Jægersborggade não é apenas a nova rua da moda de Copenhaga. É um espelho do que de melhor se faz na Dinamarca. Há coisas para comer, outras para vestir, algumas são para decorar, muitas são só para admirar. Provavelmente, o melhor e mais interessante cartão-de-visita da capital dinamarquesa.

As cidades mudam. Crescem, adaptam-se, regeneram-se. Do velho fazem novo e onde antes havia degradação ou má fama facilmente se podem erguer novos pontos de interesse. Em Copenhaga, foi isso que aconteceu. O epicentro da atração turística da capital dinamarquesa já não é o Tivoli, o centenário parque de diversões. Os batidos bares e restaurantes do Nyhavn (Porto Novo), o canal de navegação construído no século XVII, já têm concorrência de peso – sobretudo numa cidade que parece ser um laboratório de experiências gastronómicas, com o famoso Noma, o melhor restaurante do mundo, a apontar o caminho. Christiannia, o célebre conjunto de edifícios militares que, no início da década de 1970, concentrou uma comunidade hippie que ali se estabeleceu – até hoje – continua a receber turistas, mas agora têm de se dividir por outros polos de atração espalhados pela cidade.

Nørrebro, a norte do centro, é uma das áreas que melhor sentiu esta renovação. A zona foi alvo de obras de remodelação e reabilitação e abriram novos espaços de comércio. E uma rua em particular parece ter concentrado todo esse esforço de limpeza de cara. E atitude. Há pouco mais de dez anos, os proprietários dos coloridos prédios de cinco andares da rua Jægersborggade, erguidos no início do século XX, organizaram-se e decidiram arranjar e alugar as caves dos edifícios, a custos controlados. Ao início não foi fácil. Afastado do centro, numa zona de casas baratas com pequenos vendedores de drogas leves a cirandar por ali, atrair comerciantes interessados que esperavam atrair clientes curiosos revelou-se uma tarefa lenta. Mas eles chegaram.

Hoje, percorrer os trezentos metros de Jægersborggade é passar por alguns dos melhores produtos – e conceitos – que a Dinamarca tem para oferecer. E com uma caraterística que faz a diferença: esta montra da excelência escandinava em forma de rua dificilmente se poderia encontrar num centro comercial ou no duty free do aeroporto. A maior parte destas lojas de chocolate, cerâmica, roupa (nova ou em segunda mão), candeeiros, café, vinho, discos, restaurantes, galerias de arte, floristas, estúdios e ateliers de fotografia ou design representa exatamente o oposto das grandes superfícies. Ao defenderem conceitos como «pequeno», «único», «biológico», «local» ou «preço justo», os mesmos princípios do Manifesto por Uma Nova Cozinha Nórdica [ver «Meyers Bageri»], estes espaços estão na antítese da massificação.

Há cerca de duas décadas, esta era uma rua de fama duvidosa, num bairro problemático. Hoje é uma montra do equilíbrio perfeito entre a Dinamarca moderna e o respeito pela tradição. Com direito a site e tudo, para estar a par das novidades: jaegersborggade.com.

Claro que algumas das marcas que ocupam as cerca de cinquenta lojas, com pequenas portas e grandes montras para deixar entrar a pouca luz do inverno nórdico, estão também presentes em centros comerciais. Mas o facto de fazerem questão de estar aqui atesta bem a importância de Jægersborggade. Não tanto pelos turistas que atrai, dinamarqueses e estrangeiros, mas sobretudo pelo que representa a nova rua da moda de Copenhaga: o regresso ao que é pequeno. Ao que é sustentável. Ao que respeita o ambiente e o próximo. Por tudo isso, Jægersborggade é hoje uma espécie de metáfora da Dinamarca feliz e responsável.

Cemitério de Assistens
Kapelvej, 4
Um dos pulmões verdes de Copenhaga tem uma das entradas virada para o topo de Jægersborggade. São 25 hectares onde, no verão, os dinamarqueses gostam de apanhar banhos de sol. E no inverno, passear com os filhos. Sim, no cemitério, e não há nada de tétrico nisso. Numa das secções ainda mantém a sua função original, mas grande parte do parque está relvada e é propícia a caminhadas entre pinheiros e abetos. Quando foi construído, em 1760, estava bastante afastado do centro da cidade e por isso era reservado a classes mais baixas da sociedade. A situação foi entretanto alterada e estão ali sepultados – entre cerca de trezentas mil campas – o filósofo Søren Kierkegaard e o escritor de histórias infantis Hans Christian Andersen, cujos túmulos atraem a curiosidade dos visitantes.
assistens.dk

Antidote Vinbar
Jægersborggade, 56
No final da rua, um bar de vinhos que é também restaurante. Serve vinho a copo, entre o espanhol a 55 e o neozelandês a 120 coroas (7-16 euros). Não tem vinho português de mesa, mas tem vinho do Porto. «Foi uma surpresa para nós, mas a verdade é que o vinho do Porto tem cada vez mais saída entre os jovens», diz o gerente, Steen Thomaseen. Com um longo balcão de madeira e muitas velas e candeeiros
à meia-luz, é um bom antídoto para o frio no exterior. Lá dentro, T-shirts da moda e camisas leves numa clientela jovem.
facebook.com/antidotevinbar

 


My Favourite Things
Jægersborggade, 44
São «as coisas preferidas» de Maria Terry, 36 anos, natural do Sul da Dinamarca. Há meias «de um artesão de 87 anos que ainda as faz da mesma maneira há várias décadas», ganchos, malas, botas, camisolas de lã, quadros, posters, postais, objetos de design, etc. Há dias em que abre às seis. Outros às quatro. «Jægersborggade não é um sítio igual aos outros.»
myfavouritethings.dk

Manfred’s
Jægersborggade, 40
O restaurante Noma é o principal centro de experiências da nova gastronomia nórdica, com os conceitos de proximidade e produtos biológicos explorados pelo chef René Redzepi. É também considerado o melhor restaurante do mundo – já conquistou quatro vezes o título atribuído pela World’s 50 Best Restaurants Academy. Nos últimos anos, dezenas de chefs passaram pela cozinha do Noma para beber influências. Christian F. Puglisi é um deles. Depois de trabalhar com Redzepi fundou, em 2010, o restaurante Relae (Jægersborggade, 41). Um ano depois, do outro lado da rua, abriu o Mandred’s, o irmão low cost do Relae, com a mesma qualidade, o mesmo respeito pelos produtos locais, mas a preços mais em conta. Se aparecer sem reserva, é possível que não tenha lugar. Ou então arranjam-lhe um espaço ao balcão, em frente à cozinha – e assim pode ir fazendo perguntas aos cozinheiros enquanto preparam os pratos. O menu de degustação custa 250 coroas (quase 35 euros) por pessoa e inclui sete pratos – bagas silvestres, raízes, beterraba, cebola caramelizada com iogurte de leite de ovelha, consomé de cogumelos com ovo escalfado, molho de cidra, galinha estufada, truta ao vapor ou algas vermelhas são alguns dos ingredientes. manfreds.dk

Manfred’s

Meyers Bageri
Jægersborggade, 9
Nos últimos anos, a Escandinávia viveu uma revolução. Que se fez… pela boca. Isso deve-se, em grande parte, ao proprietário desta padaria. Claus Meyer, empresário, empreendedor e visionário de 51 anos, coproprietário e fundador do Noma, «o melhor restaurante do mundo», foi um dos organizadores, em 2004, de um simpósio que reuniu vários chefs dos países da região. Foi aí que nasceu o Manifesto por Uma Nova Cozinha Nórdica, um apelo ao regresso às origens no que diz respeito à escolha e confeção dos produtos que vão à mesa nestas latitudes. Foi o início da maior revolução culinária do Norte da Europa, que colocou Copenhaga entre os destinos gastronómicos do mundo (15 restaurantes com 17 estrelas Michelin). O nome de Meyer passou a estar associado à cozinha de qualidade com produtos locais. Inaugurada há três anos, a Meyers Bageri da Jægersborggade é a primeira loja de produtos alimentares do empresário. Tem outras quatro padarias, duas pequenas mercearias e cinco restaurantes. O pão escuro com sementes de abóbora, a quarenta coroas (cerca de cinco euros), é o que tem mais saída.
clausmeyer.dk/en/meyers_bakeries.html

Ro Chokolade
Jægersborggade, 25
Quando o jovem mestre chocolateiro Rasmus Olsen (36 anos) abriu a pequena loja, há quatro anos, não fazia ideia de que Jægersborggade se tornaria um local tão atraente para visitantes. Sorte a dele. O negócio corre melhor do que esperava e já pensa em abrir outro espaço. Com uma grande montra a separar o balcão de venda da fábrica, os chocolates – deliciosos – são feitos à frente dos clientes. Os de caramelo com sal (dez bombons por cem coroas/13 euros) são os que têm mais saída. ro-chokolade.com

Texto de Paulo Farinha - Fotografias de Jorge Amaral/Global Imagens