Está de portas abertas para o turismo e tem cada vez mais para oferecer. Da alta-cozinha aos bons vinhos, da natureza ao património, Ponta Delgada convida.

Anda diferente, desde o final de março, o centro histórico de Ponta Delgada. Está mais frequentado por estrangeiros e por portugueses com mapa na mão, de cabeça no ar a observar os monumentos, a percorrer a impecável calçada, a sentir na pele a humidade típica dos Açores. É consequência da abertura dos céus do arquipélago às companhias de aviação low cost, polémicas de concorrência à parte. E há tanto para ver num dos destinos mais sustentáveis do planeta.

A partir das Portas do Mar, a cidade tem outro brilho. Principalmente quando o sol consegue furar a densa camada de nuvens. Comecemos por desmistificar esta questão: apesar daquilo que nos informam os boletins meteorológicos das televisões portuguesas, não está sempre a chover nos Açores. Sim, chove bastante, mas também faz sol e calor. E às vezes nevoeiro e frio, mas essa montanha- russa climática acontece quase todos os dias nas nove ilhas. É isso que torna os Açores tão verdes, com tanta variedade de tons para a mesma cor.

E de azul também, basta olhar o mar para lá da marina de Ponta Delgada, desde as imensas janelas do Anfiteatro, o restaurante e lounge da Escola de Formação Turística e Hoteleira (efth.com.pt). Filipe Rocha é o diretor executivo. Com João Couto, professor e barman na EFTH, recebe-nos de braços abertos num dos espaços mais procurados em São Miguel. É aqui que, todos os anos em junho, se realiza o 10 Fest, um festival de gastronomia com dez chefs convidados ao longo de outros tantos dias. Conseguir lugar só com reserva e bastante antecipação, o que não é senão bom sinal. Dão-nos as boas‑vindas com um cocktail de vodka e ananás dos Açores com uma infusão de gengibre. E depois começa o festim à mesa: crocantes de morcela, chicharro frito com salada de chuchu, ovo cozido a baixa temperatura com inhame, boca-negra com ravioli de camarão, carne da vazia com endívias, geleia de figo-da-índia e loucura de chocolate. A acompanhar as especialidades açorianas, vinho da terra. É o menu de degustação do Anfiteatro, preparado e servido pelos alunos com supervisão dos professores. Uma experiência a não perder em Ponta Delgada.

Além de palco para o concurso de Red Bull Cliff Diving, o ilhéu de Vila Franca é também um dos sítios onde os dias quentes de verão sabem melhor, em São Miguel.

No centro histórico, muito para descobrir. A igreja matriz de São Sebastião, junto às Portas da Cidade, é o monumento religioso mais procurado. O basalto da ilha está bem presente nesta construção do século XVI. E ali bem perto, inaugurado no século xxi, mas com uma herança do XX, está o Louvre Michaelense, uma das mais recentes novidades de São Miguel. A antiga chapelaria de 1904, que já funcionou como armazém de fazendas, foi recuperada e é agora um espaço multifuncional. Aqui, o cliente pode fazer o seu chá, passar para o lado de dentro do balcão, comprar especiarias, produtos do mundo, roupa, cerâmica, cadernos, objetos de decoração… «Tudo o que lhe apetecer», diz Catarina Ferreira, a proprietária, vinda do concelho de Alcobaça e residente há mais de dez anos nos Açores. Fala com alegria desta nova menina dos seus olhos, mas não esquece os outros amores. E leva-nos a visitar o Rotas, o único restaurante totalmente vegetariano da ilha, a poucas centenas de metros de distância. Fazem dois turnos ao jantar e estão ambos completos. São 24 lugares sentados e há quatro anos consecutivos que recebem o certificado de excelência do website Trip Advisor. A decoração é de casa dos avós com toque moderno. É acolhedor, tal como outro dos projetos de Catarina: o ¾Hostel, que também funciona como bar. O nome diz tudo – são três quartos, daí a dificuldade em conseguir reserva, «principalmente agora com a chegada de cada vez mais turistas», confirma a própria.

A subida à Ermida da Mãe de Deus vale pelo monumento – e pela vista sobre a cidade. Em baixo, o Jardim do Colégio, junto à igreja do antigo Colégio dos Jesuítas.

A pensar nos que chegam, Bruno Corvelo abriu há coisa de ano e meio o Santo Graal, um bar de cervejas bem no centro histórico de Ponta Delgada, PDL para simplificar. Diz-nos que está «entre os dez melhores bares de cerveja do país» e tem 235 marcas diferentes para quem chega. Há tapas para acompanhar e prepara-se para breve o fabrico de cerveja artesanal própria. Tem nos americanos e nos ingleses a principal clientela, mas acredita que o público vai ser mais diversificado – «as low-costs ajudam a trazer mais gente».

João Couto, professor na EFTH e barman do Anfiteatro, dá as boas-vindas com um cocktail de vodka e ananás dos Açores.

Quem vai a São Miguel, fá-lo essencialmente pelas belezas naturais, mas a cidade tem mais para oferecer em termos de restauração e diversão noturna. Claro que os circuitos pelas lagoas e caldeiras são os mais procurados, mas um outro motivo de interesse se destaca. E, para isso, há que fazer nem 25 quilómetros (15 minutos pela via rápida) para embarcar com a Azores Sub numa saída de observação de cetáceos. O ponto de partida é Vila Franca do Campo, localidade que dá nome também ao ilhéu que se observa no mar. É dali que os saltadores da Red Bull se precipitam para o oceano. É lá que, no verão, os dias de calor sabem ainda melhor. A duas milhas da costa, o primeiro cetáceo, com a barbatana caudal a acenar antes do mergulho mais prolongado. E depois outro, e golfinhos e mais uma baleia. Não param de aparecer. A ilha ao fundo, o fim do dia, o sol a espreitar. Assim se percebe melhor o porquê de os Açores serem tão especiais.


Ficar

¾ Hostel
O primeiro hostel de Ponta Delgada apresenta uma excelente relação entre preço, qualidade e localização. Tem apenas três quartos (casa de banho partilhada), está a cinco minutos das Portas do Mar e bem perto da igreja matriz. Ambiente descontraído, tal como no café e bar no piso térreo.

Rua Dr. Guilherme Poças, 12
Tel.: 927220344
A partir de 15 euros por noite/pessoa
(inclui pequeno-almoço)

Fazer

Azores Sub


Mergulho para todos os gostos e níveis. De cursos de iniciação até expedições para profissionais, a empresa trata de tudo. E ainda abre as portas para observação de cetáceos no sempre fascinante mar dos Açores.

Marina da Vila, Loja 6
Vila Franca do Campo
Tel.: 918755853/296583999
azoressub.com

Comer

Anfiteatro
Os produtos açorianos estão em destaque no restaurante de aplicação da Escola de Formação Turística e Hoteleira. Também funciona como lounge. Há refeições leves ao almoço e menus de degustação ao almoço e jantar. Está aberto ao público todos os dias, das 12h00 às 22h00, e tem dois pisos com excelente vista sobre a baía de Ponta Delgada.

Avenida Infante D. Henrique
Tel.: 296206150
efth.com.pt
Preço médio: 20 euros

Rotas da Ilha Verde
O primeiro vegetariano de São Miguel e um exemplo de sucesso. A fila à porta é normal, por isso recomenda-se a reserva a quem quiser provar o estufado de grão, os risotti ou as belas sopas.

Rua Pedro Homem, 49
Tel.: 296628560
rotasilha.blogspot.pt
Preço médio: 15 euros

No vegetariano Rotas da Ilha Verde não podia faltar o tradicional queijo fresco com pimenta da terra.

Em baixo, o Louvre Michaelense e um dos vários bons motivos para ir ao Cais 20: as lapas.

Cais 20
Um clássico em São Miguel. Provavelmente o melhor restaurante de marisco da ilha. Peixe fresco, lapas e o famoso ‘frangalho’ são outras opções a considerar. É bastante concorrido, e um dos espaços abertos até mais tarde na ilha: encerra às cinco da manhã.

Rua Terreiro, 11 (São Roque)
Tel.: 296384811
restaurantecais20.pt
Preço médio: 20 euros

Texto de Ricardo Santos - Fotografias de Fernando Marques
Reportagem da revista evasões semanal n.º 22 - grátis à sexta-feira com o Diário de Notícias e Jornal de Notícias