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O mar está sempre presente. A montanha também. Tudo na cidade mais populosa das Astúrias tem um tempero muito próprio: a comida, o clima, o bairrismo e o sentido de humor.

Tanto ao mar, tanto à terra

Está calor, diz ele. A temperatura andará nos vinte e tal graus, o céu está meio encoberto, corre uma aragem fresca que pede casaco. Ainda assim, Miguel Villar insiste em dizer que está um belo dia de verão. E a verdade é que o areal está cheio de gente.
A praia chama-se San Llorienzo, mas, como em tantas outras coisas de Gijón, prevalece a alcunha, El Tostaderu. Se a tradução fosse necessária, bastaria olhar para o mar de gente estendida na toalha, a torrar ao sol, para lhe perceber o sentido. Sim, está um belo dia de verão.

Os gijoneses adoram o seu sol. E o seu vento, a sua chuva, resumindo: o seu clima. Se o astro-rei brilha, enchem o passeio marítimo da Avenida García Rendueles, que acompanha a curvatura da baía: ciclistas, crianças e adultos de patins, gente que passeia cães, outros que apenas se passeiam a si próprios. Mas mesmo em dias menos convidativos os habitantes da maior cidade das Astúrias arranjam motivos para sair de casa. O percurso pedestre de dez quilómetros que liga o centro à praia de La Ñora não é um trilho fácil, ainda que bem cuidado e sinalizado. No entanto, não lhe faltam passeantes de todas as idades, que vencem a distância e o desnível com espantoso fôlego. «Gostamos de andar na rua, sabes?», diz com desassombro Miguel, técnico da empresa municipal de turismo e cicerone desta caminhada pela costa.

O mar está bem presente, na paisagem mas também (e sobretudo) na mesa: dos peixes e mariscos mais nobres aos petiscos do dia a dia, como os biqueirões fritos da Casa Trabanco.

Os gijoneses adoram o seu sol. Se está calor, as esplanadas das sidrerías enchem-se de gente.

O passeio dá a conhecer vistas espantosas: praias de água cristalina, promontórios, manchas de bosque. E também uma invulgar coleção de arte pública, que imprime maior dramatismo à paisagem. Junto à praia de El Rinconín, a tocante estátua A Mãe do Emigrante, de roupas esfarrapadas, acena ao horizonte. Nem ela está livre de alcunha: chamam-lhe A Maluca de Rinconín. Mas, em matéria de apodos com tanto de depreciativo como de carinhoso, outra obra leva o troféu.

O Elogio do Horizonte fica bem no topo de Cimavilla, o bairro onde Gijón nasceu. Mesmo lá em cima, no cocuruto do Cerro de Santa Catalina, rodeado por um imenso relvado com panorâmicas desafogadas para o mar e para toda a frente marítima. A maciça escultura de betão – quinhentas toneladas e dez metros de altura – criada pelo basco Eduardo Chillida está lá desde 1990. Volvidos 25 anos (e amortizado o impacto dos cem milhões de pesetas que custou), os gijoneses parecem conciliados com o facto de se ter tornado um símbolo da cidade. Mas não se livrou do título Cagaderu de King Kong, que dispensa tradução.
Quem vive no Cimavilla também tem designação própria. São os playos, «aqueles que iam à praia», e o areal de San Llorienzo era deles, muito antes da chegada dos turistas. São gente bairrista, orgulhosa das suas origens, zelosa em se apartar do resto da população, a quem chamam «rabos molhados» – mas não se pense tratar-se de famílias de sangue azul. Aliás, Gijón não é terra de grande tradição aristocrática; a cidade fez-se de gente do mar, de mineiros, de trabalhadores braçais, daí a sua forte veia contestatária, republicana, que lhe custou pesados bombardeamentos pelas forças franquistas durante a Guerra Civil.

«¡Puxa Sporting!» é palavra de ordem. Por aqui, impera o vermelho e branco do Real Sporting de Gijón, que neste ano regressa à elite do futebol espanhol, La Liga.

O bairro histórico fica no interior da antiga cerca romana. A muralha já não está lá, mas permanece uma estrutura a lembrar o seu traçado. Daí para dentro, são ruas estreitas, de traçado medieval, onde persistem alguns edifícios exemplares da arquitetura vernacular, casas típicas de pescadores, varandas de madeira, vasos floridos. Não é um centro histórico perfeito, é uma cidade vivida, a precisar de alguns cuidados, mas ainda assim encantadora. Do Cerro de Santa Catalina, desce-se pela Subida Al Cerro para chegar à outra baía de Gijón (Cimavilla é uma península entre ambas): a da praia Poniente e do porto de recreio. Pelas ruelas Cuesta L’Chollo e Tránsito de las Ballenas, se o tempo estiver convidativo, junta-se uma multidão, a maioria na casa dos 20, para aproveitar o final de tarde. Trazem garrafas de sidra e sentam-se nos muros, nos degraus, no chão, de olhos na calmaria da marina.

Junto ao porto de recreio, os finais de tarde são passados de copo de sidra na mão e olhos postos na calmaria da marina.

É chegada a altura de falar da bebida oficial das Astúrias. A sidra, mais do que mero vinho de maçã, é um símbolo da identidade regional, e o combustível de toda a sorte de celebrações. «Produzimos oitenta milhões de litros e ficamos com cerca de oitenta por cento para nosso consumo», diz Denis Soria, guia turístico que, além de ser filho da terra, se desenvencilha bem a explicar a sua cidade em português. «Portanto», continua, «pouca sidra sai daqui para o resto de Espanha». Resultado: o sidraturismo tornou-se uma das grandes atrações locais. Sidrerías não faltam por aqui. A La Galana, na Plaza Mayor, é uma das mais emblemáticas, mas cada gijonés terá a sua preferida. «Escolhemos em função da sidra que vendem», diz Miguel Villar. E cada casa é fiel a uma marca específica. Na La Galana, servem JR. E o serviço, esse é todo um espetáculo digno de se ver: o empregado segura a garrafa acima da cabeça, o copo à cintura, e verte a sidra com grande aparato. A esta técnica chama-se escanceio: o impacto do líquido no vidro liberta os seus aromas e «acorda-o»; depois, bebe-se de um só trago, e continua-se a conversa, até ser servido mais um culín, a medida oficial, três dedos aferidos a olho. A técnica tem também uma vertente de show-off, de estilo pessoal, e há campeonatos para decidir quem é o melhor escanceador.

Na antiga universidade, hoje polo cultural, está o informal La Cocina, um restaurante de decoração vintage e ambiente cool.

Curiosamente, apesar da aparente simplicidade – afinal, há apenas dois tipos, a sidra normal e a DOP, de qualidade superior e certificada –, há muito para aprender sobre o assunto. Nos arredores de Gijón, existem vários llagares, onde se pode visitar os pomares, as salas de prensas, as caves de barricas, aprender a escancear e, claro, provar a especialidade da casa – sempre com um petisco, porque, dizem, a sidra não cai bem em estômago vazio. Por norma, pão e diversos queijos – e esse capítulo também daria pano para mangas, já que nas Astúrias estão listadas mais de quarenta variedades. Na Casa Trabanco, fundada em 1925, após a visita à curiosa cave instalada num antigo túnel ferroviário, a degustação é acompanhada de Afuega’l Pitu (de vaca) e Cabrales (azul, de mistura), queijos fortes e intensos que dão bom casamento para a frescura da sidra. Para pratos de substância, basta subir à sala do restaurante, por cima do llagar.

Sobre a mesa serve-se cozinha local, com um detalhe encantador: praticamente tudo é de produção própria. E o que não é vem de perto – peixe da lota de Luarca, laticínios de produtores vizinhos, carne de matança. Os legumes, que a cozinha trata com carinho exemplar, são da horta da casa e até a farinha usada no pão é de milho criado pelos proprietários, moída num moinho de água.

A escultura Elogio do Horizonte mede dez metros, pesa quinhentas toneladas e é um dos símbolos da cidade. Porém, como tudo o resto em Gijón, não se livra de uma alcunha chistosa.

Tudo o que chega à mesa é precioso: tortos (panquecas de milho fritas) com ovo estrelado e pisto de verduras, e com Cabrales e maçã; chuletón de vaca tenro e suculento; e, a terminar, arroz-doce à asturiana, que leva anis e, por cima, uma crosta de açúcar. A sidra, essa não para de fluir, culín após culín. É uma bebida democrática, partilhada pelo povo e pelas elites. A prova disso é que do tasco à mesa mais refinada não há grandes variações no preço da garrafa. Ronda, em regra, os 2,50 euros por 0,7 litros. Importa, contudo, esclarecer que, no copo, as Astúrias não se esgotam na sidra. No Auga, estrela Michelin desde 2005 (nota avulsa: Gijón tem três restaurantes estrelados, tantos como Lisboa, e apenas um décimo da população), o menu preparado pelo chef Gonzalo Pañeda vem acompanhado por um competente Albariño regional. A sua frescura assenta bem nos sabores do mar asturiano: lagostim ao natural com toucinho, vieira com maçã verde e puré de couve-flor trufado, pescada de pintxo em sopa de batata, citrinos e cardamomo, bacalhau de meia cura sobre pilpil de pimentão e pimento seco. Para adoçar a sobremesa, uma memorável sopa de queijo de cabra com azeite, avelã e gelado de mel, Toni Perez, sócio de Gonzalo e mestre-de cerimónias, traz, em copos gelados para maior efeito dramático, uma preciosidade canadiana chamada sidra de gelo. Correndo o risco de simplificar demasiado as coisas, pode dizer-se que é o equivalente a um colheita tardia no mundo dos vinhos – e o sabor tem as suas semelhanças. Um final perfeito.

Denis não partilha desse entusiasmo. Miguel também não. Será, talvez, como impingir moscatel de Favaios a um setubalense. «Para os asturianos, sidra é a nossa, a tradicional.» Mas para o resto terão, com certeza, uma boa alcunha.


Ficar:

Hotel AbbaPlaya
Um quatro estrelas de praia, perto do areal de San Llorienzo. Tem 80 quartos espaçosos, de traço moderno, com vista para o mar, e um bar no terraço perfeito para admirar o pôr do Sol – e ficar noite dentro.

Paseo Dr. Flemming, 37
Tel.: (+34) 985000000
Web: abbagijonhotel.com
Preço: Quarto duplo a partir de
75 euros por noite

 

 

Texto de João Mestre - Fotografias de Gerardo Santos/Global Imagens