Uma crónica de José Luís Peixoto. O «Passageiro Frequente» da Volta ao Mundo.

Após três semanas de Índia, cheguei a Bangalore com vontade e expetativas. Várias pessoas me tinham dito, e estava confirmado pelo Lonely Planet, que Bangalore é uma das cidades com maior desenvolvimento económico da Índia. Várias vezes me explicaram que é o «Silicon Valley da Ásia». Agora, não sei porquê mas, nesses momentos, pareceu-me que essa talvez fosse uma caraterística positiva. Quando imagino Silicon Valley com uma profundidade mínima, tenho a impressão de que deve ser um lugar cheio de programadores de html, a discutirem novas versões de software e a compararem telemóveis, mas, na Índia, onde é fácil cansarmo-nos de coisas que não funcionam, quando ouvi essa referência ao símbolo do desenvolvimento tecnológico, fiquei- me pela expressão dos meus interlocutores, que parecia sugerir uma mistura entre o melhor do Ocidente e o melhor da Índia.

Enganei-me. Segundo a minha experiência, Bangalore é uma cidade onde, pelo contrário, se encontra o pior do Ocidente e o pior da Índia. Os seis milhões de habitantes da capital da Karnataka respiram fumo dos carros misturado com pó. Essa é a cor do ar quente, húmido, espesso, onde os edifícios dos Googles e Yahoos estão ao lado de famílias inteiras que vivem na rua, por baixo de cartazes, rodeadas de lixo, ao lado de centros comerciais com McDonald’s sem carne de vaca.

Ficava no topo de um edifício, talvez um quarto andar. Subi até uma porta aberta com luzes garridas a saírem do seu interior e colunas a distorcerem música indiana. Esperava uma festa de arromba, entrei.

Logo na primeira noite, no hotel, diante de canais infinitos de filmes indianos, percebi que não tinha sono. Então, acreditei que a noite podia compensar o dia. Dirigi-me para a zona de movimento noturno, não era longe. A rua estava cheia de rapazes com camisas dos anos 70, enormes colarinhos bicudos. Os carros, as motas, as bicicletas, as vozes de centenas de pessoas. Às vezes, alguém me dizia alguma coisa, eu sorria e tentava responder, embora quase sempre me parecesse que não esperavam resposta. Dos vários pontos onde havia altifalantes a espalhar música, por instinto, dirigi-me para o mais barulhento. Ficava no topo de um edifício, talvez um quarto andar. Subi até uma porta aberta com luzes garridas a saírem do seu interior e colunas a distorcerem música indiana. Esperava uma festa de arromba, entrei.

Como se tivesse chegado a uma arca frigorífica, estavam várias dezenas de rapazes encostados às paredes, a olharem para mim. Olhei em volta, dei alguns passos tímidos, encostei-me também a uma parede e não pararam de fixar- me. Como num pesadelo, no meio daquela música estridente, ficaram todos a olhar para mim, como se tentassem derreter-me por telepatia.

Não demorei a sair. As escadas tinham janelas que davam para a rua cheia de rapazes. Foi por aí que vi chegarem carrinhas cheias de polícias, que começarem a bater com paus em toda a gente. Os rapazes pareciam estar habituados. Riam-se e corriam à frente dos polícias, como se estivessem a brincar com eles. Os polícias perseguiam-nos e a sua seriedade parecia fingida. Vistos dali, lembravam-me polícias de filmes mudos. Após três semanas de Índia, já me tinha habituado a não perceber o que se estava a passar. A música parou ao mesmo tempo, de repente, em todos os altifalantes. A rua ficou deserta. Eu continuei sem sono.

Texto de José Luís Peixoto