dos minibranches. Segundo dados da Federação de Produtores Suíços de Chocolate, em 2014 as 18 marcas de chocolate suíço produziram em conjunto mais de 180 mil toneladas. Contudo, uma grande parte está destinada ao estrangeiro. Ainda assim cada habitante da Suíça come cerca de 12 quilos de chocolate por ano, o que faz deste país o maior consumidor de chocolate do mundo.

Apesar de a marca ser produzida exclusivamente na Suíça, ninguém duvida que este chocolate seja muito viajado. A baunilha vem de Madagáscar, a avelã da Turquia e as amêndoas da Califórnia, para citar algumas paragens. Pode inclusivamente enterrar as suas mãos nestas delícias, bem como nos grãos torrados de cacau e passar os dedos pela suavidade da manteiga de cacau. Como o leite é a principal caraterística deste chocolate, não poderíamos passar sem falar delas uma vez mais – as vacas. Cerca de 1800 animais que vivem num raio de trinta quilómetros da Maison Cailler e produzemseiscentos mil litros de leite fresco por mês.

Temperaturas corretas: para armazenar chocolate, 18ºC; 37ºC para o ponto de fusão do chocolate. Cada quadrado de chocolate pode ter até 500 sabores diferentes.

 

Em Pringy, no sopé do monte onde se levanta Gruyères, há outro motivo de visita, a Maison du Gruyère (cerca de 6,50 euros por pessoa), um dos atuais berços do famoso queijo suíço. É o mais produzido na Suíça – 29 420 toneladas em 2014 – e também o mais consumido entre os helvéticos. A receita à base de leite cru de vaca não pasteurizado conta, no mínimo, com 900 anos, atendendo a que foi encontrado um documento de 1115 que referia o seu fabrico.

Todavia, o batismo só se deu em 1602. Sendo certo que foi a povoação medieval que deu o nome ao queijo, não é menos verdade que é ele, atualmente, o grande embaixador da localidade de Gruyères no mundo. Só em 2001 chegou o tão desejado selo de denominação de origem protegida, mas a polémica com França, que também tem um queijo à base de leite de vaca com o mesmo nome, continua.

O interessante nesta queijaria é que, três a quatro vezes ao dia, é possível acompanhar uma parte do processo da transformação do leite em queijo, nomeadamente na sala das quatro cubas que juntas recebem até 19 200 litros de leite. A visita dura cerca de 45 minutos e na curta exposição que serve de enquadramento fica a saber-se que os agricultores vêm duas vezes por dia trazer o leite de vaca acabado de ordenhar. E não é tão pouco quanto isso, porque para produzir uma roda de 35 quilos são necessários cerca de 400 litros de leite e na Maison du Gruyère fazem-se 48 rodas todos os dias. Não menos curioso é saber que, para conseguir essa marca, as vacas bebem diariamente 85 litros de água e comem cerca de 100 quilos de pasto situado entre os 800 e os 1600 metros de altitude. O bouquet é composto por erva e flores no verão e feno no inverno, o que origina ligeiras diferenças de sabor.

O Gruyère é doce e salgado, embora mude com a idade. É cremoso quando novo e de sabor mais complexo quando velho.

É esta dieta 100% natural, conjuntamente com a habilidade do mestre queijeiro, que dá a este suíço Gruyère o seu sabor inimitável, numa feliz aliança entre a tradição e a inovação. As rodas de queijo repousam depois nas caves, num ambiente húmido (92%) com uma temperatura controlada entre os 12°C e os 18°C. A maturação é lenta e vai de 5 a 12 meses ou até mais

Estão ali sete mil rodas de queijo. Um robot passeia-se pelos corredores e trata da manutenção, virando os queijos e escovando-os periodicamente numa solução de água com sal. Esta rotina costuma levar muitos curiosos, mesmo que não tenham feito a visita paga, a colarem a cara ao vidro que dá para a cave. O ponto final fica a cargo da loja onde poderá comprar este queijo de cor marfim, pasta dura, sem buracos e ligeiramente húmido. Ou então do restaurante da Maison du Gruyère. Ora, se como se diz na Suíça o fondue cria bom humor, não perca a oportunidade de ficar ainda mais alegre ao degustar o verdadeiro moitié-moitié à base de Gruyère e Vacherin Fribourgeois. Caso não seja hora de almoço socorra-se das três amostras de queijo que lhe foram dadas à entrada da visita e que correspondem a curas de seis, oito e dez meses.

 

De Broc sugerimos que regresse a Gruyères (dez minutos de carro) e que daí siga as indicações para o Moléson, cujo cume fica a 2002 metros de altitude. Para lá chegar utilize o funicular (23 euros por pessoa) que se apanha na povoação Moléson-sur-Gruyères até Plan-Francey, a 1520 metros de altitude. A viagem continua depois com o teleférico a pairar sobre a paisagem num total de cerca de dez minutos de trajeto. Este é um lugar de partida de inúmeros trilhos que pode percorrer a pé na primavera. Com o tempo frio, chega a neve e com ela uma oportunidade para praticar ou para se estrear no esqui. São 35 quilómetros de pistas para todos os níveis. Mas também poderá experimentar deslizar de trenó e passear com as raquetes.

O Cantão de Friburgo tem cerca de 280 mil habitantes. Francês e alemão são os idiomas mais falados.

Do cume as vistas abrem-se para Gruyères e para uma boa parte da Suíça francófona, como o Léman, o maior lago da Europa Ocidental, algumas das cidades da Riviera Suíça, e a cordilheira do Jura que atravessa o país. A panorâmica chega a França, com o famoso Mont Blanc, a mais alta montanha alpina com 4808 metros de altitude.

O restaurante ali instalado oferece de bandeja um cenário de 360°. Pratos regionais como o típico fondue é o que vai encontrar aqui. O edifício esconde ainda uma outra surpresa, apenas disponível nas noites de verão: o observatório. Longe das luzes das cidades, todas as atenções estão viradas para o céu e para os segredos que ele esconde. Uma vez mais, também esta chegada ao topo significa um final feliz.

 

Guia

Documentos: Passaporte
Fuso horário: GMT +1 hora
Idioma: Francês, Italiano e Alemão
Câmvio: Franco suíço CHF – 1 euro equivale a 1,09 CHF
Quando ir: nos meses de inverno para quem quiser juntar o passeio aos esquis. Na época de primavera e no verão para os viajantes que preferem caminhadas pela natureza e circuitos por cidades de montanha.

Ir

De carro, utilizando a autoestrada A12, sair na indicação de Bulle para de seguida tomar a H189 em direção a Gruyères. Parque de estacionamento gratuito à entrada do burgo, a 500 m do castelo.

 

Dormir

Hostellerie Saint Georges
Mesmo no centro de Gruyères, os quartos – com vista para o vale ou para o burgo medieval – têm o nome de uma personalidade importante da história da povoação nos últimos cinco séculos. Tem restaurante que serve especialidades suíças. Wi-fi e estacionamento gratuito para hós edes.
Rue du Bourg, 22
Gruyères

Hôtel de Gruyères
Com o castelo a 500 metros, da maior parte dos quartos é possível apreciarem-se vastas panorâmicas de montanha. O jardim e o terraço são muito apreciados pelo tempo mais quente. Apresenta sauna e sala de fitness. Acesso wi-fi grátis para hóspedes.
Ruelle des Chevaliers, 1
Gruyères

Comer

Giger Bar
Vai pensar que aterrou noutro planeta. Para beber uma cerveja, um café ou um chocolate quente. Impossível apreciar todos os detalhes da decoração, essa sim, a maior atração. É o bar do Museu H.R. Giger.
Château St. Germain, Gruyères
info@hrgigermuseum.com

Le Chalet de Gruyères
Chalé em plena vila medieval forrado a madeira e decorado com os típicos chocalhos. Para comer o não menos típico fondue, pois claro.
Rue du Bourg, 53
Gruyères
chatet@gruyereshotels.ch

Visitar

Castelo de Gruyères
Rue du Château, 8
Gruyères
chateau-gruyeres.ch

Museu H.R.Giger
Château St. Germain, Gruyères
hrgigermuseum.com

Museu do Tibet Fondation Alain Bordier
Rue du Château, 4
Gruyères
tibetmuseum.ch

Maison Cailler
Rua Jules Bellet, 7
1636 Broc
cailler.ch

Consultar

Turismo de Gruyères
Rue du Bourg, 1
Gruyères
la-gruyere.ch/gruyeres

Turismo de Moléson-sur-Gruyères
Place de L’Aigle, 6
Moléson-Sur-Gruyères
moleson.ch

Nota: a apenas sete quilómetros de Gruyères. Estacionamento gratuito situado junto às partidas do funicular.

Percorra a galeria de imagens acima clicando sobre as setas.