Muito menos invadida por turistas do que o lado minhoto, a metade transmontana do Gerês preserva-se intocada há séculos, na paisagem e na atividade humana. Mergulho em terra de lobos, de pastores e de aldeias que parecem nascer do chão.

Montalegre, no trilho dos lobos

Percorrendo com o dedo um mapa da fronteira norte, Tourém é a primeira terra transmontana, um dedo de Portugal que avança Espanha adentro. É terra de pastores – e não há fim de tarde em que o retorno das vacas aos currais não constitua um regalo para os olhos. O casario, granítico, parece ter brotado do chão e o povo – que é cada vez menos e está cada vez mais cansado – ainda alimenta tradições antigas. O lobo, que resiste nas cumeadas do Gerês, está no centro da mitologia.

É atmosfera de um outro tempo, a que se vive aqui. Mas na verdade é isso que torna uma viagem ao lado transmontano do Gerês uma experiência tão intensa. Não é só paisagem e património, que os há e muito, mas é sobretudo a tradição, a oralidade, as marcas da cultura popular.
Se tiver sorte, apanha em Tourém alguém como Bento Barroso, 90 anos, que enverga orgulhoso o título de maior contrabandista da região. À noite fazia se aos caminhos da serra, conta o homem, e não foram poucas as vezes que as feras se cruzaram no seu caminho. «Uivávamos para os negociantes do outro lado da fronteira, a avisar que estávamos a chegar com a mercadoria. E eles respondiam da mesma maneira. Só que às vezes não eram homens que lá estavam, eram animais.»

Falar de Montalegre é falar de comida. Junto ao castelo está a Tasca do Açougue, templo da cozinha regional.

Os velhos de Tourém – aliás, os de toda a região – falam de mulheres que encantam alcateias e as levam à noite para o monte, dos mortos que encarnam em bichos e dos bichos que de dia são homens. Tempos houve em que se organizavam batidas aos lobos, pelo menos um homem por casa. No meio da serra há grandes armadilhas, muros altos de quilómetros que convergem para um fosso. São os fojos de lobo, foram construídos há séculos e usados até aos anos 60 do século passado. Junto à vila de Montalegre e à aldeia de Fafião, no limite sudoeste do concelho, há dois exemplares muito bem conservados.

Não haverá paisagem mais mística do que a que se vê da estrada que une Tourém a Pitões das Júnias. Um planalto largo, com formações rochosas a emoldurar o campo onde os bovinos pastam livres. Em Pitões repete-se o cenário, casas de pedra, telhados de pedra, ruas de pedra. Estamos a 1103 metros de altitude e aqui vale muito a pena dar corda aos sapatos para visitar a cascata e o mosteiro de Santa Maria das Júnias. É um edifício românico em ruínas, construído no século XII pelos monges-pastores beneditinos. É de uma beleza arrebatadora, pelo edifício em si, pela floresta em volta, pelo ribeiro que corre ao lado. É monumento nacional e todos os anos, a 15 de agosto, o povo ocupa-lhe o claustro em romaria, numa das mais tradicionais procissões do país.

Casas de madeira, linhas simples, conforto: os Moinhos da Corga são um ponto de partida excelente para explorar a região.

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Montalegre é o inevitável ponto de partida para uma incursão em terras de Barroso. E, quando se fala de Montalegre, é preciso falar de comida. Junto ao castelo, na Tasca do Açougue, Rui e Fátima Madeira (na imagem, em cima) andam há doze anos a prestar homenagem aos produtos barrosãos. Na verdade, aquilo não é um restaurante, é um templo gastronómico. Há pratos incontornáveis, como a postinha de carne e o cozido barrosão (feito com carnes de fumeiro), mas o melhor é mesmo atacar os petiscos. Chouriças, alheiras e sangueiras (uma espécie de morcela) caseiras, um picadinho de carne e o polvo à galega, um presunto que é uma maravilha e as codornizes fritas em azeite da terra. Há o bacalhau desfiado, os camarões com alho, há as moelas e vai tudo muito bem com o vinho da casa, que os donos vão buscar a um produtor particular de Valpaços. O espaço é rústico, pedra e madeira, mais uns quadros de cores vivas assinados por um pintor amigo do casal, António Alijó. Mas o coração da Tasca é o braseiro que, como se quer nas casas transmontanas, é feito no chão. É um daqueles restaurantes onde se vai como se o jantar fosse em casa de um familiar. «Uma boa parte da nossa clientela é gente que vem de longe, de propósito, para comer aqui», diz Rui – e isso não é falta de modéstia, é um facto.

A região tem alguma oferta hoteleira, um hotel no centro da vila e várias casas de turismo rural nas imediações. Há um ano abriram portas os Moinhos da Corga, edifícios modulares de madeira e decorados ao estilo escandinavo, práticos, de linhas simples, eficientes. O arquiteto que os projetou, Nuno Flores, olhou para o espaço em redor antes de desenvolver as estruturas: «O projeto desenvolve-se numa encosta onde existiam quatro moinhos de água. A presença das peças de madeira nos alçados de topo e a cobertura remetem para a cornija e a cobertura de pedra presentes no edificado existente da aldeia», lê-se na memória descritiva. Fica num povoado pertinho de tudo, chamado Parafita, e é um ponto de partida excelente para explorar a região.

O Ecomuseu local tem vindo há anos a fazer um grande trabalho de sinalização do património da região, pelo que este é o território certo para se deixar perder e avançar pelos caminhos mais estreitos. Aventure-se pelo Gerês transmontano, há sempre surpresas no fim da curva.

Texto de Ricardo J. Rodrigues - Fotografias de Rui Oliveira/Global Notícias
Reportagem da revista Evasões n.º 19 - grátis à sexta-feira com o Diário de Notícias e Jornal de Notícias