Conhecida sobretudo pelas feiras profissionais que acolhe, Hanôver é, afinal, uma cidade com muita pinta. A curta distância, Goslar, classificada Património Mundial pela UNESCO, esta cidade arrebata pelo charme. Há bastante para descobrir numa escapadinha prolongada neste estado alemão.

Texto de Teresa Frederico
Fotografias de Artur Machado / Global Imagens

A pergunta não é de estranhar.«Hanôver? Tem graça?» E não é de estranhar dado tratar-se de uma cidade alemã geralmente associada aos eventos internacionais que aqui decorrem, como a CeBIT, principal feira de tecnologias do mundo. Mas a resposta é essa sim, surpreendente: sim, Hanôver tem graça e vale mesmo a visita. Melhor ainda, a capital da Baixa Saxónia é um bom ponto de partida para descobrir uma região que proporciona experiências muito diversificadas, quer se seja fã de jardins, bibliotecas, automóveis, minas ou até de robôs cantores…

Uma cidade para pisar o risco
Quase totalmente arrasada na Segunda Guerra Mundial (85% ficou destruída na sequência de 88 bombardeamentos) renasceu e é hoje, além de importante centro industrial, tecnológico e de negócios, a mais verde cidade alemã: grande parte da sua área é ocupada por jardins e afins, destacando-se a floresta urbana de Eilenriede, com quase o dobro do tamanho do nova-iorquino Central Park.

Descobri-la é simples: basta seguir uma linha vermelha pintada no solo que leva aos principais pontos de interesse, num passeio com quatro quilómetros. Um guia disponível no posto de turismo (também numa versão «portuguesa» que precisa de ser bastante melhorada) acompanha o percurso a par e passo, fornecendo informação sobre todos esses locais, 36 no total.

Comece-se, de manhãzinha, pelo Maschpark, com uma lagoa artificial e que se enche de gente mal o sol decide dar ar da sua graça, a caminho da Neues Rathaus – ou «nova Câmara Municipal» –, uma das principais atrações. O percurso é agradável, o destino proporciona uma experiência diferente: com teto e chão de vidro, o elevador acompanha a curvatura da cúpula, num ângulo de 15 graus, provocando uma sensação inesperada. Lá do topo, a 97 metros de altura, a vista é obviamente ampla, permitindo até vislumbrar as montanhas do Harz quando está bom tempo.

Erguido sobre mais de 6000 estacas cravadas no solo pantanoso, o edifício foi inaugurado em 1913 e acolhe o gabinete do presidente e a assembleia municipal. À entrada, quatro maquetas revelam a evolução da cidade, retratando-a em 1689, antes da II Guerra Mundial, após os bombardeamentos e na atualidade. É uma visão impressionante, tal como impressiona a visita à Aegidienkirche, igreja mantida em ruínas como memorial às vítimas da guerra. Restam-lhe apenas paredes e a torre, com o Sino da Paz, oferecido pela cidade geminada de Hiroxima.

Apenas 40 edifícios em enxaimel sobreviveram à II Guerra Mundial. As restantes fachadas foram trazidas de outros locais da cidade.

Está-se na Altstadt (ou «cidade velha») que, na verdade, de velha tem pouco. A original, de ruas estreitas e construções em enxaimel, habitada por gente pobre que aqui vivia em más condições e associada ao crime, praticamente desapareceu durante o conflito. Apenas sobreviveram uns 40 edifícios, tendo as restantes fachadas sido para aqui trazidas durante a reconstrução. O prédio mais antigo, datado de 1566 e por sinal bem bonito, fica na Burgstrasse. Nas imediações pode ver-se a Kreuzkirche, igreja construída em 1333, com um altar assinado pelo pintor Lucas Cranach, o Velho e que frequentemente acolhe concertos. Restaurantes, bares e festas quando o tempo aquece fazem desta uma zona incontornável em qualquer visita à cidade.

Da arte colorida à sopa de cerveja
Outra área incontornável de Hanôver é Leibnizufer, onde se encontram três grandes esculturas femininas multicolores. São as Nanas, obras da artista francesa Niki de Saint Phalle, estão distribuídas ao longo da zona que acolhe todos os sábados a Feira da Ladra mais antiga da Alemanha e hoje constituem um ícone da cidade. Mas nem sempre foram apreciadas pelos residentes.

Quando, em 1974, aqui foram colocadas geraram polémica e originaram até um debate sobre a arte em espaços públicos. Depois acabaram por ser aceites, Niki viria a receber o título de cidadã honorária de Hanôver em 2000 e agradeceu a honra doando centenas de obras ao Museu Sprengel (onde estão também representados Picasso, Kandinsky ou Chagall).

Ver outros trabalhos da artista passa por uma prazerosa visita ao Palácio e Jardins de Herrenhausen, a curta distância usando os transportes públicos. Foi residência de verão da Casa Real de Hanôver, também destruído durante a guerra, reconstruído com o apoio da Fundação Volkswagen e reabriu no início de 2013. Acolhe um museu, exposições temporárias e espaços para eventos mas o principal atrativo serão os jardins, com destaque para o barroco Grosser Garten, considerado um dos mais importantes da Europa.

Em tempos cenário de festas da fina flor da aristocracia, atualmente é também usado em visitas de estado, como aconteceu em 2014, quando Angela Merkel por aqui se passeou com o ex-presidente americano Barack Obama. Desconhece-se se o levou à Gruta, espaço setecentista e refúgio para o calor e sol e que viria a ser transformado por Niki de Saint Phale numa obra de arte, usando materiais como espelhos, vidros coloridos ou pedras da praia.

De volta ao centro de Hanôver há que beber uma cerveja. O Markethalle, mercado de frescos e ponto de encontro, é um bom local para o fazer, assim como para almoçar a preços convidativos. Na típica Broyhan Haus, na Kramerstrasse, a bebida parece ter um sabor especial: afinal o mestre cervejeiro Cord Boyhan viveu neste edifício há quase 500 anos. Talvez como homenagem, o restaurante serve uma sopa de cerveja bem gostosa, embora o picante distraia o paladar.

Para terminar a visita como começou, uma vista ampla sobre a cidade é a que oferece o Sinne Skybar. Regressa-se ao hotel reconfortado e ainda a trautear Holiday, dos Scorpions, que não sai da cabeça desde que o barman comentou que a banda nasceu em Hanôver há já 52 anos.

Goslar e Rammelsberg: charme e minas Património Mundial
A uns 85 quilómetros de Hanôver, Goslar é visita obrigatória até por constar nas listas do Património Mundial da UNESCO, com as minas de Rammelsberg que em tempos a tornaram rica. Uma das sedes do Império Romano do século X ao XII, o centro está excecionalmente bem preservado, com 1500 casas em enxaimel dos séculos XV e XIX. A silhueta é definida pelas torres de nada menos de 47 igrejas e capelas. É mais irresistível ao final do dia, quando a iluminação se acende e lhe acentua as feições.

A Praça do Mercado é especialmente concorrida quando o glockenspiel apresenta o seu espetáculo: quatro vezes por dia (às 09h00, 12h00, 15h00 e 18h00) a história das minas vizinhas é contada por figuras que vão desfilando ao som dos sinos. No meio da praça, uma fonte com uma águia dourada, símbolo da cidade, também tem de contar: é, na verdade, uma espécie de puzzle com elementos de vários períodos, desde a base, do século xii, à própria ave, que associa peças dos séculos XIII e XVIII. À volta, hotéis e restaurantes com esplanadas, muito frequentadas mesmo em dias frios, concentram a maior parte dos visitantes. Uma boa opção para jantar: uma incontornável currywurst (ou salsicha com caril) acompanhada por uma Gose, a cerveja de Goslar, é o típico e simpático Die Butterhanne.

Há outros locais a conhecer, como a Câmara Municipal ou a casa da família Siemens, mas imperdível é a mina de Rammelsberg pois documenta um milénio de mineração, e daí a sua classificação como Património Mundial da UNESCO. Cobre, chumbo, zinco e alguma prata foram daqui extraídos até 1988, quando foi desativada. Dois anos depois nasceu o atual museu, bastante interessante. Às pequenas cidades do Sul de Inglaterra não lhes falta vida e cor.

De capacete na cabeça e com um guia vestido de mineiro, descobre-se como esta vida era ainda mais difícil do que se supõe: podia demorar-se duas horas para chegar ao local de trabalho, dentro da mina, e esse tempo não era pago; um dia inteiro a escavar, à mão, servia para a galeria avançar apenas um centímetro… As consequências para a saúde são óbvias e sentem-se mesmo numa curta visita ao interior. A temperatura é de 12 graus e a humidade elevada, aconselhando o uso de vestuário adequado e calçado resistente.

Curiosamente, há casais que decidem fazer aqui a sua festa de matrimónio, num espaço subterrâneo. Será uma experiência diferente, claramente, mas também num sítio que ganhou ainda maior fama por servir de cenário às filmagens de Os Caçadores de Tesouros, realizado e protagonizado por George Clooney, ao lado Cate Blanchett e Matt Damon, entre outros. Fica a saber-se que Clooney é menos alto do que possa parecer nos ecrãs e muito simpático, opinião partilhada pelos funcionários do Steinberg Alm «Zum Rösner», restaurante num chalé de madeira situado nas imediações onde o cobiçado ator terá provado as iguarias locais e apreciado a paisagem verdejante (além de posar para as fotos exibidas logo à entrada).

Wolfenbüttel: História e um brinde com Jägermeister
A cerca de uma hora de automóvel de Hanôver, esta é outra cidadezinha engraçada, igualmente com o centro feito de casas em enxaimel. Durante séculos (entre 1432 e 1752) foi residência dos duques de Brunswick e Lüneburg, amantes das artes e que, portanto, a transformaram num centro de cultura. Visitar o palácio ducal convertido em museu permite saber mais sobre esses tempos. Por detrás da fachada escondem-se espaços ricamente decorados com pinturas, estátuas, tapeçarias, lustres e demais ornamentos que, na época, serviam para ostentar opulência. Está tudo no devido lugar, como se o duque pudesse entrar a qualquer momento para saudar os visitantes ou sentar-se à mesa para uma refeição, tão bem recriada que abre o apetite.

No entanto, a principal atração de Wolfenbüttel é outra: a Biblioteca Herzog August, uma das mais antigas do mundo (foi fundada em 1572) a sobreviver até aos nossos dias sem sofrer perdas nas suas coleções, constituídas por mais de um milhão de títulos, 12 mil manuscritos incluídos. Com obras que valem fortunas, conta ainda com uma «sala de globos terrestres» na qual as Descobertas portuguesas se encontram representadas através de um mapa de 1509.

O passeio deve estender-se à área de Klein Venedig, ou «Pequena Veneza», com canais a fazer lembrar a cidade italiana. Estranhamente, há bicicletas submersas na água… e não, não se trata de uma instalação artística. Serão provavelmente resultado do consumo excessivo de Jägermeister, potente licor aqui criado em 1935 e que hoje em dia é o nono destilado mais consumido em todo o mundo.

Wolfsburg: uma cidade feita à medida
A última cidade deste périplo fica também a cerca de uma hora da capital do estado e é completamente diferente das outras: nasceu em 1938 como bairro residencial para os trabalhadores da fábrica da Volkswagen, hoje o seu maior ícone é a Autostadt, centro
de distribuição da marca mas também um parque temático inaugurado em 2000 e que
atrai milhões (2,42 em 2015) de visitantes por ano, sendo que apenas uma parte vem aqui levantar o seu veículo novinho em folha. Nem mesmo o recente escândalo – revelando que os automóveis emitiam gases tóxicos em quantidade muito superior à anunciada pela empresa – abrandou o número de visitas.

Com 28 hectares, o Parque Temático Autostadt colhe um museu, arte contemporânea e serve de cenário a um festival.

O que é que tem de especial? É um parque de 28 hectares com lagoas, obras de arte, museu, um hotel de cinco estrelas (Ritz-Carlton), vários restaurantes, incluindo um com três estrelas Michelin (Aqua, do chef Sven Elverfeld) e organiza regularmente eventos para toda a família. É tão grande e há tanto para ver que convém ter à mão o mapa distribuído à entrada.

O primeiro automóvel, criado em 1886 por Karl Benz; um Skoda de 1905; o primeiro (1938) e o último (2003) «Carochas» produzidos integram a coleção do museu Zeithaus, interessante mesmo para quem não tenha especial fascínio por carros. Já os apreciadores não deixam escapar a oportunidade de fazer uma selfie ao volante do mais recente (e caríssimo) Porsche. Lá fora, o Scent Tunnel, de Olafur Eliasson, é uma das várias obras de arte contemporânea a apreciar e de 21 de abril a 21 de maio decorrerá mais uma edição do festival Movimentos, com um programa que abrange dança, teatro e concertos de vários estilos musicais, da clássica à pop. A Autostadt é um mundo e as crianças não são esquecidas: podem frequentar a «escola de cozinha» ou mesmo tirar a «carta de condução».

Do outro lado da rua, os petizes também encontram muito com que se entreter no Phaeno, centro de ciência num edifício concebido pela arquiteta Zaha Hadid que mais parece uma nave espacial. Proporciona mil e uma experiências e muitas delas culminam com gargalhadas, de miúdos e de graúdos, tão ou mais surpreendidos com algumas destas descobertas. Quem diria que um robô consegue interpretar tão bem temas como Singing in the Rain? É mais uma música que fica a pairar na cabeça e não deixará de ser associada aos dias aprazíveis passados neste estado alemão.


Guia para Hanôver

Documentos: Cartão de Cidadão ou passaporte
Moeda: Euro
Fuso Horário: GMT + 1 Hora
Idioma: Alemão (mas é mais fácil comunicar em Inglês)

Ir
A TAP (flytap.com) e a Lufthansa (lufthansa.com) têm voos de ida e volta para Hanôver, com escala em Munique ou Frankfurt, que rondam os 200€.

Transportes
Convém adquirir o HannoverCard, que dá acesso gratuito aos transportes públicos e descontos em atrações turísticas e restaurantes. Custa 9,5€ (um dia), 15€ (dois dias) ou 18€ (três dias). Também está disponível para grupos até cinco pessoas por 20€, 27€ e 35€, respetivamente.

Dormir
Mercure Hotel Hannover City
Hotel de quatro estrelas com 145 quartos, fica no centro da cidade. WiFi gratuita e a diária, que ronda os 100€ em duplo, inclui pequeno-almoço.
Willy-Brandt-Allee 3, Hanôver
Tel. 0049 511 80 080
> mercure.com

Prizeotel
Não tão central mas acessível de metro, este colorido budget design hotel, assinado pelo premiado Karim Rashid, oferece diárias a partir de 64€ em quarto duplo.
Hamburger Allee 50, Hanôver
Tel. 0049 421 2222 100
> prizeotel.com

Comer
6 Sinne Skybar & Restaurant
Os pratos, que em média custam 25€, têm nomes curiosos como «Long Distance Relashionship» ou «Double Life». Fica no sexto andar de um edifício no centro.
Heiligerstrasse 16, Hanôver
Tel. 0049 511 47 388 038
> 6sinne-hannover.de

Broyhan Haus
No centro, ocupa um edifício histórico e o menu tem gastronomia tradicional. Experimente a «sopa de cerveja».
Kramerstrasse 24, Hanôver
> broyhanhaus.de

Schlossküche Herrenhausen
Bom para um almoço na visita aos jardins de Herrenhausen. O menu custa 24€.
Alte Herrenhäuser Strasse 3, Hanôver
> schlosskueche-herrenhausen.de

Die Butterhanne
Um restaurante agradável para jantar, no centro de Goslar. A típica salsicha alemã currywurst, por exemplo, custa 6,90€. Prove uma Gose, a cerveja local.
Marktkirchhof 3, Goslar
> die-butterhanne.de

Steinberg Alm “Zum Rösner”
Restaurante num chalé de madeira, a meio caminho entre Goslar e a mina de Rammelsberg, com vista sobre os campos. Pratos, sobretudo de carne mas também vegetarianos, a partir de 10€.
Nonnenberg 11, Goslar
> steinbergalm.de

Comprar
Experimente a Feira da Ladra. Para iguarias locais o sítio indicado é o Markethalle. Em Wolfsburg, a poucos passos do Autostadt, há um outlet com 70 conhecidas marcas e descontos até 70% (designeroutlets-wolfsburg.de).

Visitar
Palácio e Jardins de Herrenhausen
Herrenhäuser Strasse 4, Hanôver
> www.hannover.de

Minas de Rammelsberg
Bergtal 19, Goslar
> rammelsberg.de

Schloss Museum Wolfenbüttel
Schlossplatz 13, Wolfenbüttel
> schlosswolfenbuettel.de

Autostadt
Stadtbrücke, Wolfsburg
> autostadt.de

Phaeno
Willy-Brandt-Platz 1, Wolfsburg
> phaeno.de

Consultar
> visit-hannover.com
> 9cities.de
> germany.travel

Agradecimentos: A Volta ao Mundo viajou a convite da Germany Travel.


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