O relato de uma viagem por San Diego e Palm Springs, com história, lendas e cinema à mistura. À descoberta do prazer de viajar. Sempre sem rumo certo.

Viajando na América, dois conselhos: a leitura e a guinada.
 Aqui cultiva-se a pequena história e é um prazer redescobrir factos a que o cinema já nos tinha iniciado. Sair da estrada prevista é quase sempre um risco que vale a pena.

É uma boa maneira de visitar a América, começar pelo fim. Subindo a costa da Califórnia, logo a seguir à fronteira mexicana, é San Diego. A cidade fica protegida por um promontório que cercou uma baía larga com uma ilha no meio. A ilha chama-se Coronado, a baía abriga a frota americana do Pacífico e o promontório chama-se Point Loma. Nesta, um cemitério à americana, sem muros e com lápides brancas, permite, para leste, uma vista sobre a vasta baía e, para o mar, o caminho que no inverno tomam as baleias-cinzentas quando vão parir à Baixa Califórnia. Point Loma é o segundo monumento mais visitado dos Estados Unidos – e tem a estátua do navegador português João Rodrigues Cabrilho, o primeiro europeu a pisar estas paragens.

Descendo do promontório para a cidade, há a«Avenida de Portugal». Não é mais uma homenagem ao navegador. A cidade é conhecida por ter os estaleiros que faziam os maiores atuneiros do mundo, na pesca e em fábricas de enlatados e, em mar e terra, os emigrantes portugueses eram os reis do atum. Um monumento junta um grupo de homens de botas, capas e chapéus de oleado, segurando a cana longa com que, à linha, se pesca o atum da amurada dos barcos. Num mural os nomes dos pescadores de San Diego que perderam a vida na pesca: boa parte filhos da madeirenses. Portugueses americanizados que chamavam «botes» aos barcos (boats) e «canarias» às fábricas de enlatados (canneries).

Um mundo que acabou, os barcos foram para outros portos e as fábricas fecharam e parte da explicação está à saída de San Diego. O célebre oceanário Sea World tem os golfinhos como atração, os mamíferos que têm o hábito de acompanhar os cardumes de atum. A morte dos golfinhos, presos nas redes de pesca, levou à legislação ecológica que acabou com o San Diego pesqueiro e foi apagando os portugueses da paisagem da cidade. Com exceção do solitário no alto do promontório.

A baía de San Diego é a casa da frota Norte-Americana no Pacífico. Sim, há porta-aviões para ver.

A marca urbanística da cidade é dada pelas vivendas de telhas ocres. Casas baixas casando com as curvas das colinas, de inspiração hispânica, introvertidas em pátios floridos mas abertas em vidros amplos para a paisagem. O céu é quase sempre aberto, o mar sempre à vista. Na Old Town, os restaurantes piscam o olho ao país vizinho – a comida é mexicana, as margaritas são servidas em taças largas e a música é tocada por mariachis com fartos bigodes. A San Diego agradam-lhe notoriamente as raízes hispanic. Os dois restaurantes mais conhecidos da cidade, Casa de Pico e Casa de Bandini, guardam o nome dos dois mais destacados líderes californios, Pío Pico e Juan Bandini, de origem mexicana mas que aceitaram a anexação estado-unidense, em meados do século XIX, numa de ganhar tempo. Em 1970 a população californiana de origem europeia era oitenta por cento mas passou para metade no censo de 2011. Já está quase ela por ela com os hispânicos, que são 38 por cento.

O Sea World é um dos Oceanários mais famosos do mundo. Os golfinhos são a principal atração.

Primeiro porto de guerra do mundo durante a Segunda Guerra Mundial e a guerra do Vietname, San Diego foi cenário de dezenas de filmes protagonizados por famosos, de Spencer Tracy, fazendo de sargento, a Tom Cruise, de piloto da Navy, silhuetas com que nos julgamos cruzar no porto ou no Gaslamp. Este, um dos mais famosos quarteirões históricos dos Estados Unidos, é o centro da vida noturna da cidade, com casas vitorianas e candeeiros de rua do século XIX. No gigantesco tanque da baía, navios fundeados de tamanhos diversos e pintados de cinzento militar, torres e peças de artilharia e ar sóbrio dos barcos de guerra, ajuda a criar a ilusão tão comum aos novatos na América: já vi isto…

O Gaslamp é um dos mais famosos quarteirões históricos dos EUA. Candeeiros de ferro e casas antigas.

O edifício mais emblemático de San Diego é o Hotel del Coronado. Sobre a praia, construído em 1888, todo de madeira, o hotel, The Del, deve ser visitado como um museu popular. Porque nisso a América é excelente, sabe escolher pormenores e evocar histórias. O visitante pode ficar a saber que o depósito de receber água da chuva serviu para armazenar bebidas alcoólicas na proibição. Ainda hoje é impossível passar do jardim para a areia que leva à praia junto ao hotel sem sonhar que se vai cruzar a todo o momento com Marilyn Monroe de roupão que não esconde as coxas generosas, tendo ao lado Jack Lemmon com uma peruca loura: Quanto Mais Quente Melhor foi rodado ali. Eles fugiam de gangsters de Chicago – como não lembrar o antigo depósito escondido de uísque do Del Coronado? E isto tudo evoca-se passeando de borla, basta fazer de hóspede, por um belo hotel. Tem disso qualquer viagem americana, pelo país de recente história mas muitas histórias atiçadas pela universidade de Hollywod.

San Diego foi cenário de dezenas de filmes protagonizados por famosos, de Spencer Tracy a Tom Cruise.

Sai-se de San Diego pela Autoestrada 5, ou escolhe-se, a metade do caminho, em Dana Point, ir pela costeira Estrada 1, a estrada das ondas de surf. Ou, o que é quase sempre uma boa opção nas estradas americanas, dá-se uma guinada em sentido inesperado e esquecem-se as canções dos Beach Boys. Pela Autoestrada 15 e as estradas 371 e 74, virando para o interior, não há praias mas paisagens lunares, desérticas, com, por únicas árvores, as joshua trees, como o nome do álbum dos U-2. As yuccas, como quem leu bandas desenhadas de cowboys sabe, ficaram joshua trees, nome bíblico, por causa dos mórmones que as confundiram com alguém a rezar. Chega-se finalmente a Palm Springs, um oásis, pretexto para andar por estradas de deserto. Oásis, nota-se, porque olhando à volta tudo parece serem cartas-postais.

Tanto que, quando se sai do carro e somos surpreendidos por um cacimbo caindo sobre os passeios – gentil oferta da câmara que distribui canos para nos aspergir de humidade –, o que mais nos surpreende é as paredes e os próprios passeios não se enrugarem e estragarem como cartões que supúnhamos serem. À volta, as cores pastel, as montanhas secas de San Jacinto contrastando com as palmeiras e os jardins. Estamos mesmo em cidade real, século XXI. Numa esquina, uma estátua gigante mostra Marilyn, a de O Pecado Mora ao Lado, com o vestido branco esvoaçando.

As montanhas de San Jacinto dominam a paisagem em redor de Palm Springs.

Turistas deixam-se fotografar para ficarem sob a lingerie da diva. John Kennedy, em 1962, já presidente, tendo de passar por Palm Springs, escolheu a propriedade de Bing Crosby, apesar de o velho cantor ser republicano. E dormiu lá com Marilyn. Frank Sinatra, amigo antigo e apoiante do presidente, que esperava a honra de o hospedar – até tinha mandado construir um pavilhão para a ocasião –, ficou furioso. Mas Kennedy não podia arriscar-se mais: nesta Palm Springs já tinha dormido com uma tal Judith Exner, amante que partilhou com o chefe mafioso Sam Giancana, outro amigo de Sinatra – e esse convívio já o FBI tinha feito chegar ao ministro da Justiça, Bob Kennedy. A propriedade de Frank Sinatra que John Kennedy recusou visitar, a Twin Palms, pode ser alugada (cerca de dois mil dólares a noite).

A cama que Sinatra partilhou com Ava Gardner está disponível. Guarda-se a pancada numa parede que, diz-se, foi feita pelo impacte de uma garrafa de champanhe atirada a Sinatra, e falhou, quando Ava desconfiou que ele tinha dormido com Lana Turner. Sinatra pode ser seguido pelas pegadas deixadas: a igreja que frequentou, o túmulo no Desert Memorial Park, o seu restaurante preferido, o Melvyn’s, e no Wolfson Park uma rocha falsa com um botão vermelho que, carregado, faz ouvir a voz de A Voz: «Olá, sou o Frank Sinatra.

Num dos quartos da Twin Palms está a marca na parede de uma garrafa de champanhe atirada a Frank Sinatra por Ava Gardner.

Que este parque, nem que seja por um momento, lhe traga paz e felicidade. Obrigado!»… E pode atravessar-se o cruzamento da Estrada Frank Sinatra com a Estrada Bob Hope. O Coachella Valley começou a ser notado há mais de cem anos porque sendo deserto e quente no verão mantinha-se quente no inverno. Seco e com águas termais podia continuar a ser ignorado, não estivesse a 170 quilómetros de uma cidade com tantos ricos, LA. Começou por ser estância para doentes receosos da humidade e passou a resort de milionários. Muitos artistas a quem os maiores arquitetos americanos estavam interessados em ficar ligados.

A melhor maneira de a conhecer é de carro, mapa das casas famosas na mão, e estar preparado para invejar. A corrente de arquitetura Mid-Century Modern é a mais bem representada, com casas de John Lautner, Lloyd Wright (o filho do ainda mais famoso Frank Lloyd Wright), E. Stewart Williams.

Nos anos 1930, Palm Springs escapou a outro destino. A máfia da Califórnia ainda pensou na cidadezinha do deserto como meca do jogo. Alguns dos dinners e resorts abriam nas traseiras salões de póquer e roleta. Mas as leis californianas insistiram em recusar licença para o jogo (com a exceção das reservas índias) e um gangster visionário, o judeu Benjamin Bugsy Siegel, sonhou com o nascimento de uma cidade do jogo no deserto do Nevada. Bugsy apostou em Las Vegas, ergueu o casino fundador, o Flamingo, e acabou baleado pelos colegas.

Mas Las Vegas era irreversível. E Palm Springs pôde continuar a ser baixinha e bela, apostando mais nos postais do que nos néons. Por ironia, o Bugsy, com Warren Beatty, foi filmado em Palm Springs.

Dicas

Esta zona da Califórnia é mais facilmente visitável no outono ou na primavera – quando as temperaturas são mais amenas. Palm Springs chega facilmente aos 40 graus no verão. E, apesar de seco, o tempo pode impedir uma viagem agradável. O inverno é ameno, mas pode ser chuvoso.

Ir

Não é preciso visto, mas autorização ESTA, dos serviços americanos – obtida online. Não existem voos diretos, a partir de Lisboa, para San Diego, mas há companhias que fazem o percurso com uma ou duas escalas. San Diego-Lisboa-San Diego para janeiro a março do próximo ano estão a um preço médio de cerca de 850 euros em companhias como a Air Europa, Delta Air Lines, KLM, Air France e British Airways. O aeroporto internacional de San Diego fica a apenas dez minutos do centro da cidade.

Texto de Ferreira Fernandes - Fotografias: Direitos Reservados