Uma crónica de José Luís Peixoto. O «Passageiro Frequente» da Volta ao Mundo.

Passageiro Frequente

Imaginar a viagem é já uma forma de viajar. Não é imperativo que se trate de um plano para uma viagem à beira de ser marcada, mas ganha força quando alimentamos a expetativa de, cedo ou tarde, estarmos dentro daquele lugar que, ainda imaginado, está dentro de nós.
A nitidez desse turismo sonhado depende do nosso olhar e, assim, é também uma viagem em nós próprios. Aquilo que formos capazes de imaginar é determinante, é tudo. A matéria que permite a imaginação é retirada do que conhecemos: as referências que suportam o pensamento, as traves mestras da nossa visão do mundo.
Hoje, com as coisas da internet, é possível apurar com precisão os detalhes do que vamos visitar. Essa é a ilusão de objetividade das fotografias e dos audiovisuais. Quanto mais se acredita nessas imagens, maior é a surpresa ao chegar, depois de quilómetros, milhas ou léguas. Sem dúvidas, percebe-se então que, para lá dos contornos e das cores, também há a temperatura, o cheiro, as horas do dia, o medo, todas as dimensões do invisível. E, para essas, não há internets que as difundam ou máquinas que as captem. É preciso ir lá, estar lá ou, aproximadamente, imaginá-las, convocá-las para a imaginação/memória dos sentidos.
Com esta constatação não quero, claro, inferiorizar as tentativas de reprodução da viagem. Na maior parte dos casos, são sugestões honestas daquilo que é um lugar. No entanto, fazem-no sempre em função da sua perspectiva e da sua circunstância que, só muito casualmente, coincidirá com a perspectiva do outro. Não substituem, portanto, a necessidade de ir lá. Ler um livro sobre Viena não é o mesmo do que ir a Viena, ver um filme sobre Paris não é o mesmo do que ir a Paris, ver uma exposição sobre o Rio de Janeiro não é o mesmo do que ir ao Rio de Janeiro. Imaginar Viena, Paris ou o Rio de Janeiro também não, mas é um nível de entendimento que não deve ser descurado, é um exercício que, com tempo e condições favoráveis, merece incentivo.

Encontrando um bom sofá, sou a favor de passar horas em visitas meticulosas a museus onde nunca se esteve. Acho saudável que, com os olhos abertos ou fechados, nos passeemos por um Azerbeijão totalmente imaginário (…).

Encontrando um bom sofá, sou a favor de passar horas em visitas meticulosas a museus onde nunca se esteve. Acho saudável que, com os olhos abertos ou fechados, nos passeemos por um Azerbaijão totalmente imaginário ou que procuremos na pele o toque da areia, da água, do sol na Polinésia Francesa. Também é para isso que temos pele.
A minha experiência tirou-me as dúvidas acerca das grandes diferenças que encontro quando, mais tarde, concretizo essas viagens, mas parece-me que é justamente por isso que não devo desperdiçar a antecipação. Há um prazer que merece ser aproveitado no horizonte de possibilidades infinitas que o desconhecido oferece. No momento em que visito um determinado lugar deixo de poder imaginá-lo com a mesma liberdade de antes. A partir desse dia, nunca mais posso regressar aos dias anteriores a ele.
Não haveremos de nos atrasar, chegará uma hora em que, de bilhete na mão, lugar marcado, com malas e espanto, nos deslocaremos no espaço, mas a viagem, no seu sentido mais profundo, começa no instante em que a imaginamos.

Texto de José Luís Peixoto
Crónica da edição de abril 2015 - n.º 246